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Escola Secundária José Saramago - Mafra

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terça-feira, 18 de junho de 2019

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

FERNÃO DE MAGALHÃES


Fernão de Magalhães (Viena, Kunsthistorisches Museum).




Como era Fernão de Magalhães

Ao querermos conhecer Fernão de Magalhães, é natural que tenhamos curiosidade em saber como era a sua fisionomia, de forma a podermos acompanhar a sua história com um rosto. Tal curiosidade já foi patenteada no século XVI pelo humanista italiano Paolo Giovio, que adquiriu um retrato do navegador. Em 1535 já integrava a sua vasta coleção de retratos de pessoas famosas reunida num museu que montou em Como, na Itália. Se esse retrato não tiver sido apenas imaginado, poderá admitir-se que foi traçado de memória, poucos anos depois da sua morte, em 1521, por alguém que conheceu Fernão de Magalhães.

O retrato acima mencionado perdeu-se, mas podemos conhecê-lo indiretamente e assim visionarmos com verosimilhança como teria sido Fernão de Magalhães, pois ele serviu de matriz a duas pinturas que o copiaram. Uma delas foi feita por volta de 1552 e a outra cerca de 1579.

(...)

A única descrição de Fernão de Magalhães feita por um seu contemporâneo é aquela que foi traçada num tão breve como expressivo testemunho de Frei Bartolomeu de Las Casas (1484-1566) registado alguns anos depois de se ter encontrado com o navegador em Valhadolide, 23 de fevereiro de 1518:

Este Fernão de Magalhães devia ser homem de ânimo e valoroso em seus pensamentos e para empreender coisas grandes, ainda que a pessoa não mostrasse muita autoridade, porque era pequeno de corpo e em si não mostrava ser para muito, ainda que tão pouco desse a entender ser falto de prudência e que alguém o pudesse facilmente subordinar, porque parecia ser recatado e de coragem.

Há ainda a assinalar um aspeto físico de Fernão de Magalhães referido por João de Barros ao indicar que ele coxeava um pouco por ter sido ferido por uma lança numa perna, no decorrer de  uma luta travada em 1514 em Azamor, Marrocos.

Quanto ao perfil psicológico de Fernão de Magalhães, podemos traçá-lo de uma forma simples e abrangente através de um conjunto de palavras que se nos afiguram ser adequadas para o caracterizar: ambicioso, astuto, audaz, autoritário, combativo, confiante em si mesmo, corajoso, curioso em conhecer novas terras e novas gentes, determinado, hábil, irritadiço, justiceiro, lutador, otimista, persistente, perspicaz, resiliente, tenaz, valente, vingativo e voluntarista.

O conhecimento de quem era Fernão de Magalhães passa ainda pelo alinhamento de outras informações como as de que era especialista em navegações, náutica, astronomia, geografia, cartografia, climas, condições atmosféricas e matemática; solidário com amigos e subordinados; duro com rivais e opositores; de opiniões firmes e frontais; sem medo; com espírito crítico; intransigente na defesa das suas opiniões, mas por vezes conciliador; interessado por economia e empenhado na obtenção de lucros com empréstimos e negócios de especiarias; resistente à fome, à sede e à doença; sedento de honrarias e muito cioso de pontos de honra; muito religioso e proselitista da fé católica; respeitador dos nativos que encontrou, a não ser em situações extremas; fiel aos senhores que nele confiavam; calculista, mas também por vezes ingénuo e com excesso de confiança; vítima de intrigas por não ter lóbis favoráveis aos seus interesses em Portugal, embora os tivesse em Espanha, mesmo que também aí tivesse de enfrentar inimigos e intrigas.

Quanto à posição social de Fernão de Magalhães, sabemos que foi um cavaleiro fidalgo da casa real portuguesa cujas origens nos limitamos aqui a referir estarem situadas no Norte de Portugal, tendo ele próprio expresso oficialmente a informação de ser «vizinho da cidade do Porto». (...)

Por falta de referências documentais não sabemos o ano do nascimento de Fernão de Magalhães, mas é possível sugerir a hipótese de que tal poderia ter acontecido por volta de 1480.

