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Escola Secundária José Saramago - Mafra

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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

DOAÇÃO DO ESPÓLIO DE JOSÉ SARAMAGO À BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL






"No dia 10 de Dezembro, quando passam 18 anos da entrega do Prémio Nobel a José Saramago, terá lugar na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) um acto formal de entrega do Espólio de José Saramago à BNP. Desta forma, dá-se seguimento à vontade do escritor quando, antes e depois do Prémio Nobel, entregou à BNP alguns documentos, entre eles o original de O Ano da Morte de Ricardo Reis e o Diploma do Nobel."


Texto e imagens da Fundação José Saramago.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

DO NOME XI


Núbia, maio de 2010.



"(...) Joaquim Sassa tornou a olhar o espelho, agora para se ver a si próprio, reconhecer o alívio nos seus olhos, para pouco mais dava o reflexo, um bocadinho do rosto, assim é difícil saber a quem pertence, a Joaquim Sassa, já sabemos, mas Joaquim Sassa quem é, um homem ainda novo, tem os seus trinta e tal anos, mais perto dos quarenta que dos trinta, (...) as sobrancelhas são pretas, os olhos castanhos à portuguesa, nítida a cana do nariz, são feições realmente comuns, saberemos mais dele quando se voltar para nós. Por enquanto, pensou, é só um apelo pela rádio, o pior vai ser na fronteira, ainda por cima este meu apelido, Sassa, hoje o que me calhava era ser um Sousa qualquer, como o outro de Collado de Pertuis, um dia foi ver no dicionário se a palavra existia, Sassa, não Sousa, e o que significava, ficou a saber que era uma árvore corpulenta da Núbia, lindo nome, de mulher, Núbia, lá para os lados do Sudão, África Oriental, página noventa e três do atlas. (...)"

José Saramago, A Jangada de Pedra, Lisboa, Editorial Caminho, 1999, p. 55.



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

"ERRARE HUMANUM EST"


Maria Helena Vieira da Silva, Bibliothèque (1949).
Imagem daqui.



"Errar, disse-o quem sabia, é próprio do homem, o que significa, se não é erro tomar as palavras à letra, que não seria verdadeiro homem aquele que não errasse. Porém, esta suprema máxima não pode ser utilizada como desculpa universal que a todos nos absolveria de juízos coxos e opiniões mancas. Quem não sabe deve perguntar, ter essa humildade, e uma preocupação tão elementar deveria tê-la sempre presente o revisor, tanto mais que nem sequer precisaria sair de sua casa, do escritório onde agora está trabalhando, pois não faltam aqui os livros que o elucidariam se tivesse tido a sageza e prudência de não acreditar cegamente naquilo que supõe saber, que daí é que vêm os enganos piores, não da ignorância. Nestas ajoujadas estantes, milhares e milhares de páginas esperam a cintilação duma curiosidade inicial ou a firme luz que é sempre a dúvida que busca o seu próprio esclarecimento. Lancemos, enfim, a crédito do revisor ter reunido, ao longo duma vida, tantas e tão diversas fontes de informação, embora um simples olhar nos revele que estão faltando no seu tombo as tecnologias da informática, mas o dinheiro, desgraçadamente, não chega a tudo, e este ofício, é altura de dizê-lo, inclui-se entre os mais mal pagos do orbe. Um dia, (...) qualquer corrector de livros terá ao seu dispor um terminal de computador que o manterá ligado, noite e dia, umbilicalmente, ao banco central de dados, não tendo ele, e nós, mais que desejar que entre esses dados do saber total não se tenha insinuado, como o diabo no convento, o erro tentador.

