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Escola Secundária José Saramago - Mafra

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quarta-feira, 24 de maio de 2017

PERCEÇÃO CONSCIENTE


Erhard Jacoby.




«Este quadro (de Erhard Jacoby) ilustra o facto de que cada um de nós, conhecendo o mundo através da sua psique individual, conhece-o de maneira um pouco diferente das outras pessoas. O homem, a mulher e a criança estão olhando a mesma cena, mas para cada um deles os diferentes detalhes aparecem mais ou menos claros e mais ou menos escuros. Só através da nossa percepção consciente é que o mundo "lá de fora" existe: estamos cercados por algo completamente desconhecido e impenetrável (representado pelo segundo plano acinzentado do quadro).»

O Homem e os seus Símbolos, concepção e organização de Carl G. Jung, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2002, p. 229.



segunda-feira, 8 de maio de 2017

DIA DA MÃE


Pablo Picasso, Mother and child - Marie-Thérèse and Maya (1938).
Imagem daqui.





(IMAGENS, I)


Um dia, em Kharkow, num bairro popular
(Oh, esta Rússia meridional, em que todas as mulheres,
Com xailes brancos pela cabeça, têm ares de Madonas!),
Vi uma jovem que voltava da fonte,
Carregando, à moda do país, como no tempo de Ovídio,
Dois baldes suspensos dos extremos de um pau
Em equilíbrio no pescoço e nos ombros.
E vi uma criança esfarrapada aproximar-se dela e falar-lhe em voz baixa.
Então, inclinando amavelmente o corpo para a direita,
Ela fez de maneira a que o balde cheio de água pura tocasse o chão
Ao nivel dos lábios da criança que ajoelhara para beber.



Valery Larbaud, "Images" I, A. O. Barnabouth, ses oeuvres complètes, c'est-à-dire: un conte, ses poésies et son journal intime (1913), in "Vozes da Poesia Europeia - III", traduções de David Mourão-Ferreira, número 165, setembro-dezembro de 2003, p. 72.




terça-feira, 2 de maio de 2017

O OLHAR DO POETA


Edouard Manet. Bouquet de violettes et éventail (1872).
Imagem daqui.




"Entre ce qui commence et ce qui finit l'oeil du poète a saisi cet imperceptible point où quelque chose pique."

Paul Claudel, Cent phrases pour éventails, Paris, Gallimard, 1996.




quarta-feira, 26 de abril de 2017

DA CONCISÃO LXXXII


Imagem daqui.



"Se siamo chiamati a semplificare ciò che sembra complicato, non siamo in compenso mai chiamati a complicare ciò che è semplice."

Madeleine Delbrêl, La gioia di credere, apud Andrea Moro, Breve storia del verbo essere. Viaggio al centro della frase, Milano, Adelphi Edizioni S. P. A., 2010, p.81.



quinta-feira, 30 de março de 2017

FREI LUÍS DE GRANADA


Frei Luís de Granada, por Francisco Pacheco, no Libro de descripción de verdaderos retratos, ilustres y memorables varones (1599).




"FREI LUÍS DE GRANADA

Se visitardes um dia, em Lisboa, a Igreja de S. Domingos (e quem vai visitá-la, se é morta e queimada como clareira de floresta sem árvores, frutos e fontes limpas?), no que foi a antecâmara da capela-mor, encontrareis o túmulo de Frei Luís de Granada. É de mármore branco com jaspes embutidos de cores variadas, mais baços do que reluzentes. Os ossos que contém são dum homem que o povo de Lisboa amou com paixão; tanto lhe pretendeu as relíquias, até os dentes, que eram poucos e desolados na boca maviosa, que foi preciso defender-lhe o cadáver a ponta de punhal.

Dois nobres portugueses o escoltaram até ao antecoro do convento de S. Domingos, onde ficou quase meio século. Já se armavam as conspirações com que o reino se libertou dos Filipes, quando, com esmolas dos fiéis, se levantou a arca em que jaz Frei Luís.

