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Escola Secundária José Saramago - Mafra

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quinta-feira, 17 de maio de 2018

PRÉMIO DE ENSAIO "JOSÉ SARAMAGO: 20 ANOS COM O PRÉMIO NOBEL"


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No âmbito do Congresso Internacional "José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel", que decorrerá de 8 a 10 de outubro de 2018, em Coimbra, é instituído um Prémio Literário destinado a estudantes do ensino secundário português.

Para mais informações consulte http://www.uc.pt/fluc/clp/cijs



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A REPRESENTAÇÃO DO ESPAÇO EM SARAMAGO





"Este estudo, assim é apresentado pela editora, incide sobre o espaço na obra literária de José Saramago. Considerada uma categoria intencionalmente privilegiada pelo escritor em muitos dos seus romances, não apenas na dimensão física, mas numa multiplicidade de sentidos emergente a partir dos diferentes topoi apresentados, reconhece-se a existência de uma linha ascensional que reflecte a forma evolutiva como vão sendo apresentados os espaços, reais ou sugeridos, em interacção com as personagens, implicando nestas um forte crescimento interior.
Vão ser exploradas as dimensões humana e simbólica do espaço. A cada uma destas dimensões é associada, respetivamente, a memória e a violência."

Da Fundação José Saramago.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

sexta-feira, 31 de março de 2017

CELEBRIDADE VERSUS IMORTALIDADE


A Imortalidade (Paris).
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"Cesário Verde

Houve em Portugal, no século dezanove, três poetas, e três somente, a quem legitimamente compete a designação de mestres. São eles, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha.

Com excepção de Antero, todavia dubitativamente aceite e extremamente combatido, coube a todos três a sorte normal dos mestres - a incompreensão em vida, nos mesmos (como em Byron, derivando de Wordsworth e combatendo-o) sobre quem exerceram influência.

A celebridade raras vezes acolhe os génios em vida, salvo se a vida é longa, e lhes chega no fim dela. Quase nunca acolhe aqueles génios especiais, em quem o dom da criação se junta ao da novidade: que não sintetizam, como Milton, a experiência poética anterior, mas estabelecem, como Shakespeare, um novo aspecto de poesia. Assim, e nos exemplos comparativamente citados, ao passo que Milton, embora sem pequenez para ser aceite pelo vulgo, foi de seu tempo tido como grande com a grandeza que tinha, Shakespeare não foi apreciado pelos contemporâneos senão como cómico.

Com Antero de Quental se fundou entre nós a poesia metafísica, até ali não só ausente, mas organicamente ausente, da nossa literatura. Com Cesário Verde se fundou entre nós a poesia objectiva, igualmente ignorada entre nós. Com Camilo Pessanha a poesia do vago e do impressivo tomou forma portuguesa. Qualquer dos três, porque qualquer é um homem de génio, é grande não só adentro de Portugal, mas em absoluto.

Os restantes poetas tiveram o seu tempo, e quem tem o seu tempo não pode ter outros. O que os deuses dão, vendem-o, diziam os gregos. Junqueiro morreu logo que morreu. O mesmo Pascoais está moribundo. Não que destes poetas mais célebres que imortais não fique nada. Ficam poemas; a obra, porém, não fica.

Este fenómeno tem uma explicação, porque tudo tem uma explicação. A celebridade consiste numa adaptação ao meio; a imortalidade numa adaptação a todos os meios. Quando se diz que a posteridade começa na fronteira, assim, em certo modo se entende.(...)"

Fernando Pessoa, "Estudo Crítico (fragmentos)", in Cesário Verde, Cânticos do Realismo e Outros Poemas, 32 Cartas, textos de Fialho de Almeida e Fernando Pessoa, edição de Teresa Sobral Cunha, Lisboa, Relógio d'Água Editores, 2006, pp. 225-226.



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

DA INFLUÊNCIA EM POESIA


Jabuticabeira.
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"AS INFLUÊNCIAS EM POESIA


Desejariam alguns, partidários sem o saber de uma poesia irremediavelmente morta, que o poeta não tivesse influências. Consideram eles a influência incompatível com uma voz própria e portanto condenável. Ora quer-nos parecer a nós, homens antes do mais do nosso tempo, que só o poeta dotado de musa própria pode consentir influências e tantas mais consentirá quanto mais poeta for.