Seja como for, enquanto não chega esse dia, os livros estão aqui, como uma galáxia pulsante, e as palavras, dentro deles, são outra poeira cósmica flutuando, à espera do olhar que as irá fixar num sentido ou nelas procurará o sentido novo, porque assim como vão variando as explicações do universo, também a sentença que antes parecera imutável para todo o sempre oferece subitamente outra interpretação, a possibilidade duma contradição latente, a evidência do seu erro próprio. Aqui, neste escritório onde a verdade não pode ser mais do que uma cara sobreposta às infinitas máscaras variantes, estão os costumados dicionários da língua e vocabulários, os Morais e Aurélios, os Morenos e Torrinhas, algumas gramáticas, o Manual do Perfeito Revisor, vademeco de ofício, mas também estão as histórias da Arte, do Mundo em geral, dos Romanos, dos Persas, dos Gregos, dos Chineses, dos Árabes, dos Eslavos, dos Portugueses, enfim, de quase tudo que é povo e nação particular, e as histórias da Ciência, das Literaturas, da Música, das Religiões, da Filosofia, das Civilizações, o Larousse pequeno, o Quillet resumido, o Robert conciso, a Enciclopédia Política, a Luso-Brasileira, a Britânica, incompleta, o Dicionário de História e Geografia, um Atlas Universal destas matérias, o de João Soares, antigo, os Anuários Históricos, o Dicionário dos Contemporâneos, a Biografia Universal, o Manual do Livreiro, o Dicionário da Fábula, a Biografia Mitológica, a Biblioteca Lusitana, o Dicionário de Geografia Comparada, Antiga, Medieval e Moderna, o Atlas Histórico dos Estudos Contemporâneos, o Dicionário Geral das Letras, das Belas-Artes e das Ciências Morais e Políticas, e, para terminar, não o inventário geral, mas o que mais à vista está, o Dicionário Geral de Biografia e de História, de Mitologia, de Geografia Antiga e Moderna, das Antiguidades e das Instituições Gregas, Romanas, Francesas e Estrangeiras, sem esquecer o Dicionário de Raridades, Inverosimilhanças e Curiosidades (....)."

José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Lisboa, Editorial Caminho, 2001, pp. 25-27.



quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ALMEIDA GARRETT E FREI JOAQUIM DE SANTA ROSA, NO DIA DO ANIVERSÁRIO DE JOSÉ SARAMAGO


Imagem daqui.




«Almeida Garrett e Frei Joaquim de Santa Rosa

Aqui há uns meses fui convidado a botar fala sobre a situação do romance português. Não só eu, claro, porque ao dito romance não bastariam para situá-lo (ou situacioná-lo) as minhas pobres palavras e frouxas ideias. A coisa acabou por não se fazer - e certamente não se fará. De modo que meti os papéis na gaveta e ali os deixei ficar, à espera não sei de quê. Do dia de hoje, visto que hoje os retiro e trago à luz. Mas a vaidade pessoal do autor não entra nessa decisão: como o leitor verá, o miolo da crónica pertence a Almeida Garrett (que todo o português honrado conhece) e a Frei Joaquim de Santa Rosa (que tenho o gosto de apresentar).

Depois de considerações gerais sobre problemas com o romance relacionados, dizia eu que tudo isso não era mais que uma cereja do farto molho que é a situação da vida portuguesa. E, de cerejas em punho, convidava o ouvinte (e agora convido o leitor) a apreciar o sabor delas, acautelando embora os dentes, por mor dos caroços. Vejamos a primeira: Almeida Garrett, Portugal na Balança da Europa, 1830: "Diz-se - e diz-se por caluniosos inimigos, assim como por loucos amigos - que a nação portuguesa não está preparada para a liberdade. Qual é o homem ou o povo que não esteja preparado para o natural estado do homem e da sociedade? - Mas o governo representativo sem o qual, no presente estado de ser das nações, a liberdade fora castigo e flagelo, que não bênção e gozo - o governo representativo, acrescentam, requer educação própria e especial, exige ilustração no povo; e nem todos os povos estão nesse ponto; portanto nem todos preparados para receber instituições livres.

"O argumento é especioso, e como tal a muitos seduz; mas a razão o destrói, e a experiência o desmente. Quem assim argumenta parece supor um tempo, uma época prévia ao estabelecimento do governo representativo, durante o qual o povo se estivesse educando para a liberdade. Ora nesse tracto de tempo algum havia de ser o governo que esse povo regesse: e claro está que não podia ser o liberal. Era então debaixo do despotismo que o povo se estaria educando para a liberdade?"