Mas perdeu-se a memória de tão grande predicador."

Agustina Bessa-Luís, Caderno de Significados, selecção, organização e fixação de texto de Alberto Luís e Lourença Baldaque, Lisboa, Guimarães Editores, 2013, pp. 50-51.




sexta-feira, 24 de março de 2017

RILKE


Imagem daqui.




DE OS SONETOS A ORFEU

1. XXII

Apressados que somos!
Mas a marcha do tempo
é como simples sopro
dentro do permanente.

O que depressa corre
em breve é já passado:
só no que se demora
somos iniciados.

Juventude, não turves
teu coração no ímpeto
nem no sonho do voo.

O claro e o escuro,
a flor tal como o livro:
tudo exige repouso.

Rainer Maria Rilke, Die Sonette an Orpheus, Erster Teil, XXII (1923), in "Vozes da Poesia Europeia - III", Colóquio-Letras, traduções de David Mourão-Ferreira, número 165, setembro-dezembro de 2003, p. 52.



terça-feira, 21 de março de 2017

DIA MUNDIAL DA POESIA


Pablo Picasso, O Poeta (1911).




O POETA

O poeta tem os seus dias
contados,
como todos os homens; mas quanto,
quanto mais variados!

As horas do dia e as quatro estações,
um tanto menos de sol ou mais de vento,
são o devaneio, o acompanhamento
sempre diverso para suas paixões,
sempre as mesmas; e o tempo que faz,
ao levantar-se, eis o grande acontecimento
do dia, sua alegria assim que desperta.
Nada como as luzes contrárias o alegra,
nada como os belos dias
movimentados,
e em longas histórias multidões imersas,
onde o azul e a tempestade duram pouco,
onde se alternam searas de infortúnio
e de vitória.
Com um rubro crepúsculo se entusiasma;
e com as nuvens muda de cor,
ainda que lhe não mude a alma.
O poeta tem os seus dias
contados,
como todos os homens; mas quanto,
quanto mais abençoados!

Umberto Saba, "Il poeta", Trieste e una donna (1912), in "Vozes da Poesia Europeia - III", Colóquio-Letras, traduções de David Mourão-Ferreira, número 165, setembro-dezembro de 2003, p. 75.



quarta-feira, 15 de março de 2017

O MAR E O AMOR


Edgar Degas, Marine, soleil couchant (1869).
Imagem daqui.



O MAR E O AMOR

O mar mais o amor são igualmente amargos.
Amargo, sim, o mar; amargo, sim, o amor.
E, tal como no mar, naufragamos no amor,
pois no mar e no amor existem tempestades.

Quem as águas temer, permaneça na marge;
e quem temer o mal de sofrer por amar
não se deixe, jamais, pelo amor inflamar:
assim ficam os dois libertos de naufrágio...

Teve a mãe do amor como seu berço o mar,
Sai o fogo do amor; sua mãe sai das águas;
mas contra um fogo tal a água não tem armas.

Pudesse ela extinguir um braseiro amoroso,
e então o teu amor, que para mim é fogo,
'staria extinto já no mar das minhas lágrimas.


Pierre de Marbeuf, "Et la mer et l'amour ont l'amer pour partage", in Vozes da Poesia Europeia - II, traduções de David Mourão-Ferreira, número 164, maio-agosto de 2003, p. 177.



sexta-feira, 10 de março de 2017

O REI PASMADO


Gonzalo Torrente Ballester (La Coruña, 1910-Salamanca, 1999).
Imagem daqui.