A influência é um local de confronto. Para experimentar as suas forças um poeta enxerta na sua obra um segmento alheio, oriundo de qualquer domínio cultural maxime da poesia nacional ou estrangeira. E a árvore, que confinada aos seus próprios limites estaria condenada à morte ou à menoridade, ensaia novos ramos, percorridos pela mesma seiva. A influência é também um meio de convívio. A poesia é a melhor sala de que o poeta dispõe para conviver com os seus contemporâneos e a única sala onde pode receber e ouvir a voz dos antigos.

A influência é um acto de homenagem porque só se é influenciado por um poeta que se admira. As obras singulares intercomunicam entre si e a arte é um grande empreendimento colectivo, como por exemplo a construção civil. (...)

Entre as várias figuras de retórica, sempre passíveis de virem a ser isoladas em qualquer texto criador, a alusão é o veículo ideal da influência. David Mourão-Ferreira, nas suas inolvidáveis aulas na Faculdade de Letras, definia-a como «a referência num determinado texto a algo que só fora desse texto adquire completo significado». Pode, como se sabe, ser directa ou indirecta e reveste três tipos fundamentais: pessoal, textual e cultural. A primeira, em que directamente se nomeia ou se dão os elementos suficientes para a identificação de alguém, não interessa muito no nosso caso. Já os outros dois tipos representam o veículo ideal da influência. Numa altura em que a grande poesia consente no seu seio, como condição de existência e de sobrevivência, referências a factos de ordem histórica, literária, científica, artística, ou citações de frases ou afirmações alheias de uma maneira tão natural e frequente que não se sente obrigada a indicar a origem, o processo de levantamento das influências pelo leitor ou pelo crítico, além de exigir um grande amor pela obra lida ou criticada, requer uma grande cultura. O poeta, além de o ser por vocação, é também uma grande máquina de viver e de ler e de se cultivar e ao mais pequeno segmento de escrita imola os seus dias e os livros que leu, os filmes que viu, as peças a que assistiu. Exigido por uma coerência íntima, dado de forma tanto quanto possível discreta e natural, tudo isso constitui o tecido, consistente e cerzido, que é o discurso literário nos seus primeiros estratos. (...)"

Ruy Belo, Na Senda da Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, pp. 284-285.


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A ESPIRITUALIDADE CLANDESTINA DE JOSÉ SARAMAGO

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"O Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho será entregue ao Professor Manuel Frias Martins, no próximo dia 3 de dezembro, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão."

Esta e outras informações poderão ser consultadas na página da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

DO NOME II

Religiões da Lusitânia - Loquuntur Saxa - MNA. Imagem do deus Endovélico (capa).



"(...) A onomástica pessoal assume, durante a Romanidade, várias formas, consoante o estatuto político-social do indivíduo, o seu sexo e ainda a época concreta em que viveu, já que os sistemas vigentes nem sempre foram exactamente os mesmos. Em qualquer dos casos, porém, um nome pessoal exarado numa epígrafe, mormente funerária, não cumpria apenas meros objectivos de pragmática identificação, antes destinava-se a ser lido alto por quem passava, formando assim uma sequência de sons especificamente - íamos a escrever «magicamente» - evocatórias da pessoa ausente. O nome, na Antiguidade, assume um cariz verdadeiramente ontológico. Ele exprime e representa, de alguma maneira, a própria essência, o próprio carácter do ser nomeado. O nome tem, em si mesmo, um indiscutível poder. Chamar, clamar por alguém proferindo o seu nome - lendo-o alto, oralizando-o - é revivificar esse alguém, é torná-lo momentaneamente presente e acessível (no antigo Egipto tal prática era utilizada com grande empenho).

De igual modo com os deuses. Invocá-los pelo seu próprio nome, pelo seu nome «verdadeiro», é possuí-los, é ter poder para poder controlar a sua vontade. Trata-se da clássica equação de nomen/ numen: nomen, o nome, a «essência" de um ente divino traduzido por certos sons; numen, a «vontade divina», o «poder divino».

Saber escrever o verdadeiro nome do deus é importante. Mas mais ainda é sabê-lo pronunciar correctamente: Endovellicus? Indovellicus? Endovollicus? Enobolicus?... Qual o verdadeiro nome? Recorde-se, a este propósito, o tão esclarecedor passo de Jâmblico, autor que viveu na transição do século III para o século IV d. C.: «Se os nomes tivessem sido atribuídos por convenção, não importaria trocar uns pelos outros; mas, se estão estreitamente unidos com a natureza dos seres, os que se assemelham a essa natureza são certamente também os mais agradáveis aos deuses». E, mais à frente: «Se é (efectivamente) possível traduzir os nomes, estes já não conservam porém (depois de traduzidos) o mesmo poder». Não é o significado semântico que importa, mas sim a sonoridade específica de cada nome. (...)"

