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Escola Secundária José Saramago - Mafra

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

FELIZ NATAL!


Presépio napolitano.



LETRILHAS

I

Do Verbo divino
a Virgem prenhada
já vem a caminho.
Dar-lhe-eis pousada?



São João da Cruz, Poesias Completas, tradução, prólogo e notas de José Bento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990, p. 89.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL!


Pietro Cavallini, O nascimento de Cristo, mosaico, Basílica de Santa Maria em Trastevere, Roma.




CARTÃO DE NATAL

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem,
o sim comer o não.

João Cabral de Melo Neto, Poesia Completa - 1940-1980, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986.



sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

FELIZ NATAL!


Giotto di Bondone (1276-1337), Natividade (entre 1304 e 1306).





A CONSOADA

- As argolas, mãe? - perguntou, do catrezinho de bancos, a voz estremunhada da criança, que acordara ao rangido da porta.

- Dorme, rapariga... Não ficas sem a consoada... Teu pai ainda não chegou da feira.

A criança voltou-se no catre, ficou com os olhos abertos, encolhida e emudecida, fitando o fogo da caruma, quase extinto no lar, onde requentava a ceia do Natal.

Acocorada na soleira da porta, a mãe, embrulhada num xale, está à espreita, atenta ao menor rumor que vem da estrada.

Já por duas vezes, com o ramalhar das carvalhas ao vento, ela cuidou ouvir tropear ao longe a cavalgadura. Não se enxergava um palmo na escuridão da noite de lua nova. Nem um luzeiro de estrela trespassa agora aquele negrume denso que enche os espaços e por onde o vento anda à solta, varejando as carvalheiras das bouças e assobiando nas agulhas dos pinheiros como uma orquestra de flautas.

- Valha-me Deus! O que retém lá por fora aquele homem, a estas horas da noite! - murmura a mulher, sucumbida.

- Ó mãe, não haveria argolas na feira e terá o pai ido por elas à vila...

- Dorme, rapariga! Amanhã já tens as argolas nas orelhas... Por amor delas desandou o teu pai, sozinho na égua, por essa serra, que mete medo!

Eram a consoada da filha. A colheita em pão e vinho fora de dar graças a Deus. Não havia a pequena de ficar sem as argolas por mais tempo. Logo ao clarear da manhã, o Manuel da Eira selara a égua, entalara o varapau debaixo da coxa, lembrado da quadrilha de Redemoinhos, e pusera-se a caminho para a feira de Lanhoso, prometendo estar de volta ao amortecer do sol, para consoar.

Ainda a mulher advertira, receosa:

- Mete-te a a caminho cedo. Toma tento com a ladroagem de Redemoinhos!

E o Manuel da Eira, destemido, voltara-se no selim:

- Hoje é o dia em que nasceu o Salvador. Os ladrões também são gente cristã!

E picando a égua com a espora, abalara, afoito, pela estrada.

Já ao longe, na igreja da freguesia, os sinos tinham tocado para a missa do galo. Rajadas mais fortes de vento enchiam os céus de um burburinho sibilante e agitavam no alpendre os sarmentos das vides ainda por podar.

Súbito, a criança e a mãe ergueram-se no catre e no poial da porta.

Uma voz chama, de entre o negrume da noite:

- Ó s' Maria da Eira!

Sobre as traves, o vento parece que arrasta as telhas. Na corte, os porcos grunhem. Uma nuvem de cinzas ergue-se e rodopia no lar, sobre a caruma.

Sem pinga de sangue, a mulher grita, numa ansiedade aflita, empurrando a cancela:

- Quem me chama?

E entre o rumor do vento distingue a tropeada da égua, os passos vagarosos de dois homens.

- Traga a candeia... - torna a voz, na estrada.

A criança está já fora do catre, à espera das argolas, esfregando nas costas da mão os olhos foscos de sono.

Tropeçando na saia, a mulher desengancha a candeia da parede e, à luz mortiça, saindo ao terreiro, vê o seu homem, trazido a braços, como morto. Atrás do grupo fúnebre avança a égua trôpega.

Os homens param. O da frente, encarando com o desatino da mulher, resmoneia, esbaforido:

- Tome conta na luz! Não vamos agora ficar neste negrume! O homem vem vivo.

Só então ela parece acordar do seu doloroso espanto e soluça, erguendo para o céu ventoso os braços, deixando fugir o xale.

- Nossa Senhora! Divino amor de Deus, que estou desgraçada!

