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Escola Secundária José Saramago - Mafra

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL!


Pietro Cavallini, O nascimento de Cristo, mosaico, Basílica de Santa Maria em Trastevere, Roma.




CARTÃO DE NATAL

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem,
o sim comer o não.

João Cabral de Melo Neto, Poesia Completa - 1940-1980, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

DO NOME XVI


Cassiopeia, no céu.
Imagens daqui.




OS NOMES

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
- Tantos gestos, palavras, silêncios -
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso ?)
Que o nome querido já nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer «Meu Deus, 
                                                                                                       valei-me ».

Adelaide não foi para mim Adelaide somente
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopeia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.

Os epitáfios também se apagam, bem sei.
Mais lentamente, porém, do que as reminiscências
Na carne, menos inviolável do que a pedra dos túmulos.

                                                                                              Petrópolis, 28-2-1953

Manuel Bandeira, Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S.A., 1990. pp.306-307



quarta-feira, 31 de outubro de 2018

PENSAMENTO E RITMO


Ricardo Reis, pormenor do mural de Almada Negreiros
na Faculdade de Letras de Lisboa.




VII

Ponho na altiva mente o fixo esforço
        Da altura, e à sorte deixo,
        E as suas leis, o verso;
Que, quando é alto e régio o pensamento,
        Súbdita a frase o busca
        E o scravo ritmo o serve.

Ricardo Reis, Poesia, edição de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, p. 23.





segunda-feira, 23 de abril de 2018

JANELAS


André Vicente Gonçalves.
Imagem daqui.




ouverture la vie en close

em latim
«porta» se diz «janua»
e «janela» se diz «fenestra»
a palavra «fenestra»
não veio para o português
mas veio o diminutivo de «janua»,
«januela», «portinha»,
que deu a nossa «janela»
«fenestra» veio
mas não como esse ponto da casa
que olha o mundo lá fora,
de «fenestra», veio «fresta»,
o que é coisa bem diversa
já em inglês
«janela» se diz «window»
porque por ela entra
o vento («wind») frio do norte
a menos que a fechemos
como quem abre
o grande dicionário etimológico
dos espaços interiores
e ver-te
verde vênus
doendo
no beiracéu
é ver-nos
em puro sonho
onde
ver-te, vida,
é alto ver
através de um véu

Paulo Leminski, Toda Poesia, São Paulo, Companhia das Letras, p. 153.



terça-feira, 6 de março de 2018

DO NOME XIV





nomes a menos

Nome mais nome igual a nome,
uns nomes menos, uns nomes mais.
Menos é mais ou menos,
nem todos os nomes são iguais.
Uma coisa é a coisa, par ou ímpar,
outra coisa é o nome, par e par,
retrato da coisa quando límpida,
coisa que as coisas deixam ao passar.
Nome de bicho, nome de mês, nome de estrela,
nome dos meus amores, nomes animais,
a soma de todos os nomes,
nunca vai dar uma coisa, nunca mais.
Cidades passam. Só os nomes vão ficar.
Que coisa dói dentro do nome
que não tem nome que conte
nem coisa pra se contar?

Paulo Leminski, Toda Poesia, São Paulo, Companhia das Letras, 2013, p. 123.



terça-feira, 16 de janeiro de 2018

DA CONCISÃO XCV

Imagem daqui.



quem?
mim-
guém?

Arnaldo Antunes, Antologia, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2006, p. 13.



sábado, 6 de janeiro de 2018

DIA DE REIS


El Greco (1541-1614), A Adoração dos Magos (1568).



segunda-feira, 8 de maio de 2017

CONVERSA "POR QUE MACHADO DE ASSIS É UM CLÁSSICO?"






"No dia 9 de maio, pelas 18h30, Sónia Netto Salomão (...) e Anabela Mota Ribeiro (...) conversarão no auditório da Fundação José Saramago sobre a importância da obra de Machado de Assis."

A imagem e todas as informações encontram.se aqui.



quarta-feira, 19 de abril de 2017

LIMITES AO LÉU


Imagem daqui.




LIMITES AO LÉU


POESIA: "words set to music" (Dante
via Pound), "uma viagem ao
desconhecido" (Maiakovski), "cernes e
medulas" (Ezra Pound), "a fala do
infalável" (Goethe), "linguagem
voltada para a sua própria
materialidade" (Jakobson),
"permanente hesitação entre som
e sentido" (Paul Valéry), "fundação do
ser mediante a palavra" (Heidegger),
"a religião original da humanidade"
(Novalis), "as melhores palavras na
melhor ordem" (Coleridge), "emoção
relembrada na tranquilidade"
(Wordsworth), "ciência e paixão"
(Alfred de Vigny), "se faz com
palavras, não com ideias"
(Ricardo Reis/ Fernando Pessoa), "um
fingimento deveras" (Fernando
Pessoa), "criticism of life" (Matthew
Arnold), "palavra-coisa" (Sartre),
"linguagem em estado de pureza
selvagem" (Octávio Paz), "poetry is to
inspire" (Bob Dylan), "design de
linguagem" (Décio Pignatari), "lo
imposible hecho posible" (Garcia
Lorca), "aquilo que se perde na
tradução" (Robert Frost), "a liberdade
da minha linguagem" (Paulo
Leminski)...