José Cardim Ribeiro, "Sons desenhados - letras sonantes: escrita e oralidade na Época Romana", in AA.VV., A Escrita das Escritas, Coordenação de Luís Manuel de Araújo, obra editada por ocasião da exposição A Escrita: Traços e Espaços, Lisboa, Museu das Comunicações, Fundação Portuguesa das Comunicações e ESTAR Editores, 2000, pp. 92-93.




quarta-feira, 16 de julho de 2014

A ALMA LUSÍADA

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“A primeira grande tónica da nossa psicologia colectiva parece ser o paradoxal. Centra-se em torno do binómio passividade-acção.

Por um lado, somos vistos como pessimistas, contemplativos, falhos de iniciativa e tendentes ao servilismo; por outro, marcámos a História como povo determinado, criativo, aventureiro e idealista. Se o nosso pessimismo e demais sentimentos depressivos são tão reais, não parecem, contudo, ter-nos condicionado como povo, nem impedido de realizarmos o nosso destino concreto. Antes pelo contrário. Quase sempre as grandes tragédias históricas se converteram em símbolos positivos dinamizadores do futuro. Do confinamento físico a que Castela nos sujeitou na Idade Média, nasceu a aventura marítima; do desastre de Alcácer Quibir, nasceu o mito sebástico; das grandes comoções colectivas têm nascido, ao longo dos séculos, as grandes solidariedades nacionais. (...)

Teixeira de Pascoaes via demarcada duas linhas psíquicas na Península Ibérica: a sentimental e a quixotesca: «O lar sentimental da Ibéria - escrevia - é a Lusitânia; como Castela é o seu palco teatral ou quixotesco». Mas as duas linhas, na alma lusíada, não se excluem: complementam-se. Somos, assim, uma espécie de síntese de alma; mas uma síntese que, sendo paradoxal, é, contudo, assimilada numa predominância sentimental. Somos - continua Pascoaes - «lembrança e esperança, carne do Pança e osso do Quixote, fugitivo na Serra do Marão. O imortal cavaleiro, isolado de Castela, de dramático, torna-se elegíaco. E temos a alma dupla da Ibéria, ou uma só com duas faces: a quixotesca e a saudosa».

Outra característica da nossa personalidade lusíada é o pendor aparentemente antifilosófico. O nosso pensar arranca da experiência, do concreto. Somos intuitivos: pensamos sentindo. O nosso conhecimento é conhecimento «de experiência feito», originado, como diria o rei-filósofo D. Duarte, mais do sentir próprio do que de teorizações abstractas: «nom compre leer per outros livros, (...), mes cada huũ (…), consiire seu coraçom no que já per feitos desvairados tem sentido».

É assim que também o genuíno pensamento português, a sua «filosofia» original, deve ser procurado não nas sistematizações mentais, mas, antes, nos seus poetas. «Uma verdade, quando aparece no mundo, - diz Pascoaes – é o poeta a primeira pessoa que visita…»; como que a confirmar aquela sua outra palavra: «Aonde não chega a razão, chega a inspiração». (…)”

Alfredo Antunes, Saudade e Profetismo em Fernando Pessoa – Elementos para uma Antropologia Filosófica, Braga, Publicações da Faculdade de Filosofia, 1983, pp.69-70.


quinta-feira, 27 de março de 2014

A EUROPA E O TEMPO


Albrecht Dürer, Melancolia I, 1514
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        "Há muitos anos, ouvi um escritor africano afirmar num colóquio que a Europa se caracterizava por três criações míticas a que hoje acedemos por via da literatura: eram elas Prometeu, Ulisses e Fausto. Esta tríade assim enunciada por alguém que era de origem exterior à Europa, embora de  evidente e cuidada formação cultural europeia, mostra que «do lado de fora» há quem sinta a Europa como uma identidade cultural diferenciada e densa, susceptível de ser simbolizada em três figuras paradigmáticas.
        (...)
        Talvez se lhes devesse agregar, noutro plano, um sentido da experiência do tempo, do tempo vivido e da efemeridade de tudo, quase sempre de melancólicas e saturnianas ressonâncias na consciência europeia quando contempla o mundo e medita sobre o destino. Entre o rei D. Duarte de Portugal no seu Leal Conselheiro (cerca de 1438), a gravura famosa de Albrecht Dürer Melancholia I (1514) e o tratado monumental de Robert Burton, The Anatomy of Melancholy (1621), a preocupação é idêntica e atravessa os séculos «em busca do tempo perdido». E já remontava pelo menos a Horácio."