Agenda Fernão de Magalhães - nos 500 Anos do Início da Grande Viagem 2019, Produção de conteúdos: José Manuel Garcia, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2018.



sexta-feira, 28 de julho de 2017

O LADINO


Imagem daqui.




Quando os Judeus foram expulsos de Espanha e a seguir de Portugal emigraram para onde a fortuna ou o acaso os arrastou — para a Turquia, Servia, Bósnia, Bulgária, Palestina, Marrocos, como para os paises do Norte, França, Bélgica, Inglaterra, Hollanda, etc. A principio conservaram pura a lingua que fallavam — o espanhol ou o português — aquelle, porém, mais do que este; a breve trecho, como não podia deixar de ser, essa lingua começou a alterar-se, a decomporse, admittindo numerosas formas extranhas, deixando-se influenciar na sua phonetica, como na morphologia e na syntaxe pelas outras linguagens com que se encontrava em contacto.

 Formou-se assim uma espécie de dialecto em que os elementos predominantes sam o hebreu e o espanhol, a que se deu o nome de Idioma espanhol, ou Lingua castelhana, ou Lingua vulgar, ou Lingua Sephardi, ou ainda Judesmo ou Judeo-Espanhol, ou, enfim, como é mais conhecido, simplesmente — Ladino (...).

Uma das suas características é no que respeita á phonetica, por ex., a substituição do h por f  como em fijo por hijo, fablar por hablar, fambre por hambre, fermosa por hermosa, etc. Deu-se o mesmo phenomeno com o g. Diz-se em ladino agora por ahora. Nenhum auctor fez notar que estas trocas se explicam pela influencia do português. Quanto a nós não pode haver outra explicação do facto. Os judeos portugueses eram em menor numero, mas tinham a sua representação entre os emigrados bem accentuada por figuras distinctas nas letras ou na vida e regime da Synagoga. Estabelecer-se-hia assim inconscientemente uma lucta em que tinham de ficar vencidos os mais fracos. Entretanto um periodo de instabilidade de formas, de duplo emprego de termos, deveria existir.

É também frequente no ladino a mudança do n em m como muestros, muevo, mos, por nuestros, nuevo, nos. Ha a metathese do d antes do r em vedrad (verdad), pedrer (perder), vedre (verde), etc. Muitos termos são exclusivos deste dialecto, como meldar, frequentemente empregado, em vez de aprender, ler, meldador, isto é, leitor, prégador ; melda o mesmo que escola; darsar, (...) investigar, instruir, e que se emprega na significação de prégar, fazer um sermão, etc.

Os caracteres de que se serviram os Judeos na impressão das obras que saíram á luz em ladino são hebraicos, raras vezes latinos. Mas como os signaes dos dous alphabetos se não correspondem exactamente d'ahi as anomalias que se notam na transcripção e que nem sempre sam fáceis de descobrir. (...)

Joaquim Mendes dos Remédios, Os Judeus Portugueses em Amsterdam, Coimbra, F. França Amado Editor, 1911, pp. 149-151.



sexta-feira, 21 de julho de 2017

POESIA E POETAS ANDALUSINOS II

Sevilha
Córdoba.
Granada.
Medina.
Judiaria.
Imagens daqui.




Nomearemos, por fim, três poetisas ligadas ao nosso território. Da princesa Buthayna (século XI), apenas nos chegou um único poema, em forma de epístola dirigida a seu pai, al-Mu'tamid, então já no exílio. Buthayna que, depois do desterro daquele, havia sido feita esvrava e vendida a um mercador, usa os versos para pedir autorização para casar com um filho do seu comprador. A qualidade do poema autoriza a pensar que este teria sido apenas um entre muitos dos que terá escrito.

Maryam al-Ansârî, natural de Silves (séculos X-XI), foi uma dessas numerosas intelectuais andalusinas que, além de poetisa, era mestra de literatura, tendo alcançado assinalável notoriedade na sociedade do seu tempo. (...)