- Cale-se, mulher! Derreados vimos nós com este peso! Demos com ele numa vala, caído ao pé da égua. Foi pancada que lhe atiraram à falsa fé para o roubar.

Em altos gritos, ela empurra a porta, ajuda a deitar o seu homem no catre. A criança soluça, refugiada a um canto, sufocada pelo medo, e, enquanto a mulher rasga, com a violência do terror, uma camisa de linho para ligaduras, os dois homens lavam as mãos ensanguentadas num alguidar e atiçam o lume da lareira com um graveto de tojo.

Debalde a mulher agora esparge de vinagre o rosto desfigurado do ferido.

Com o braço pendente e as unhas cravadas na palma da mão direita, enlameado e lívido, o Manuel da Eira parece morto, estendido no catre.

- Ele já não tem vida! - clama, num alarido de lágrimas, a viúva, desanimando de abrir aquela mão crispada de defunto.

Os homens deixam de atiçar o braseiro, amparam-na e erguem-na do chão, onde ela se deixou cair desanimada, arrancando os cabelos, com um escarcéu de gritos e soluços.

- Os mortos não fecham as mãos. Isto é coisa que ele tem escondida.

Então, novamente, reconfortada por uma última esperança, ela esforça-se, mais do que em estancar o sangue das feridas, em abrir o punho obstinadamente fechado do seu homem.

Mas desfalece depressa e de novo abate, com a voz estrangulada de soluços maiores.

Por sua vez, os dois homens tentam, inutilmente, desunir da palma sangrenta os dedos inflexíveis.

- Pai, abra a mão! - geme também a criança, aterrada e aflita.

As suas mãozinhas molhadas de lágrimas imaginam ter a força, que aos outros falta, para despegar aquela garra.

- Abra a mão, pai!

E de repente, obedecendo à vozita implorante, a mão abre-se e duas argolas de oiro, pequeninas, aparecem, reluzem e tilintam no soalho.

Carlos Malheiro Dias, "A consoada", in Vinte Belos Contos de Natal, antologia organizada por Manuela Espírito Santo, Vila Nova de Gaia, Editora Ausência, 2004, pp. 59-62.



quinta-feira, 30 de novembro de 2017

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O PRESÉPIO DE ESTREMOZ NO MUSEU DE LISBOA - SANTO ANTÓNIO

A imagem e todas as informações encontram-se aqui.



De 1 a 7 de dezembro de 2017.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

FELIZ NATAL !

Geertgen tot Sint Jans, A Natividade de Noite (ca. 1490).
Imagem daqui.




Dos Céus à Terra desce a mor Beleza,
Une-se à nossa carne e fá-la nobre;
E sendo a humanidade dantes pobre,
Hoje subida fica à mor alteza.

Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;
Que, como ao mundo o seu amor descobre,
De palhas vis o corpo tenro cobre,
E por elas o mesmo Céu despreza.

Como? Deus em pobreza à terra desce?
O que é mais pobre tanto lhe contenta,
Que só rica a pobreza lhe parece?

Pobreza este Presépio representa;
Mas tanto por ser pobre já merece,
Que quanto mais o é, mais lhe contenta.

Luís de Camões, Lírica, fixação de texto de Hernâni Cidade, ilustrações de Lima de Freitas, vol. III, Círculo de Leitores, s/ d, p. 208.




terça-feira, 20 de dezembro de 2016

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

FELIZ NATAL!

El Greco (1541-1614), Adoração dos Pastores (1612-1614).
Imagem daqui.



O NATAL DA INFÂNCIA

Ah como se alongava a província Natal
com distritos de luz dentro do Novo Ano
Vinha já de mais longe um perfume lunar
Começava em Novembro a toilette dos Anjos

No mapa da Europa a Suiça a Suécia
ganhavam posições de repente invejáveis
Andava-se na rua à procura de neve
A neve dos postais arquivava-se em casa

E brincava connosco o menino Jesus
mesmo antes da noite em que tinha nascido
Mas ninguém se atrevia a tratá-lo por tu
Era de todos nós o menino mais rico

As prendas que nos dava. E fingia-se pobre
Adorávamos nele o amor do teatro
o dom de liberdade e da metamorfose
Sorríamos de quem nos dissesse o contrário

1964

David Mourão-Ferreira, Obra  Poética, 1948-1988, Lisboa, Editorial Presença, 2006, p. 224.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

FELIZ NATAL!...

Adoração dos Reis Magos, do Maestro dell'Albero della Vita (1347), fresco da Basílica de Santa Maria Maior, em Bergamo
Imagem daqui.