"O Rei atreveu-se a dar uma olhadela ao espelho, de soslaio, e, apesar do medo que o fazia tremer, medo ou porventura desejo, aprovou, pelo menos em primeira instância, a imagem que o espelho lhe devolvia. Então olhou-se, de frente e com franqueza: tinha vestido um fato branco, sem outros adornos além dos bordados do tecido, e conseguira dominar, à força de água e pente, o cabelo rebelde e claro que, assim acachapado, rematava bem a sua figura. Tinha pendurada ao pescoço uma miniatura do Tosão, e esteve quase para a tirar também, mas, como pensava dar uma volta pelo salão, onde àquela hora ainda restavam alguns cortesãos, preferiu deixá-la, ainda que mais tarde a guardasse na escarcela. Sorriu para si próprio, e saiu. Quando chegou ao corredor mais largo, ouviu a música que vinha do lado do salão, e para lá se dirigiu. Não abriu a porta de roldão, nem permitiu que o anunciassem; começou por entreabri-la, e pôde ver as pessoas dançando e, ao fundo, em cima do estrado, uma trupe de músicos e cantores. Pareceu-lhe um bom presságio, entrou e deslizou colado a uma das paredes, sem que ninguém o tivesse descoberto, ou, pelo menos, sem que ninguém desse mostras de o ter visto entrar. Abrigou-se no vão de uma janela, quase tapado pelas cortinas, mas havia alguém ali, ou encoberto ou escondido. Quem ali estava descobriu-se, e fez-lhe uma chapelada. O Rei reconheceu-o de imediato. (...)"

Gonzalo Torrente Ballester, Crónica do Rei Pasmado, Lisboa, Editorial Caminho, 1992, pp. 110-111.



sexta-feira, 3 de março de 2017

CINEMA - ARTE MILITAR






«Cinématographe, art militaire. Préparer un film comme une bataille*.


*À Hedin, nous étions tous logés à l'Hôtel de France. Pendant la nuit, me poursuivait le mot de Napoléon: "Je fais mes plans de bataille avec l'esprit de mes soldats endormis."»

Robert Bresson, Notes sur le cinématographe, Paris, Éditions Gallimard, 1988, p. 30.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

GATOS II


Pierre-Auguste Renoir, Femme au chat (ca. 1875).
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GATOS

O universo
Do gato.

O outro universo.

*

O gato
Senta-se sobre a mesa

Como se tivesse
Vencido para sempre.

*

O gato nada sabe
Do que vem
Nos dicionários.

Sabe alguma coisa
Do que lhes falta.

*

Este gato
Apenas se inclina

Diante de iguarias
De príncipe oriental.

*

Faz-se o que se pode,
Diz a sabedoria popular.

O gato não pode grande coisa.
Senão reinar.

Guillevic, "Le chat regarde, ...", Mammifères (1981), in "Vozes da Poesia Europeia - III", traduções de David Mourão-Ferreira, número 165, setembro-dezembro de 2003, p. 201.




terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

DIA DOS NAMORADOS


Detalhe de painel de azulejos da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Rio de Janeiro.
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Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
altaneiro, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, cobarde e animoso;

não ter, fora do bem, centro ou repouso;
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
agastado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

fechar o rosto ao claro desengano,
beber veneno por licor suave,
olvidar o proveito, amar o dano;

acreditar que o céu no inferno cabe,
dar a vida e a alma a um doce engano:
isto é amor; quem o provou bem sabe.


Lope de Vega, "Desmayarse, atreverse, estar furioso,", in Vozes da Poesia Europeia - II, traduções de David Mourão-Ferreira, número 164, maio-agosto de 2003, p. 140.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

DA CONCISÃO LXXX




«La beauté de ton film ne sera pas dans les images (cartepostalisme) mais dans l'ineffable qu'elles dégageront.»


Robert Bresson, Notes sur le cinématographe, Paris, Éditions Gallimard, 1988, p. 119.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

ALEGORIA DA PAZ

Joseph-Marie Vien (1716-1809), Venus Showing Mars her Doves Making a Nest in his Helmet, 1768.
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EPIGRAMA

No capacete de um soldado
fizeram ninho aquelas pombas:

toda a paixão que tem por Marte
eis como Vénus a demonstra.