Enquanto assimilamos este suculentíssimo fruto (que vem de 1830, não esquecer), puxo do molho a segunda cereja, colhida no pomar pouco conhecido de José Timóteo da Silva Bastos, História da Censura Intelectual em Portugal, obra publicada pela Imprensa da Universidade de Coimbra, em 1926. Trata-se da sentença da Real Mesa Censória, em 1769, caída como um cutelo sobre o livro de madame de Lafayette, A Princesa de Clèves. Escreve o censor, Frei Joaquim de Santa Rosa, e eu actualizo a linguagem: "Este livro é de natureza, e contextura de outros muitos, que já se tem proibido nesta Mesa, mandando-se sair destes Reinos: trata dos amores profanos desta Princesa: ele só pode ser útil aos mercadores, e negociantes, porque com ele extraem a nossa moeda; e aos naturais é pernicioso, não só por sua matéria, mas também porque lhes consome o tempo, que poderão empregar na lição de livros úteis e interessantes. É pois o meu parecer, que se mande sair destes Reinos, e seus Domínios. Foram do mesmo parecer os Deputados adjuntos. Lisboa, em Mesa, 10 de Fevereiro de 1769."

Passaram duzentos anos. Se o leitor é desconfiado, pensou que estes textos foram fabricados por mim, com vista sabe-se lá a que inconfessáveis fins. Quanto aos textos, é fácil: busque as obras que citei e lá os encontrará. Sobre os fins, aqui ficam eles, honestamente confessados: que Frei Joaquim de Santa Clara não bula mais nas princesas de Clèves. E, de caminho, um voto: que Almeida Garrett venha dar uma volta pela sua velha pátria; que, depois de tudo muito bem visto, possa regressar ao descanso do túmulo com um sorriso de esperança; e que vá murmurando enquanto se acomoda: "Já não é mau que se diga em 1968 o que escrevi em 1830. Vou esperar uns tempos. Sempre hei-de ver como as coisas correm."

Conclusões? O espaço é pouco para elas, e esta crónica só poderá ser rematada pelo leitor. Por si, que me está lendo. Eu apenas falei de Almeida Garrett e de Frei Joaquim de Santa Rosa.»

José Saramago, "Almeida Garrett e Frei Joaquim de Santa Rosa", in Deste Mundo e do Outro, (crónicas publicadas, pela primeira vez, no jornal A Capital - 1968-1969), 2ª edição, Caminho, s/d, pp. 155-157.




quarta-feira, 12 de outubro de 2016

SOBRE A CRÓNICA EM JOSÉ SARAMAGO


Imagem e texto daqui.



«Este livro é sobre José Saramago esquecido, ou, pelo menos, ocultado. O cronista Saramago, que, ao longo de oito anos (1969-1976), escreveu aproximadamente 300 crônicas, antecede o romancista Saramago, consagrado por Levantado do Chão (1980) ou Memorial do Convento (1982), mas, como ele mesmo continuamente apontaria sobre sua participação jornalística: "Está lá tudo". Mas o que vem a ser esse tudo que as crônicas contêm? Não o roteiro dos romances, por certo, mas sim os primeiros ensaios em prosa das preocupações contínuas do cidadão-escritor Saramago. Já se pode notar o questionamento reiterado da História, do Indivíduo, da Sociedade, ou seja, de todas as verdades inamovíveis que refletem uma imposição do poder. A crônica, enquanto híbrido da Literatura e do Jornalismo, permite à palavra que atue como mecanismo de desvendamento, podendo abordar todos os assuntos com o mesmo tom de conversa e aparente despretensão. Cabe, então, a José Saramago cronista constituir-se como viajante em busca de compreender a paisagem do mundo e as suas transposições possíveis em linguagem.»



segunda-feira, 13 de junho de 2016

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A ESPIRITUALIDADE CLANDESTINA DE JOSÉ SARAMAGO

Imagem daqui.



"O Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho será entregue ao Professor Manuel Frias Martins, no próximo dia 3 de dezembro, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão."

Esta e outras informações poderão ser consultadas na página da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

FERNÃO LOPES, NO DIA DO ANIVERSÁRIO DE JOSÉ SARAMAGO


Imagem daqui.



"A nua verdade


De vez em quando, não fica mal ao cronista subir para a Máquina do Tempo, mover as alavancas adequadas e instalar-se no passado. Bem sabemos todos que o futuro vem aí a galope e traz muito que contar. E também sabemos que neste país, tão apegado a tradições, velharias e preconceitos bolorentos, há, paradoxalmente, uma irresistível inclinação para nos acusarmos uns aos outros de saudosistas. Daí que eu me sinta um tanto receoso do grave passo que vou dar. Se ele há tanta coisa moderna a pedir que dela falem - que ideia é esta de pôr o calendário a andar para trás, por aí fora, até.