Vasco Graça Moura, "Símbolos de uma identidade" in A Identidade Cultural Europeia, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos e Relógio D'Água Editores, 2013, pp.44-45.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

DA MEMÓRIA II

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"A actividade da memória, que nos leva a conhecer o nosso passado, enquanto passado, pode, de igual modo, ser uma porta aberta para o futuro (...) na memória estão todas as coisas que pensamos ter experimentado ou em que pensamos ter acreditado. A memória permite-nos viver o passado no presente e edificar, também no presente, os projectos e as esperanças do futuro."

Maria Teresa Belo, A Espera em Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, Lisboa, Editorial Presença, 2001, p.19.

 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O CONHECIMENTO É PAQUETE E A INTELIGÊNCIA, PORTO

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"Um dos maiores erros em que é fácil cair, sempre que se trata de instruir os jovens, é procedermos como se a transmissão do saber fosse o próprio escopo do trabalho escolar, e considerarmos o intelecto daquele que educamos como sendo um meio para adquirir noções. Contra tal erro, -repitamos que na educação o conhecimento é paquete, e a inteligência, porto; que a aquisição de conhecimentos deve ser um meio (só um pretexto) de treinar o espírito do estudante para o gozo da actividade espiritual. (...) O que pedimos pois ao educador dos jovens é que inculque as possibilidades do pensar autónomo, do exercício contínuo do senso crítico, do apurado sentir; é que dê a cada um o que é necessário para que conserve sempre a juventude do espírito, para que mantenha a plasticidade e a frescura do cérebro; é que nunca deixe secar a argila, como tive ocasião de me exprimir algures."

António Sérgio, "Considerações sobre o Problema da Cultura", Obras Completas, Ensaios - Tomo III, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1980, pp.34-35.
 
 

quinta-feira, 28 de março de 2013

DA SAUDADE IX

Marc Chagall, Paysage Vert (1949)
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“A saudade e o sebastianismo são as duas principais características da cultura portuguesa geralmente apontadas em textos que ensaiam uma definição do homem português (da alma portuguesa) ou, como alguns preferem dizer, da personalidade cultural portuguesa. Pensadores ligados ao movimento da filosofia portuguesa – de Sampaio Bruno, Cunha Seixas e Álvaro Ribeiro aos mais modernos como António Quadros ou Pinharanda Gomes – e mais isolados entre si como Jaime Cortesão, Magalhães Godinho, Cunha Leão, Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, António José Saraiva, Joel Serrão, Manuel Antunes, Orlando Ribeiro ou Jorge Dias, por exemplo, deram, e alguns dão ainda, importantes contributos para a definição do homem português e do carácter nacional. Interessa, porém, salientar, desde já, que, a nosso ver, não é tanto a veracidade dos traços apontados que nos importa (…), mas a forma como estes espelham uma imagem que de nós próprios fomos construindo ao longo de séculos. A Saudade e o sebastianismo, então, podendo ser ou não, do ponto de vista cultural, características que, de facto, nos individualizam, são, com certeza, imagens multisseculares com as quais nos identificamos, passíveis de condicionar, por sua vez, muitas das nossas manifestações culturais. A insensibilidade a este modo de perspectivar o problema tem sido, parece-nos, a principal razão das acesas polémicas que tais temas têm suscitado.
Comecemos pela Saudade, palavra de sentido dito intraduzível dada a complexidade afectiva que pressupõe, sentimento-ideia tido como peculiar do povo português, cuja constância e persistência na cultura portuguesa tem sido atestada por numerosos críticos, sobretudo como motivo de inspiração lírica e de reflexão filosófica. Assim, descobrem-na na poesia e na prosa portuguesas com uma incidência estatisticamente superior à de qualquer outra literatura, das cantigas de amor e de amigo ao Cancioneiro Geral, não esquecendo a Menina e Moça de Bernardim Ribeiro ou um Frei Agostinho da Cruz, de Sá de Miranda a Garrett, de António Nobre aos mais modernos, como Irene Lisboa, Rodrigues Miguéis ou David Mourão-Ferreira, e apontam-na como tema rico de implicações várias em textos filosóficos, principalmente portugueses e galegos, que sublinham a complexidade deste nó afectivo de difícil penetração. Lembrança, sentido de coração, paixão de alma, tristeza da separação, gosto romântico da solidão, sentimento ontológico puro, sentimento da totalidade, do desvanecido, ânsia do Ser, oscilação entre o aqui e o ali, cobiça do longe, procura de um abrigo, desejo de um bem perdido, etc., têm sido tópicos para uma definição da Saudade que ainda hoje permanece em aberto. A primeira referência irá sempre, porém, para D. Duarte que, no Leal Conselheiro, comparava a «suidade» com outras palavras afins (nojo, pesar, desprazer, avorrecimento) para concluir da sua especificidade e intraduzibilidade, e para Duarte Nunes de Leão que, seguindo os mesmos passos, tentava a primeira definição de Saudade - «Lembrança de alguma coisa com desejo dela».
Neste percurso vivencial da Saudade tem especial relevo a figura de Teixeira de Pascoaes, seu poeta por excelência. Em primeiro lugar, porque, para além de a nomear e invocar nos seus versos, a introjectou como força-motriz de todo o seu universo imaginário, modelando o clima inspirado dos seus poemas, a composição sui generis da sua linguagem, a tessitura formal, conceptual e temática da sua escrita; depois, porque, em termos filosóficos, a elevou à altura do sentimento mais perfeito do homem, fonte da sua espiritualidade, sentimento-ideia de força ascensional, aperfeiçoadora, que vai do mineral ao espiritual e que nele conhece a sua expressão mais sagrada, o seu contacto com Deus; por fim, porque, dado o contexto histórico-social do tempo, não só a defendeu como característica individualizadora do povo português, povo privilegiado, por isso mesmo, entre os outros povos, como, sobretudo, a defendeu como possível motor do ressurgimento nacional. Ao culto da Saudade, assim encarada, chamou Pascoaes simplesmente saudosismo. (…)”
Maria das Graças Moreira de Sá, “Duas palavras sobre a Saudade e o Saudosismo”, in As Duas Faces de Jano – Estudos de Cultura e Literatura Portuguesas, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, pp.45-47.