A ESTRELA DO NATAL
Era Inverno. Soprava
Da estepe um grande vento.
E no fundo da gruta, no flanco da colina,
Tinha frio a criança.

A gruta estava repleta
Dos animais domésticos,
E em torno flutuava um tépido vapor.

Das mantas sacudindo o feno das enxergas
E grãos de milho,
Do alto do rochedo os pastores olhavam,
Ensonados olhavam.
(…)
E perto deles, mais tímida que uma lanterna,
Num pátio pobre,
A estrela nunca dantes vista
Iluminava o caminho que leva a Belém.
(…)
Luzia como se fosse feno em chamas,
Como um fogo de palha,
No mundo apavorado
Pela aparição da estrela nova.

No céu avermelhava-se a aurora,
A aurora profética,
E dirigiam-se os três astrólogos
Ao chamamento desses fogos ignotos.

Os camelos da escolta levavam presentes,
E enfeitados, carregados, os burros, em curtos passos,
Vinham de escantilhão pela colina abaixo.

Uma estranha miragem atravancava o horizonte,
E era o futuro, e eram os sonhos de todos os séculos,
Os pensamentos e os sonhos de um mundo novo,
Os sonhos das crianças, toda a arte dos nossos museus,
As farsas dos duendes, a obra dos mágicos,
As árvores de Natal, os sonhos das crianças,
A chama trémula das velas, os cabelos dos anjos,
… E mais asperamente soprava da estepe o grande vento…
Todos os pomos de ouro, todas as bolas de ouro.

Amieiros cercavam com os ramos o tanque,
Mas do alto do rochedo via-se o brilho da água,
Entre os ninhos dos pássaros e os ramos das árvores,
E os pastores viam, para lá do tanque,
Passarem camelos e burros carregados.
E exclamavam, aconchegando-se nas mantas:
“Vamos com esta gente adorar o milagre.”

Batiam os pés e empurravam-se através da neve.
Vestígios de pés nus ao presépio levavam,
Vestígios que brilhavam com um fulgor de mica.
Agitavam-se os cães em torno das pegadas
Como diante do fogo que salta de um tição.

E esta noite fria assemelhava-se às noites dos contos:
Iam e vinham sombras invisíveis,
Do meio do caminho para os taludes cobertos de neve.
Os cães estavam inquietos; voltavam-se amiúde,
Medrosos, e às pernas dos donos se acolhiam.

Neste mesmo caminho, e pelo mesmo campo,
Caminhavam anjos no meio da multidão,
Emissários ocultos aos olhos dos mortais,
Mas cujos passos através da neve vestígios desenhavam.

Junto de um grande rochedo, a multidão parou.
Aclarava a madrugada e viam-se alguns cedros.
A Virgem perguntou de onde vinha tanta gente.
“- Somos os pastores e os anjos do céu
E aqui vimos prestar nossa homenagem.”
“- O curral é pequeno. Têm de esperar à porta.”

No confuso nevoeiro, cinzento como cinza,
Porqueiros, vaqueiros, pastores, os pés batiam,
E peões e cavaleiros proferiam pragas entre eles.
Ao pé de uma árvore escavada que servia de bebedoiro,
Os camelos gemiam, escoucinhavam os burros.

Aproximava-se a manhã. E no céu a luz
Começou a expulsar
A última poeira cinzenta das estrelas,
E Maria descobriu os magos no meio da turba:
Foram eles os primeiros a entrar no presépio.

A criança dormia, resplandecente, na manjedoira,
E por único trajo, a guardá-la do frio, apenas tinha
O bafo que vinha das ventas do boi, dos beiços do burro.

De pé, os visitantes, na noite do curral,
Docemente trocavam tímidas palavras.
E, na sombra, um pastor, tocando o braço de um dos magos,
Apontou-lhe, à entrada, a estrela nova,
A estrela de Natal que ficara
A contemplar Nossa Senhora.


Boris Pasternak, “A Estrela do Natal”


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

DO CÉU CAIU UMA ESTRELA


Frank Capra, It's a Wonderful Life (1946)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

UM CONTO DE NATAL DE JOSÉ SARAMAGO

Ilustração de Nancy Ekholm Burkert

História de um muro branco e de uma neve preta
 
Não haveria nada mais fácil no mundo das histórias que escrever um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o caso de que uma criança que nasce está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral andamos das infâncias que vivemos, foi pensar que as crianças nascem uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de que o tempo passe e as transforme em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie diferente de seres humanos. A criança começa por nascer uma vez, que é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo: não tem outro remédio nem há outra maneira. Como se verá pelas duas breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras.