Outro exemplo notável do protagonismo cultural e social das mulheres luso-árabes é-nos dado por uma poetisa do período almôada (século XII). Ficou conhecida para a posteridade apenas como al-Shilbîa (a Silvense), de tal modo a sua nomeada dispensava qualquer outra apresentação. Governava então o Alandalus o califa almôada Ya'qûb al-Mansûr e a cidade de Silves estava sobrecarregada de impostos. Pois a "Silvense" foi escolhida pelos seus concidadãos para, em nome da cidade, apresentar uma petição de protesto ao soberano. A poetisa elaborou para a circunstância um curto poema, tão belo de forma e eficaz de conteúdo que o pedido foi atendido e a carga fiscal levantada.

Não é demais sublinhar-se a altíssima conta em que era tido o talento literário entre os andalusinos. Os dotes poéticos valiam, quase sempre, ao seu possuidor a ascensão social pois, tarde ou cedo, um príncipe ou um mecenas haveria de reparar neles. (...) Os poetas árabes, para além da poesia amorosa, cultivavam quer a sátira quer o panegírico, o que lhes dava protagonismo e visibilidade suficientes para utilizarem, sobretudo a partir de finais do século X, o seu estro como modo de vida.

A poesia luso-árabe era, essencialmente, de cariz aristocrático. Com o tempo, «democratiza-se» e, a partir de finais do século X, os novos géneros estróficos (...) «descem à rua» trazidos pelos próprios poetas da corte. Servem de base a canções/ danças populares que, após a conquista cristã, influenciaram decisivamente as cantigas de amigo galaico-portuguesas, tal como já haviam influenciado as de amor de origem provençal. O ideal cavalheiresco, bem como o do amor cortês, têm uma inegável componente islâmica, com a sua natural repercussão nos topoi poéticos.


                                                                                                       Adalberto Alves, A Herança Árabe em Portugal, CTT Correios de Portugal, 2001, pp. 72-77.




quinta-feira, 20 de julho de 2017

POESIA E POETAS ANDALUSINOS I


Imagem daqui.




Entre todos os poetas luso-árabes, o mais universalmente conhecido, até porque foi rei de Sevilha e versos seus figuram nas Mil e Uma Noites, é, sem dúvida, al-Mu'tamid ibn 'Abbâd, de Beja (século XI). Ele cantou o seu cativeiro, após ser destronado pelos Almorávidas e enviado para o desterro em Âgmât (Marrocos), em versos pungentes, até à morte. Outro admirável poeta foi Abû Bakr ibn 'Ammâr, de Estômbar (Silves, século XI), amigo de al-Mu'tamid e seu grão-vizir, contra quem se viria a revoltar, proclamando-se independente em Múrcia. Por força de intrigas palacianas, a rebeldia de Ibn 'Ammâr acabaria por custar-lhe a vida às mãos de al-Mu'tamid num acesso de incontrolável fúria. Ibn 'Ammâr foi um importante protagonista político, utilizando um estilo requintado nos seus versos.

De Évora era Ibn 'Abdûn que, além de notável poeta, foi grande erudito: deu mostras da sua proverbial cultura numa célebre elegia sobre a morte do seu patrono, o emir de Badajoz.

Ibn Bassâm, de Santarém (século XII), é considerado uma das glórias da Literatura árabe, não só pela qualidade dos seus versos mas, muito especialmente, pela excepcional antologia comentada da poesia do Alandalus, que ele intitulou com toda a propriedade al-Dhakîra (Tesouro). Trata-se de uma recensão, de valor, de toda a produção neo-clássica da poesia do Alandalus, e a ela se deve ter sido salva uma considerável parte da posia luso-árabe, e andalusina, do seu tempo. Também de Santarém foi Ibn Sâra (séculos XI-XII), homem de independência de carácter, que nos deixou uma poesia dotada de grande poder evocador, através de metáforas audaciosas.

Ibn Darrâj al-Qastallî, de Cacela (séculos X-XI), escreveu na grande tradição da poesia árabe clássica, cultivando, com mestria, um estilo solene muito admirado no seu tempo.