 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O AMOR É PORTUGUÊS

Soror Mariana Alcoforado, Matisse (1946)
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“5- Da supervivência do Amor (Dom Pedro e Dona Inês)

Supervivência tanto significa intensidade, vivência superlativa, como superação da morte, vida perene.

Um mito de fatalidade amorosa, que é céltico, foi renovado, em termos trans-sociais e transcendentes, por dois amantes, um príncipe de Portugal e uma fidalga da Galiza. Sequência trágica, a dos amores entre altos personagens de uma e de outra banda do Minho (Rainha Dona Tareja – Fernão Pérez de Trava; Príncipe Dom Pedro – Dona Inês de Castro; Rainha Dona Leonor de Telles – Conde de Andeiro).

Sobremaneira fatal, irregular e trágico foi este. O príncipe, uma vez rei, desenterrou o corpo da amada, reabilitou loucamente, pomposamente, o seu amor, entronizando rainha de Portugal, com as devidas honras aquela que seu coração elegera e lhe ficara impressa para sempre no pensamento e na carne.

E nos túmulos de pedra lavrada, ao Juízo Final se entrega o mais fervoroso, o mais louco arrebatamento de todos os tempos.

A história e lenda de Inês de Castro exprime a importância absorvente que tem o amor na existência do nosso povo. Segundo D. Francisco Manuel de Melo, era notória a índole amorosa do português, e Jorge Ferreira de Vasconcelos faz dizer a uma personagem da Eufrosina que o amor é português. A poesia de amor na língua pátria é copiosa e inconfundível. Também a prosa está enxameada com documentos dessa inebriante absorção.

As expressões mais altas, mais típicas do amor português estão em D. Diniz, Camões, Bernardim, Cristóvão Falcão, Tomaz Gonzaga, Florbela, Pascoaes (elegia do amor), etc….

Tem valor para o caso a fala do Cardeal na Ceia de Júlio Dantas.

As cartas de Soror Mariana, a despeito das ressalvas que se lhes faça quanto à autoria, constituem dos testemunhos mais impressionantes do amor português.

O nosso romantismo é de raiz: por isso precede séculos o chamado movimento romântico, excedendo-o até aos nossos dias, tanto em Portugal como no Brasil.

O lema camoniano da linda Inês a cada passo renasce em nossa literatura, feito motivo perene.”