A terra, àquela hora, cobria-se de uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa da sua primeira cheia de Inverno, os charcos são de mercúrio. O ar está frio, parado, e estala quando respiramos, como se nele se suspendesse uma ténue rede de cristais de gelo. Há uma casa e luz lá dentro. E gente: a Família. Na lareira ardem grossos troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando à fogueira se lhes juntam gravetos, ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina os rostos da família e logo volta a quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas redondas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro.

Não tarda que saiam todos para o quintal. Vai ser lançado ao ar o foguete de três respostas, esse que, cumprindo a tradição, anunciará aos vizinhos que naquela casa já a última filhó saiu do tacho, a escorrer, e foi cair no alguidar profundo onde aguardará o retoque final da canela e da calda de açúcar. Entre portas, a Criança vê a Família a sorrir fazendo e desfazendo grupos em torno do avô, que sopra um tição trazido da lareira e o aproxima do cartucho de pólvora amarrado ao caniço. Tinha pedido que o deixassem ajudar, mas responderam-lhe como das outras vezes: “Ainda és muito pequeno, para o ano que vem”. A Família tem razão: é preciso ter cuidado com as crianças.

A pólvora inflama-se bruscamente, lança um jacto de fagulhas vivíssimas, silva como uma serpente, e logo é um dragão rugindo que sobe para o ar gelado, corta-o como uma espada de fogo, e lá muito no alto, quase tocando as primeiras estrelas, estala, estraleja, cobrindo os ecos de outro foguete distante. O caniço desce com uma luz mortiça que desmaia, e vai cair longe, nos olivais que rodeiam a casa, sobre as ervas cobertas de geada. Com este tempo não há perigo de que pegue fogo às árvores. De súbito, a Família diz que está frio e volta para casa, levando entre os braços, entre os anéis, entre os tentáculos, a Criança a quem não deixaram ajudar a lançar o foguete. Tinham deixado a porta aberta, o interior da cozinha arrefecera. A Avó acode a espalhar na fogueira uma mão-cheia de aparas, desgalha um ramo seco de oliveira, parte-o com as mãos calejadas, mas é com suavidade que depois chega os troços à chama, como se estivesse a alimentá-la. O lume hesita, escolhe o lado mais acessível da lenha, e depois, indiferente, alheado, a pensar noutra coisa, recomeça o seu eterno ofício de fabricante de cinzas.

A Família gira em redor da mesa, arruma-se nas poucas cadeiras que há, trazidas algumas de outras casas, uns quantos escabelos pouco firmes, um caixote velho posto em pé. Os rostos estão sorridentes e corados, e têm nomes e apelidos, mas, para a Criança, são, antes de tudo, os Pais, os Avós, os Tios, os Primos, um enorme e complicado corpo de animal que lhe lembra a história da Bicha-de-Sete-Cabeças ou o Dragão-Que-Não-Dorme. Sobre a mesa trava-se uma gesticulação ruidosa de facas e garfos, de mãos, de dentes, uma contínua mastigação que deforma os rostos e engordura as bocas. Contam-se casos, anedotas, todos riem. O frio está lá fora, e a geada, e a noite impenetrável. A Criança anima-se, já esqueceu a decepção, para o ano talvez a deixem lançar o foguete sozinha. Também tem uma história para contar, só está à espera duma pausa, dum momento mágico em que todos se calem, acaso emudecidos por um anjo que passou deixando apenas a imagem de um dedo imperioso sobre os lábios cerrados. O momento está a chegar por fim, uma a uma calam-se as bocas da Família, é agora ou nunca, a Criança inspira fundo, rompe o silêncio, começa a falar. A Família olha surpreendida, dá alguma atenção, mas não muita nem por muito tempo, não dura, não pode durar, as vozes regressam do silêncio, e é o Pai que lhe corta a narrativa com uma frase que faz rir toda a gente. Uma frase que vai fazer chorar a Criança. Porque o Menino, a Criança é um menino, levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus de pedra que conduzem ao mundo. Ali adiante há um muro caiado, baixo, com uma varanda dando para terras ignotas. A Criança vai debruçar-se sobre o muro, deixa cair a cabeça sobre os braços cruzados, e o terrível nó das lágrimas desata-se dentro de si. Da casa vêm risos e vozes, alguém fala muito alto, e depois ressoam gargalhadas. Ninguém está pensando na Criança.