Ibn Muqânâ (século XI) nasceu em Alcabideche, terra para onde voltou depois de uma vida errante ao serviço de vários senhores. Poeta reputado, abandonou voluntariamente a vida na corte para passar os seus últimos dias como camponês quase anónimo, trabalhando a terra em comunhão com a natureza.

(continua...)

Adalberto Alves, A Herança Árabe em Portugal, CTT Correios de Portugal, 2001, pp. 69-71.



segunda-feira, 29 de maio de 2017

ÁRABES E ISLÃO NA LITERATURA E NO PENSAMENTO PORTUGUÊS (1826-1935)


Imagem e todas as informações aqui.




"Mostra dedicada à presença árabe e islâmica na literatura e no pensamento portugueses (...). Através de uma organização cronológico-temática (...), apresentam-se textos, autores, movimentos e momentos em que a presença e a representação do Islão e da civilização islâmica, com especial foco no al-Andalus (711-1492), emergem na estética e na cultura literária e filosófica portuguesa. Entre os autores patentes na mostra, destacam-se Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Antero de Quental, Teófilo Braga, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Almada Negreiros."


Patente de 31 de maio a 1 de setembro de 2017, na Biblioteca Nacional de Portugal.



quinta-feira, 16 de março de 2017

HERANÇAS, VIVÊNCIAS E PATRIMÓNIO JUDAICO EM PORTUGAL






« "Heranças, Vivências e Património Judaico em Portugal" é o título de uma exposição que tem como objetivo dar a conhecer a história do judaísmo no país. A exposição, promovida pela Rede de Judiarias de Portugal - Rota de Sefarad, convida, assim, a uma viagem pela vivência dos sefarditas em território nacional. Com inauguração marcada para 20 de março, a mostra estará patente na Torre do Tombo, em Lisboa, até 29 de abril.»

Imagem e texto do sítio do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.



quinta-feira, 24 de março de 2016

BIBLIOTECA DE ARTE DA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN


Igreja do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Painel de azulejo de figura avulsa.
Fotógrafo: João Miguel dos Santos Simões (1907-1972).




segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

XADREZ E DIPLOMACIA


Imagem daqui.




"Ibne Amar encontrava-se numa situação análoga à de Jáfar ibne Iáhia (Barmeki) junto de (Hárune) Arraxide. Almutâmide acreditava nele nos assuntos mais importantes e julgava-o digno dos postos mais elevados. Por outro lado, Ibne Amar resolvia com acerto todos os assuntos que lhe earm encomendados e marcava-os com o seu selo como o ferro rubro ao fogo. Era bem conhecido em toda a Espanha. Até o rei cristão Afonso (VI), quando se pronunciava diante dele o nome de Ibne Amar, afirmava que era o homem mais excelente da Península. De feito, conseguiu impedir que tal príncipe conquistasse as cidades de Sevilha e Córdova e os seus territórios.

Desejoso de apoderar-se dos estados de Almutâmide, Afonso avançava à cabeça de um importante exército. O coração dos muçulmanos estava cheio de terror porque se sabiam demasiado fracos para poderem resistir. Então Ibne Amar recorreu à astúcia e empregou o estratagema mais engenhoso.

Mandou fazer um jogo de xadrez, magnífico tanto do ponto de vista da arte como da finura do seu acabamento, de tal modo que nenhum rei possuía outro igual. As peças eram de ébano, de aloés, e de sândalo com incrustações de ouro. E o tabuleiro era também uma maravilha de precisão. Provido deste xadrez e na qualidade de enviado de Almutâmide, apresentou-se a Afonso que encontrou à entrada do território muçulmano. O rei cristão recebeu-o da maneira mais honrosa e ordenou aos cortesãos que frequentassem a tenda do estrangeiro e velassem por que nada lhe faltasse. Um dia Ibne Amar ensinou xadrez a um dos cortesãos de Afonso, o qual falou dele ao seu senhor, grande jogador de xadrez.