Publicado em O que é o Ideal Português, Lisboa, Edições Tempo, 1962
F. Cunha Leão, Do Homem Português, Lisboa, Guimarães Editores, 2007, p. 89.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

SALOIOS IV

Beatriz Costa (Charneca do Milharado, 1907 - Lisboa, 1996),
no filme Aldeia da Roupa Branca, de Chianca de Garcia (1939)
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“(…) entre os saloios também há Romeus, Julietas e Otelos”
João Paulo Freire

CARACTERÍSTICAS

Homem Saloio
                Quanto à estatura do saloio, há-os altos e baixos, mas na sua maioria mais baixos do que altos. Fortes, entroncados, com uma resistência de aço para os trabalhos do campo. Tez morena, pele encorreada pelos efeitos das intempéries. O uso da enxada enrija-lhe a musculatura. Ágil e ao mesmo tempo possante. Mãos calejadas. Cabelo preto, nariz grosso e saliente. Pernas geralmente arqueadas. Resistente e pacífico. Matreiro, desconfiado, tardo nas soluções, persistente, casmurro, relativamente pouco expansivo. A fatalidade ancestral da sua raça pesa-lhe nos movimentos. (…) Frugal. No meu tempo de rapaz, o saloio entre os vinte e os trinta anos usava bigode. Dos trinta em diante: ou barba à passa piolho, ou suíças. A suiça no saloio era um símbolo de respeitabilidade. Hoje tudo isso desapareceu, e o saloio apresenta-se como qualquer outro cidadão.
                Também Alberto Pimentel acha que o saloio é feio. Eis um ponto que eu não posso discutir, nem apreciar. Creio piamente que não foi entre os saloios que nasceu Adónis, mas não me parece que fosse aos saloios que Vítor Hugo arrancasse o seu modelo para Quasimodo

Mulher Saloia
                De facto, em geral, a saloia é morena e ossuda e não é bonita. Mas há, em toda a região saloia, lindíssimas raparigas, morenas, olhos negros, expressivos (…). Pode mesmo afirmar-se que não há aldeia onde não exista mais de um exemplar desta acentuada beleza saloia. Evidentemente, porque casam, vêm-lhes a lida da casa, a lida do campo, os filhos, e não há beleza que resista aos pesados trabalhos a que a saloia se entrega. A vida do campo exige um esforço que os habitantes da cidade desconhecem. A saloia cava, monda, sacha, ceifa, lava a roupa, sua ou alheia, e ainda por cima cuida do marido e dos filhos, e tem a seu cargo a lida da casa, que a faz toda, sem ajuda de ninguém se não tem filhos já crescidos. Isto, e um passadio quase sempre deficiente, desfaz-lhe os traços de beleza e torna-a, na maioria dos casos, feia e ossuda. O trabalho do campo pode dar saúde, mas não dá nem beleza nem elegância a ninguém. Mas não se diga, como o afirma Alberto Pimentel, que é raríssimo encontrar-se uma saloia bonita porque tal afirmação não é verdadeira.
                Se as há! De quantas me estou lembrando agora, recordando, à distância de meio século, algumas lindas raparigas saloias do meu tempo de rapaz! De Mafra, da Murgeira, da Póvoa, do Codeçal, do Livramento, do Sobreiro, do Gradil, da Encarnação, de Santo Isidoro, da Igreja Nova, de Cheleiros, tudo terras onde eu ia aos bailaricos e às festas, e onde as encontrava com seus olhos negros e árabes, com sua boca pequena e expressiva, quase todas de tipo miudinho, que a saloia é de estatura mediana (…). Esta afirmação de que só há saloias feias, faz-me lembrar a história do outro que afirmava que só havia castanhas assadas, porque na sua terra não existiam castanheiros. Geralmente as pessoas que afirmam esta enormidade só conhecem as lavadeiras já velhotas que vão à cidade buscar a roupa que eles sujam e elas lavam, e daí o tomarem a parte pelo todo (…).”
João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e seu carácter: fisiologia, psicologia, etnografia, Porto, J.P:F., 1948, apud "O Saloio de A a Z", compilação de Maria Isabel Ribeiro, in Boletim Cultural 93, Câmara Municipal de Mafra, 1994, pp.274-280.
 