Petrónio, "Fragmento 36", in Vozes da Poesia Europeia - I, traduções de David Mourão-Ferreira, Colóquio-Letras, número 163, janeiro-abril de 2003, p. 121.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

DA CONCISÃO LXXIX

Claude Monet, La Pie (1869).
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6

A neve
sobre a terra
estende
um tapete de neve
para a neve.

Paul Claudel, Cent phrases pour éventails (1927), in "Vozes da Poesia Europeia - III", traduções de David Mourão-Ferreira, número 165, setembro-dezembro de 2003, p. 23.



terça-feira, 25 de outubro de 2016

"REBUS" I

Imagem daqui.



Rebus
(Coisas)

"O enigma figurado consiste em exprimir palavras ou frases por meio de desenhos ou disposições gráficas de letras. Aqueles que usam desenhos, como os hieróglifos, são os mais antigos e constituem uma das primeiras maneiras de exprimir o pensamento. Heródoto (Histórias, IV, 131, 132) conta que os Citas enviaram a Dario um pássaro, um rato e uma rã, acompanhados de cinco flechas. Tratava-se de uma espécie de enigma figurado que significava: «Se não te esconderes sob a terra como o rato, na água como a rã, e se não fugires pelos ares como o pássaro, então não escaparás às flechas dos Citas."» César, sabendo que a lei romana proibia que se gravasse o nome de um magistrado vivo nas moedas, mandou que se cunhasse a imagem de um elefante; em cartaginês, a palavra que designava César e o paquiderme era a mesma.

A palavra rebus, ablativo plural de res, que significa «coisa», serviu para designar os libelos que os estudantes picardos tinham o hábito de lançar na altura do Carnaval. Tais libelos, contendo escandalosas indiscrições, mascaravam-nas sob a forma de enigmas. A sua denominação completa parece ter sido, segundo Ménage: De rebus quæ geruntur ( «coisas que acontecem»). O admirável Tabourot des Accords (1547-1590) reproduz um grande número de rébus (a palavra ganha um acento agudo em francês) picardos nas suas Bigarrures et Touches (1582) (...). Tal livro, um grande clássico para todos aqueles que são apaixonados por jogos de palavras (...), trata de trocadilhos, acrósticos, versos leoninos, contrepèteries, antístrofes e enigmas figurados.

Os enigmas figurados, muito populares no século XVI, foram de uso frequente nos brasões. Chama-se «armas falantes» aos brasões que são concebidos dessa forma. Colbert, por exemplo, fez-se designar por uma cobra (coluber, em latim). Louvois foi representado por um lobo de olhos bem visíveis: «Loup voit» (Lobo vê).

Ménage chama «rébus da Picardia» aos libelos em questão. Todavia, tal designação surge bastante tarde, ao passo que a palavra rébus já é transcrita em 1480. É preciso certamente considerar que se trata da palavra «coisas», rebus em latim, oposta às litteris, «letras»; o conjunto indicaria o acto de escrever por meio de desenhos.

Podemos, portanto, distinguir o enigma figurado propriamente dito (feito de coisas ou desenhos) do enigma composto de letras (mais próximo do caligrama). Um desenho que representa seis girafas aladas, para a primeira categoria, pode servir de epitáfio para um grande pintor, decifrando-se assim: «Six girafes à ailes» (Ci-gît Raphaël) («Seis girafas aladas» (Aqui jaz Rafael)). Toda a gente conhece o famoso leão dourado que serve de insígnia a alguns albergues e é cada vez mais representado sob a sua forma escrita, o que o faz pertencer à segunda categoria: «Au lion d'or» (au lit, on dort) («No leão de ouro» (na cama, dorme-se)). (...)"

Orlando de Rudder, Cogito Ergo Sum - Dicionário Comentado de Expressões Latinas, Lisboa, Edições Texto & Grafia, 2008, pp. 207-209.



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

DA CONCISÃO LXXVIII


Imagem daqui.