Paulo Leminski, La vie en close, São Paulo, Brasiliense, 1991.



quarta-feira, 29 de março de 2017

DA CONCISÃO LXXXI


Imagem daqui.




"(...)
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que vento em folha de livro.
todavia a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
(...)"

João Cabral de Melo Neto, "Para a Feira do Livro", in Poesia Completa (1940-1980), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, p.158.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

GATOS III





O GATO

Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
Se num novelo
Fica enroscado
Ouriça o pêlo, mal-humorado
Um preguiçoso é o que ele é
E gosta muito de cafuné

Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando à noite vem a fadiga
Toma seu banho
Passando a língua pela barriga


Vinicius de Moraes, Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1998, p. 762-763.




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

ESTRELA POLAR


~
Constelação da Ursa Menor. Johannes Hevelius, Uranographia (1690).
Imagem daqui.




A ESTRELA POLAR

Eu vi a estrela polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.

Vinicius de Moraes, Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1998, p. 309-310.



sábado, 31 de dezembro de 2016

FELIZ ANO NOVO !

Visco. Daqui.


XIII

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.


Cecília Meireles, Cânticos, São Paulo, Editora Moderna, 1982, Canto XIII, s/ p.



quinta-feira, 20 de outubro de 2016

DO NOME IX (ROCAMBOLESCO!)


Imagem daqui.



«OS ABNEGADOS

Há uma página de Os Maias que não consigo esquecer. Imaginem um ministro de Educação que não tinha cara, só tinha testa. Nem um mísero e escasso fio de cabelo. Tamanha testa foi o seu destino e sua glória. Ele não precisava ciciar uma palavra, ou desdenhar um gesto, ou piscar um olho. A testa bastava e repito: - a testa era a evidência mesma do gênio.

Uma noite, está o nosso ministro numa recepção. Cercado de damas e cavalheiros por todos os lados. E, súbito, alguém fala na Inglaterra. S. Ex.ª achou bonito o nome, o som. Inglaterra. E vira-se, então, para o Ega, que estava a dois passos. Pergunta-lhe: - "Sabe se, na Inglaterra, há folhetinistas de pulso, como aqui? Talentos como os nossos?" Primeiro, o Ega tem uma vertigem diante da testa inaudita. Em seguida, informa: - "Lá não há literatura." Diz então o ministro: - "Logo vi. Povo prático, essencialmente prático."

Eis o que eu queria dizer: - sou um pouco essa admirável testa de Os Maias. Em criança, só li folhetim. E ainda hoje, tanto tempo depois, ainda preservo a nostalgia dos Sue, dos Perez Scrich, dos Dumas pai, dos Ponson Du Terrail. Outro dia, vou a uma festinha em casa de um amigo. E, de repente, vem a dona de casa, com um pratinho. Pergunta: - "Aceita rocambole?" Esse nome arremessou-me no passado profundo. "Rocambole" era o nome de um herói de Ponson Du Terrail e título também do próprio folhetim. Disse, radiante: - "Pois não, pois não." E os dois ficaram justapostos na minha memória: - o personagem e o doce, o folhetim e o prato. (...)»

Nelson Rodrigues, O Homem Fatal, Lisboa, Espólio de Nelson Falcão Rodrigues e Edições tinta-da-china, 2016, pp. 227-228.



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

SOBRE A CRÓNICA EM JOSÉ SARAMAGO


Imagem e texto daqui.



«Este livro é sobre José Saramago esquecido, ou, pelo menos, ocultado. O cronista Saramago, que, ao longo de oito anos (1969-1976), escreveu aproximadamente 300 crônicas, antecede o romancista Saramago, consagrado por Levantado do Chão (1980) ou Memorial do Convento (1982), mas, como ele mesmo continuamente apontaria sobre sua participação jornalística: "Está lá tudo". Mas o que vem a ser esse tudo que as crônicas contêm? Não o roteiro dos romances, por certo, mas sim os primeiros ensaios em prosa das preocupações contínuas do cidadão-escritor Saramago. Já se pode notar o questionamento reiterado da História, do Indivíduo, da Sociedade, ou seja, de todas as verdades inamovíveis que refletem uma imposição do poder. A crônica, enquanto híbrido da Literatura e do Jornalismo, permite à palavra que atue como mecanismo de desvendamento, podendo abordar todos os assuntos com o mesmo tom de conversa e aparente despretensão. Cabe, então, a José Saramago cronista constituir-se como viajante em busca de compreender a paisagem do mundo e as suas transposições possíveis em linguagem.»