 
Nota
“Natural da Murgeira (Mafra), João Paulo Freire nasceu a 14 de Setembro de 1885, tendo falecido a 16 de Janeiro de 1953. Ingressou no Seminário de Santarém que acabaria por abandonar devido à falta de vocação. Prosseguiria os estudos na Escola Real de Mafra, tendo mais tarde optado pela vida militar, onde atingiu o posto de capitão graduado. Em 1917 foi mobilizado, seguindo para a frente francesa integrado no corpo expedicionário português.
Organizou e dirigiu os jornais Campo de Ourique (1908), Distrito de Beja (1909) e Diário da Noite (1932), tendo sido redactor de A Nação, A Capital, Diário de Notícias e Diário Ilustrado, do qual foi também chefe de redacção. Para além disso colaborou em muitos outros periódicos e na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, usando com frequência os pseudónimos de Mário, João Veneno, Lichtenbey, Frei Gil de Alcobaça e Sant’Elmo. Deixou vasta bibliografia (…).”
Manuel J. Gandra e Isabel Ribeiro, “Vultos e Sombras, 2. João Paulo Freire”, Boletim Cultural 97, Câmara Municipal de Mafra, 1998, p.581.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

LER OS CLÁSSICOS


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“Comecemos com umas propostas de definição.
1.       Os clássicos são os livros de que se costuma ouvir dizer. «Estou a reler…» e nunca «Estou a ler…»
É isto que se verifica pelo menos entre as pessoas que se pressupõe serem de «vastas leituras»; não se aplica à juventude, idade em que o encontro com o mundo, e com os clássicos como parte do mundo, é válido precisamente como primeiro encontro com o mundo.
O prefixo iterativo antes do verbo «ler» pode ser uma pequena hipocrisia por parte de quem tiver vergonha de admitir que não leu um livro famoso. Para o descansar bastará observar que por mais vastas que possam ser as leituras «de formação» de um indivíduo, fica sempre um número enorme de obras fundamentais que não se leu.
Quem leu todo o Heródoto e todo o Tucídides levante o dedo. E Saint-Simon? E o cardeal de Retz? Mas até os grandes ciclos de romances do século XIX são mais nomeados que lidos. (…) Os apaixonados de Dickens em Itália são uma restrita elite de gente que quando se encontra se põe logo a recordar personagens e episódios como se fossem pessoas suas conhecidas. Há anos Michel Butor, ao leccionar na América, farto de ouvir perguntarem-lhe por Émile Zola que nunca tinha lido, decidiu-se a ler todo o ciclo dos Rougon-Macquart. Descobriu que era completamente diferente do que julgava: uma fabulosa genealogia mitológica e cosmogónica, que descreveu num belíssimo ensaio.
Isto vem a propósito de dizer que ler pela primeira vez um grande livro em idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer que é maior ou menor) do que se tem ao lê-lo na juventude. A juventude comunica à leitura, tal como a qualquer outra experiência, um sabor e uma importância muito especiais; enquanto na maturidade se apreciam (deveriam apreciar-se) muitos mais pormenores, níveis e significados. Assim, podemos tentar outra fórmula de definição:
2.       Chamam-se clássicos os livros que constituem uma riqueza para quem os leu e amou; mas constituem uma riqueza nada menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas condições melhores para os saborear.
De facto as leituras da juventude podem ser pouco profícuas por impaciência, distracção (…) e inexperiência da vida. Podem ser (se calhar ao mesmo tempo) formativas no sentido de darem uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, conteúdos, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: tudo coisas que continuam a agir mesmo que do livro lido na juventude se recorde pouquíssimo ou mesmo nada. Ao reler o livro em idade madura, acontece reencontrar-se estas constantes que agora já fazem parte dos nossos mecanismos internos e de que tínhamos esquecido a origem. Há uma força especial da obra que consegue fazer-se esquecer enquanto tal, mas que deixa sementes. (…)”
Italo Calvino, Porquê Ler os Clássicos, Lisboa, Teorema, 1994, pp.7-8.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