Até à primeira metade do século XV, aos tempos do Senhor Rei D. Duarte, do Regente D. Pedro e de D. Afonso VI, o Africano. Um grande salto, como se vê. Não que eu esteja interessado em vir fazer aqui qualquer reconstituição histórica. Mais modesto propósito me moveu, o qual vem a ser procurar, na pequena Lisboa do tempo, o guarda-mor da Torre do Tombo, um homem sisudo chamado Fernão Lopes. Quero também, e logo verei se posso, saber com que ingredientes se compôs a tinta da Crónica de D. João I.

Este livro é para mim uma obsessão, uma ideia fixa. Cá no século XX em que vivo, corro estas páginas de bárbara ortografia, esta abundância de vogais e consoantes dobradas, estas palavras que dizem mais do que parece - e fico atordoado, como quem está no sopé de uma altíssima coluna, ou árvore, ou montanha a pique, e ergue os olhos para a vertiginosa ascensão, e logo os baixa porque a vertigem é real. Por isso vou saber (saberei?) quem é este Fernão Lopes e em que tinteiro molha a pena para escrever, mesmo no prólogo da sua crónica, esta grave advertência: «Nem emtemdaaes que certeficamos cousa, salvo de muitos aprovada, e per escprituras vestidas de fe; doutra guisa, ante nos callariamos, que escprever cousas fallssas.»

Vejo um homem de rosto severo, não porque à alegria se tenha recusado, mas porque a matéria de que trata é carne e sangue de homens. Porque tem diante dos olhos o latejar de um povo e nada quer perder dos arrebatamentos, das paixões, dos gestos egoístas, das cobardias, e também da coragem que é de repente maior do que o ser em que se instalou. Porque se é certo que vai contar a história de príncipes e seus vassalos, dos conluios de palácio, das grandes frases para a posteridade e das breves interjeições da raiva e da dor - também é verdade que pelas estreitas janelas da torre chegam as palavras quotidianas e toscas dos «ventres ao sol» - massa dispersa que num momento da história se tornou lança e aríete, escudo e hora da manhã.

Vejo este homem, leio o que ele está escrevendo, e pergunto: «Quem te conhece, Fernão Lopes? Quem saberá que nesta sala, entre códices antigos, nasce neste momento talvez o maior livro da literatura portuguesa?»

Vejo este homem, agora que o sol se pôs e uma candeia mortiça sufoca entre as sombras da noite, a esfregar os olhos cansados, a empurrar a pena vagarosa para contar os padecimentos de Lisboa: «No logar hu costumavom vender o triigo, amdavom (...) moços esgaravatamdo a terra; e sse achavom alguũs graãos de triigo, metiãnos na boca sem teemdo outro mantiimento; outros se fartavõ dervas, e beviam tamta agua que achavom mortos (...) cachopos jazer imchados nas praças e em outros logares.»

Meu velho e amado Fernão Lopes, desprezado génio cujo nome por muito favor penduraram na esquina de uma rua ali ao Saldanha. Quando na tua linguagem sem adjectivos querias fazer e fazias o elogio de um homem, ao nome dele e à palavra homem acrescentavas apenas: e para muito. Fernão Lopes, cronista da nua verdade, homem para muito - digo eu, neste tempo de tão pouco."

José Saramago, "«A nua verdade»", in Deste Mundo e do Outro, (crónicas publicadas, pela primeira vez, no jornal A Capital - 1968-1969), 2ª edição, Lisboa, Caminho, s/d, pp. 171-173.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

VENCEDORES DO CONCURSO "QUEM CONTA UM CONTO... AO MODO DE SARAMAGO?!" 2015

Imagem daqui.


Realizou-se hoje, na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, a cerimónia de entrega de prémios aos vencedores do concurso "Quem conta um conto... ao modo de Saramago?!". 
Aqui ficam excertos dos contos vencedores e de outros que mereceram a atribuição de menções honrosas. Poderão ser lidos na íntegra na página eletrónica do Plano Nacional de Leitura. Parabéns a todos os participantes!