Faz muito frio. Visto daqui, o céu parece estar feito de veludo negro. E há as estrelas. Duras, nítidas, implacáveis, quase ferozes. A Criança levanta os olhos. Lá estão elas a brilhar. Olhadas através das lágrimas, as estrelas são diferentes. Mundo estranho, estranho mundo, este. Sob os passos da criança, o chão duro e gelado range, E, em frente, as árvores negras, misteriosas, onde à noite os grandes medos se vão esconder, tomam o ar confidencial de quem conhece todos os segredos futuros, a hora e o lugar onde acontecerá o terceiro nascimento e o quarto, e o quinto, todos os aqueles que ainda esperam a esta Criança, até mesmo quando de havê-lo sido já não lhe restar memória.

As Crianças estão sempre a nascer. Às vezes nascem de explosivas alegrias, de achados incríveis, de deslumbramentos únicos, mas o mais frequente, uma vez após outra, é nascerem de cada tristeza sofrida em silêncio, de cada desgosto padecido, de cada frustração imerecida. Há que ter muito cuidado com as Crianças, nunca me cansarei de o dizer. Um dia uma Professora teve uma ideia de Professora e mandou os seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Claro está que não empregou esta linguagem, o que disse foi: “Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira”. Uns com lápis, outros com aguarelas, outros com papel recortado, alguns pintando com os dedos, todos cumpriram o melhor que puderam. Apareceu tudo quanto é costume nestes casos: o presépio, os reis magos, os pastores, São José, a Virgem e, inevitavelmente, o Menino Jesus. Bem feitos uns, mal feitos outros, toscos ou esmerados, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da Professora. Ali mesmo ela os viu e lhes pôs nota. Ia marcando “bom”, “mau”, “suficiente”, como se com esses juízos os marcasse para a eternidade. De repente. Ah, quantas vezes ainda teremos de dizer que é preciso muito cuidado com as crianças! A Professora segura um desenho nas mãos, um desenho que não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está confusa, perturbada: o desenho mostra a invariável manjedoura, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena já sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê? pergunta a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A Menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: “Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu”. Fez-se silêncio e a Professora pensou, assim o veio a contar mais tarde: “À Lua já chegámos, mas quando e como conseguiremos chegar ao espírito duma criança que pintou a neve preta porque a mãe lhe morreu?”.

Muitos anos depois destas histórias terem acontecido, contei-as a uma outra Menina, que me perguntou: “E eles ainda estão tristes?”. Nessa altura disse-lhe que sim, que há tristezas que o tempo não consegue apagar, mas hoje conforta-me a ideia de que talvez o Menino do Muro Branco e a Menina da Neve Negra se tenham encontrado na vida, e que talvez por causa deles o mundo já esteja a mudar sem que nós tenhamos dado por isso.




Este conto (se o é) tem a sua origem em duas crónicas, “Um Natal Há Cem Anos” e “A Neve Preta”, publicadas no jornal A Capital no final dos anos 60 e que hoje podem ser lidas mais comodamente no volume Deste Mundo e do Outro. A junção delas (que de certa maneira é também fusão) aconteceu em 1995 e teve como destino uma revista espanhola entretanto desaparecida. Relidas hoje, novamente refeitas, estas velhas crónicas perguntam se o muro branco ainda lá está e se ainda há quem tenha de continuar a pintar a neve com tinta preta. Por mim, acho que sim. Quem dera que sejam muitos os que tenham razões para pensar que não.

(Coord. Vasco Graça Moura, Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, col. Mil Folhas, Público)

  Deste Mundo e do Outro, de José Saramago, está disponível na BE. 


COM PALAVRAS IV

Frank Sinatra, Have Yourself a Merry Little Christmas

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

NATAL!...

Georges de la Tour, A adoração dos pastores, 1645
Imagem daqui.
 
 
 
NATAL
 
A grande ocorrência
Que nos conta o sino
É que, na indigência
Nasceu um menino.
 
Mil novecentos
E cinqüenta e três
Anos são peremptos
Dessa meninez.
 
Muito tempo faz...
Mas ninguém olvida
Que é um dia de paz...
Porque fez-se a vida!
 
Natal de 1953
 
Vinicius de Moraes, Poesia Vária
 
 


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

COM PALAVRAS III

Georg Friedrich Händel, "For unto us a Child is born", peça do Oratório O Messias (1741)