LEI DO GÉNIO

Manuel Antunes, Padre, Professor e Ensaísta
Sertã, 1918 - Lisboa, 1985
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Lei do génio. (…) A aventura mais pessoal de um poeta, de um artista, de um filósofo ou de um cientista, como a sua mais pessoal visão do universo e da existência, aparecem sempre, sem dúvida, como o produto de um mundo, de um determinado contexto físico, social, económico e político. Pensar contra o seu mundo, sentir contra o seu mundo, é ainda e sempre pensar e sentir em relação ao seu mundo, por reflexo de oposição ao seu mundo. Impossível a um autor, qualquer que ele seja, fazer desaparecer do seu horizonte as coordenadas de espaço, tempo e cultura em que o seu espírito se gerou. Esta lei comum ou esta dinâmica geral outra lei ou outra dinâmica, mais particular, a acompanha (…). No caso concreto da poesia, pelo simples facto de ela ser poesia e não filosofia ou ciência, por exemplo, ela possui o seu campo próprio, o seu espaço dinâmico próprio, a sua linha de força própria em que jogam, sobretudo, a Imaginação transcendental, o Ritmo transcendental e a Sensibilidade transcendental. É nesse espaço que uma certa visão do universo e da existência se constitui em nova dimensão, uma dimensão dada pela palavra. Não pela palavra-logos do rigor racional e objectivo, não pela palavra-logos da verbalidade quotidiana, mas pela palavra-mythos que confere, à sensação, à percepção, à ideia e ao sentimento, um sentido originário, pela palavra-mythos que descobre ou manifesta as correspondências do mundo e as articula em novo mundo, pela palavra, expressão do incontornável da sabedoria no limite do silêncio. Pelas duas leis – ou dinâmicas – do reflexo e do género, o poeta é, sobretudo, passivo. Pela lei – ou dinâmica – do seu génio próprio, ele é, sobretudo, activo. Por esta, pode dizer-se que o mundo é um reflexo seu. Encontrando-se, de facto, no mundo, ele suscita um mundo. Um mundo que, por sua vez, será a perspectiva através da qual muitos verão e sentirão o mundo. (…)”
Manuel Antunes, Teoria da Cultura, coordenação, revisão e notas de Maria Ivone de Ornellas de Andrade, Lisboa, Edições Colibri, 2002, pp.115-116.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A CULTURA COMO TRAÇO DE UNIÃO...



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“Estão na moda as reflexões em torno do futuro de Portugal. Sempre me pareceram uma ilusão perigosa. Leitor impenitente dos clássicos, desde os humanistas que meditaram acerca do camoniano «desconcerto do mundo» até aos neo-garrettianos, aos integralistas e aos seareiros, partilho de muitas das ideias de António Sérgio e penso que um pouco de racionalismo e de consciência do presente nos evitaria a tentação, um tanto sebástica, de mitificar o futuro, como se os Portugueses não houvessem de encontrar, no dia a dia, caminhos superadores das várias crises que sobre eles periodicamente se abatem. É no presente, e pelo presente, na avaliação ponderada das possibilidades ao nosso alcance, que temos de procurar a Aufhebung hegeliana, superadora das tensões e antinomias tradicionais (do tipo esquerda/ direita, mais Estado/ menos Estado, diálogo/ bloqueio, passado-recente/ passado-remoto, etc.); pois, enquanto os Portugueses esbanjam tempo, energias e dinheiro em questiúnculas caseiras, outros povos derrubam muros, traçam planos, cumprem metas, guiam-se friamente por objectivos programados, progridem enfim, aliás com o mesmo espírito com que o Infante D. Henrique levou avante os Descobrimentos, Egas Moniz alcançou o Prémio Nobel e o Prof. Moniz Pereira preparou os Carlos Lopes e as Rosas Motas. O aviso mais sério aos Portugueses, que ouvimos nos últimos tempos, fê-lo um economista estrangeiro, Michael Porter, ao recomendar a Portugal que tivesse cuidado com as rupturas bruscas na sua tradição secular. (…)
Não há cultura fora do ecossistema onde ela se enraíza, cresce e dá frutos. Isto disse, por outras palavras, o avozinho Garrett, quando, nas páginas das Viagens na Minha Terra, descreveu a decadência de Santarém, certamente com o pensamento em Portugal. Sentiram-no os intelectuais da Geração de 70, sobretudo Eça, Ramalho e Teófilo. Perceberam-no os neo-garrettianos finisseculares, intuíram-no os integralistas maurassianos (…), mas talvez ninguém melhor do que Miguel Torga, ao longo de mais de meio-século, tenha sabido despertar-nos para esta realidade, sobretudo nas páginas do seu Diário.
O valor cultural que podemos acrescentar à Europa passa por uma espécie de adaptação do país económico e tecnológico ao país cultural. As transformações ocorridas na sociedade portuguesa dos últimos vinte anos, em domínios tão significativos como a educação e o ambiente, a informática e as telecomunicações, impõem um reexame aprofundado das nossas possibilidades de sobrevivência como nação culturalmente independente. Precisamos, enfim, como sugeria o Prof. Manuel Antunes pouco antes de morrer, de repensar Portugal à luz de novas realidades internas e externas. Desafio tanto mais fecundo e aliciante quanto é verdade que a questão cultural tenderá a ser, cada vez mais, não um factor de divisão, mas um traço de união entre os Portugueses.”
1994
Artur Anselmo, “Para uma ecologia da cultura”, in Ler é Maçada, Estudar é Nada, Lisboa, Guimarães Editores, 2008, pp.115-119.