3º CICLO
O tempo é algo contraditório, pode ser uma dimensão misteriosa e até curativa como pode não significar rigorosamente nada. Bárbara Carneiro – “É preciso morrer” (Escola Básica Escultor António Fernandes Sá, Vila Nova de Gaia)

Era uma vez, bem no meio de uma longínqua floresta escura, uma clareira banhada de dia pelo sol radioso e de noite pela lua grande e brilhante. Beatriz Anselmo Henriques – “O encontro do sol e da lua” (Escola Básica nº 2 de Oliveira do Hospital)

Virara a cara para ambos os lados e conferira que não estava sozinho. Avistara, então, uma mulher de roupas pretas e rotas e um rapaz tão novo como a própria primavera. José Pedro Marques – “Memorial do pecado social” (Escola Básica das Taipas, Caldas das Taipas, Guimarães)

- Helena, porque é que as nuvens são doces? Helena chorou… Chorou durante um minuto, e com a voz embargada respondeu: - Porque as nuvens são feitas dos nossos maiores sonhos. E esses são sempre doces e com um final feliz. Rita Tavares – “Helena, por que é que as nuvens são doces?” (Escola Secundária de Oliveira do Hospital)


ENSINO SECUNDÁRIO
As palavras têm este efeito engraçado, quase imprevisível e por isso perigoso, de tomar vida por si, de deturpar intenções, as palavras não se intimidam com convenções sociais, quem as diz sim, mas uma vez no ar elas traçam o seu caminho alheias ao que o humano pretende, chegam aos ouvidos alteradas, fomentam inseguranças, favorecem inquietações. Maria Teresa Bento Parreira – “José” (Escola Secundária de Coruche)

Andando e conversando, o caminho foi-se fazendo. Como em silêncio partiram, em silêncio chegaram à quinta do Duque de Aveiro. As portas e as janelas estavam fechadas, a quinta como que abandonada. Do lado direito ficava a abegoaria, agora sem teto. Bartolomeu entrou, seguindo Blimunda, curioso, sem compreender o que via. Iúri Simões – “A semente das vontades” (Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, Leiria)

Entraram os três devagar, arrastando as sombras que se alongavam. Foi o moleiro o primeiro a falar, Cá está o rapaz, tudo está bem quando acaba bem. O gelo do silêncio arrastou-se. Depois o pai sentenciou, Domingo há festa na Senhora d’Orada. Vais lá falar com a tendeira. Vende-se um dos cabritos e paga-se a gaita. Mas tu, rapaz, apontou para o João, que se mantinha de cabeça baixa, inquieto, de olhar cerrrado, nunca mais nos deixes, que o coração da tua mãe ia rebentando e que seria de nós sem ela.Gil Dinis – “O segredo da gaita-de-beiços” (Escola Básica e Secundária Santos Simões, Guimarães)

Algures, num lugar cuja existência é dúbia e até improvável, existia um pequeno país moldado por guerras e conquistas. A governá-lo estava uma jovem feita da mesma matéria, soberana de uma monarquia absoluta, conhecida como a “Devoradora de Galáxias", nome que lhe fora atribuído pelo povo e a que ela fazia questão de fazer justiça.” Andreia Patrícia Santos – “A fome mais mortífera” (Escola Secundária de Seia)

Naquela noite pouco dormiu, Bartolomeu tinha pesadelos onde se via galinha e batia as asas sem levantar voo, estrelas cadentes que o atingiam como se fossem pequenas fagulhas e acordou sobressaltado depois de levantar voo na sua pequena Passarola e passar tão perto do sol que ele próprio virou um tufo de chamas e ardeu até embater no chão. Joana Sofia Serrano – “O sustento estrelar” (Escola Secundária da Amadora)

Há muitos, muitos anos, num prado três dias atrás do Sol-posto, vivia um povo muito particular. Menores que o mais pequeno dedo de um recém-nascido, mais leves que um dente de leão, os Complexos não faziam, à vista desarmada, jus ao seu nome, assemelhando-se mais a um minúsculo inseto bípede e inteligente do que a um qualquer ser grande e poderoso. Miguel Padrão – “O virtuoso Simplício” (Escola Portuguesa de Moçambique)


terça-feira, 21 de abril de 2015

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

"QUEM CONTA UM CONTO... AO MODO DE SARAMAGO?!"





O Plano Nacional de Leitura, a Fundação José Saramago, a Rede de Bibliotecas Escolares, o Camões IP e a Porto Editora promovem o concurso "Quem conta um conto... ao modo de Saramago?!".
A presente edição, 2014-2015, tem como tema inspirador a obra Memorial do Convento, de José Saramago.
São convidados a participar os Alunos do 3º Ciclo e do Ensino Secundário, até ao dia 22 de maio de 2015.

