Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

Mostrar mensagens com a etiqueta N' Eça Leitura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta N' Eça Leitura. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 12 de abril de 2013

N' EÇA LEITURA

(...) Uma das senhoras de preto fazia votos para que se aliviassem os estudos. As pobres crianças sucumbiam verdadeiramente à quantidade exagerada de matérias, de coisas a decorar: o dela, o Joãozinho, andava tão pálido e tão desfigurado, que ela às vezes tinha vontade de o deixar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chávena sobre uma console ao lado, e, passando sobre os lábios a renda do lenço, queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escândalo as exigências, as dificuldades que punham, só para poder deitar RR... Ao pequeno dela tinham feito as perguntas mais estúpidas, as mais reles; assim, por exemplo, o que era o sabão, porque lavava o sabão?...
A outra senhora e a condessa apertavam as mãos contra o peito, consternadas. E Carlos, muito amável, concordou que era uma abominação. O marido dela - continuava a dama de preto - ficara tão desesperado que, encontrando o examinador no Chiado, o ameaçou de lhe dar bengaladas. Uma imprudência, decerto; mas, enfim, o homem fora malvado!... Não havia verdadeiramente senão uma coisa digna de se estudar, eram as línguas. Parecia insensato que se torturasse uma criança com botânica, astronomia, física... Para quê? Coisas inúteis na sociedade. Assim, o pequeno dela, agora, tinha lições de química... Que absurdo! Era o que o pai dizia - para quê, se ele o não queria para boticário?(...)

QUEIRÓS, Eça - Os Maias. Lisboa: Livros do Brasil, s.d. Cap IX, p. 294.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

N' EÇA LEITURA


A Friend in Need, Cassius Marcellus Coolidge

 V

No escritório de Afonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminé, onde a chama morria nos carvões escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo japonês, por causa da bronquite de D. Diogo e  do seu horror ao ar.
Esse velho dandy - a quem as damas de outras eras chamavam o «Lindo Diogo», gentil toureiro que dormia num leito real - acabava justamente de ter um dos seus acessos de tosse, cavernosa, áspera, dolorosa, que o sacudiam como uma ruína, que ele abafava no lenço, com as veias inchadas, roxo até à raiz dos cabelos.
Mas passara. Com a mão ainda trémula, o decrépito leão limpou as lágrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compôs a rosa-de-musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um gole da sua água chàzada, e perguntou a Afonso, seu parceiro, numa voz rouca e surda:
- Paus, hem?
E de novo, sobre o pano verde, as cartas foram caindo num daqueles silêncios que se seguiam às tosses de D. Diogo. Sentia-se só a respiração assobiada, quase silvante, do general Sequeira, muito infeliz essa noite, desesperado com o Vilaça, seu parceiro, rezingão e com todo o sangue na face.
Um tom fino retiniu, o relógio Luís XV foi ferindo alegremente, vivamente, a meia-noite; - depois a toada argentina do seu minuete vibrou um momento e morreu. Houve de novo um silêncio. Uma renda vermelha recobria os globos de dois grandes candeeiros Carcel; e a luz assim coada, caindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos, fazia como uma doce refracção cor-de-rosa, um vaporoso de nuvem em que a sala se banhava e dormia: só aqui e além, sobre os carvalhos sombrios das estantes, rebrilhava em silêncio o ouro de um Sèvres, uma palidez de marfim, ou algum tom esmaltado de velha majólica.
- O quê! ainda encarniçados! - exclamou Carlos, que abrira o reposteiro, entrava, e com ele o rumor distante de bolas de bilhar.
Afonso, que recolhia a sua vaza, voltou logo a cabeça, a perguntar com interesse:
- Como vai ela? Está sossegada?
- Está muito melhor! (...)
 
Os Maias, Eça de Queirós 

Mariana Franco de Almeida, 11.º B 
(seleção de texto e imagem) 


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

N' EÇA LEITURA





A Biblioteca da ESJS promove uma atividade de leitura, a partir do romance Os Maias, de Eça de Queirós.
Os alunos são convidados a selecionar um excerto da obra para publicação no blogue LER PARA SER.






Rafael Bordalo Pinheiro, Caricatura de Eça (fim do séc. XIX)