Se estivesses a caminhar numa planície, se tivesses a boa vontade de caminhar e, contudo, estivesses a recuar, então seria uma coisa desesperante; mas como estás a trepar uma encosta íngreme, tão íngreme como tu próprio és, visto cá de baixo, podem os recuos ser originados tão-somente pelas características do terreno e não deves desesperar.

Franz Kafka, Aforismos (Escritos na Localidade Histórica de Zürau), Lisboa, Assírio & Alvim, 2008, p. 38.


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

OUTONO




"O outono outra vez

(excertos)

Batalha das dálias
para sair da terra.
Dedos verdes, ocultos, que a empurram.
Pedem água e carícias de neblinas
para abrirem depressa os seus escudos altos
e defender a glória do outono.

(...)
*

Espero que de mim os versos de desprendam
como no outono a árvore
espera que as folhas se desprendam."

Rafael Alberti

Três Momentos da Poesia Europeia (De Safo e Píndaro a Ungaretti e Salinas), seleção, tradução e notas de Albano Martins, Porto, Edições Afrontamento, 2012, pp. 164-165.



terça-feira, 26 de julho de 2016

CORRESPONDÊNCIAS


Imagem daqui.



A Natureza é um templo onde vivos pilares
Pronunciam por vezes palavras ambíguas;
O homem passa por ela entre bosques de símbolos
Que o vão observando em íntimos olhares.

Em prolongados ecos, confusos, ao longe,
Numa só tenebrosa e profunda unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Correspondem-se as cores, os aromas, os sons.

Há perfumes tão frescos como a jovem carne,
Doces como oboés e verdes como prados,
- E há outros triunfantes, ricos, corrompidos,

Que se expandem no ar como coisas sem fim,
Como o âmbar, o almíscar, o incenso, o benjoim,
E cantam os arroubos da alma e dos sentidos.

Charles Baudelaire, "Correspondances", in Les Fleurs du Mal, citado em Um Cânone Literário para a Europa, organização de Helena Carvalhão Buescu et al., Vila Nova de Famalicão, Edições Húmus, 2012, p. 136.



segunda-feira, 25 de julho de 2016

OS TRABALHOS E OS DIAS

Calendário Rústico 
Saint-Romain-en-Gal, Viena, França
Imagem daqui.



"(...) O melhor de todos é aquele que pensa por si,
compreendendo o que em seguida e no fim será melhor;
bom é também aquele que obedece a quem bem o aconselha;
mas quem não sabe pensar por si nem, ao escutar outrem,
o guarda no coração, esse é, pelo contrário, um homem inútil.
Mas tu, lembrado sempre das minhas recomendações,
trabalha, Perses, estirpe divina, para que a Fome
te odeie e para que te estime a venerável Deméter
de formosa coroa e te encha de víveres a casa.
Pois a Fome sempre acompanha o homem preguiçoso.
Deuses e homens indignam-se contra quem no ócio
vive, semelhante na índole aos zangões sem ferrão
que o labor das abelhas devoram e, sem trabalhar,
comem; preocupa-te pôr em ordem os trabalhos adequados,
para que, na estação própria, de trigo se encham os celeiros.
Graças ao trabalho, os homens são ricos em rebanhos e bens;
e pelo trabalho serás muito mais estimado pelos imortais
(e pelos mortais, porque eles muito detestam os ociosos).
Trabalho não é vergonha, é o ócio que traz vergonha.
Se trabalhares, em breve te inveja o homem ocioso,
porque enriqueces; à riqueza, seguem-na o mérito e a glória.
Na situação em que te encontras, trabalhar é melhor para ti,
se desvias das riquezas alheias o ânimo volúvel
e, dando-te ao trabalho, cuidas da subsistência, como te aconselho.
A vergonha que acompanha o homem necessitado não é boa,
a vergonha que os homens muito prejudica ou favorece;
a vergonha anda ligada à miséria, a confiança à prosperidade."

Hesíodo, Teogonia/ Os Trabalhos e os Dias, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 2005, p. 104.