A imagem e todas as informações, incluindo o regulamento, poderão ser encontradas no sítio do Plano Nacional de Leitura.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

OBRAS COMPLETAS DE JOSÉ SARAMAGO NO BRASIL



Informações detalhadas no sítio da Fundação José Saramago.


"José Saramago bem que poderia ter escrito: «e no começo fez-se a liberdade»."

Palavras de Luís Schwarcz, editor desta publicação, citando José Saramago.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS



Revista académica que terá edição eletrónica e gratuita.
Do primeiro número haverá também uma edição em papel.

Todas as informações poderão ser consultadas no sítio da Fundação José Saramago.


domingo, 16 de novembro de 2014

JOSÉ SARAMAGO - 16 DE NOVEMBRO

José Saramago na Póvoa de Varzim, após o lançamento da obra Viagem a Portugal, em 1981.
Foto de Luís Severo, daqui.



"Na carreira de José Saramago, ao encontro da palavra poética segue-se o encontro do género privilegiado: o romance. Mas é essa palavra que o funda, semente lírica que faz vibrar a ideia, nessa vibração implicando o escritor que a produz, esse mesmo que é o sujeito activo do trabalho de escrita e que vimos erguer-se literariamente diante de nós com força maior nos livros de crónicas, seus traçados essenciais do caminho principal que se abriu na determinação cerrada de Manual de Pintura e Caligrafia. (...) Em 1980, com a publicação de Levantado do Chão, verifica-se que José Saramago escreve o seu primeiro grande romance, e isso não porque modifique o cânone da novelística (...) mas justamente porque, parecendo querer ir ao encontro do romance como género narrativo paradigmático, ergue afinal uma obra que desse paradigma assume o fundamental, mas onde o fundamental se transfigura pela acumulação da experiência literária anterior, intensa e diversa, disso resultando uma proposta de urdidura ficcional muito específica que imediatamente vai ao encontro da sensibilidade fascinada dos leitores contemporâneos. (...)

A nosso ver, o encontro da específica forma romanesca praticada por José Saramago é-lhe em grande parte proporcionada pela concepção do tempo. Este é o tempo da gesta (atitude activa do herói-sujeito, que o narrador quase mais não faz que contemplar, descrevendo) e o da sucessão inexorável (que destrói, mas também transformando cria); e desta conjunção entre continuidade temporal e intervenção humana vai Saramago extrair uma noção de alteridade que, arrancada à sua marca simbolista de patologia e impossibilidade e à conotação de um plural indeciso de escolhas e certezas veiculada (...) pela sucessão dos modernismos, é a proposta de diálogo entre todo o diverso, ou melhor, de conjunção acertada e dramática das várias condições que situam o homem no mundo, seu entrecruzar doce e fecundo, sua irreparável desarmonia que se deplora e compensa em literatura. (...)

Esta forma-romance vai ter uma realização ímpar nesse que é já um dos textos mais célebres da literatura portuguesa de todos os tempos: Memorial do Convento (1982). É este texto que vem clarificar as condições teóricas da capacidade que a literatura tem de representar o mundo, na concepção romanesca de José Saramago. (...) Memorial do Convento, que relata a gesta dos operários setecentistas que construíram o Convento de Mafra - por determinação do rei que, vendo satisfeito o seu desejo de conseguir um herdeiro, o manda edificar em obediência a voto religioso -, vai ocupar-se também do feito singular, relativamente anedótico mas inaugural, da construção da «Passarola» pelo Pe. Bartolomeu de Gusmão. (...)"

Maria Alzira Seixo, O Essencial sobre José Saramago, Lisboa IN-CM, 1987, pp. 38-42.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

LANZAROTE - A JANELA DE SARAMAGO


Lanzarote, a Janela de Saramago, de João Francisco Vilhena.
Imagem daqui.



A exposição de fotografia "Lanzarote - A Janela de Saramago", de João Francisco Vilhena, será inaugurada no dia 8 de novembro de 2014 e estará patente até ao dia 3 de janeiro de 2015, na Cooperativa de Comunicação e Cultura - Salas Câmara Escura e Câmara Clara, em Torres Vedras.

Todas as informações poderão ser consultadas no sítio da