Quando o príncipe recebeu a visita de Ibne Amar perguntou-lhe se era forte em tal jogo ao que o seu interlocutor respondeu afirmativamente. E era realmente um xadrezista de primeira qualidade.
        - Disseram-me - replicou o príncipe - que tens um xadrez magnífico.
        - É verdade.
        - Como poderei vê-lo?
        - Vou trazer-to - mandou responder Ibne Amar pelo seu intérprete - mas na condição de jogarmos ambos uma partida. Se ganhares, o jogo será teu; se perderes, poderei pedir-te o que quiser.
        - Trá-lo para eu o ver - disse Afonso.
O vizir mandou-o buscar e apresentou-o ao cristão que exclamou persignando-se:
        - Nunca imaginei que um jogo de xadrez pudesse estar tão bem feito. - E acrescentou voltando-se para Ibne Amar:
        - O que é que dizias?
O muçulmano repetiu as condições que propusera.
        - Não - disse Afonso -, não posso jogar. Não sei o que queres pedir-me, talvez uma coisa que não te possa dar.
        - Não jogarei noutras condições - respondeu Ibne Amr. E mandou embrulhar de novo o xadrez e levá-lo para a sua tenda.

O vizir revelou, porém, a alguns cortesãos cristãos, sob promessa de segredo, o que exigiria a Afonso no caso de ganhar a partida. E obteve a sua ajuda mediante somas importantes.

Como a recordação do xadrez obsessionava o príncipe, consultou os seus favoritos sobre as condições que Ibne Amar queria impor-lhe.
        - É coisa pouca - responderam. - Se ganhares, terás o xadrez mais formoso que um rei pode possuir. Se perderes, que pode pedir um adversário teu que um rei como tu não possa cumprir? E se exigir uma coisa impossível, não estamos nós prontos a pormo-nos do teu lado para o fazer entrar na razão?
Insistiram com tanto êxito que Afonso mandou vir Ibne Amar com o seu xadrez e disse-lhe que aceitava as suas condições.

O vizir pediu então que se chamassem alguns nobres que designou como testemunhas. Afonso mandou-os vir e começou a partida. Mas, dissemo-lo já, Ibne Amar era um tal jogador que ninguém lhe podia ganhar no Andaluz. E ante os olhos dos cortesãos bateu completamente o seu adversário. Quando o resultado da partida não ofereceu dúvidas, Ibne Amar disse:
        - Ganhei o que tínhamos combinado?
        - Sem dúvida. O que pedes?
        - Que saias desta terra e entres na tua.
Afonso empalideceu, sentiu-se preso de uma grande agitação e entre outras coisas disse aos seus favoritos:
        - Aqui está o que eu temia. E vós a tranquilizar-me...
Por um instante perguntou-se a si mesmo se cumpriria a sua palavra e não continuaria a campanha, mas as pessoas do seu séquito fizeram-lhe ver a vergonha que seria o maior rei cristão da época atraiçoar a sua promessa. E insistiram com tanto acerto que acabou por se acalmar. Exigiu, no entanto, que naquele ano pagassem o dobro do tributo ordinário. Ibne Amar aceitou e mandou entregar a soma pedida a fim de conseguir a retirada imediata de Afonso. Graças à prudente e hábil conduta do vizir, Alá soube colocar assim os muçulmanos ao abrigo da violência dos cristãos. E Ibne Amar voltou a Sevilha para junto do seu senhor a quem achou encantado por tão feliz sucesso."

António Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, vol. 2: História, Lisboa, Editorial Caminho, 1989, pp. 225-226.



quarta-feira, 4 de novembro de 2015

DO NOME III


Imagem daqui.



"(...) Os Ciganos (vindos de Hespanha no seculo XV ou XVI) formam entre nós, como os Judeus, e outr'ora os Mouros-fôrros, um grupo etnico, ainda que não tão importante, de modo algum, como estes, e de natureza muito diversa. Subordinam-se ostensivamente e no conjunto ás leis portuguesas, vivem porém mais ou menos em hordas, entendem-se entre si por linguagem propria, e associam-se para (...) comércio e defesa. (...)

A Ciganos ouvi contar que quem leva a efeito o bàtismo é o mais velho dos presentes: mergulha por tres vezes a cabeça da criança na agua, emquanto o padrinho toca, parece que outras tres vezes, um guiso ou campainha (...).

Na ocasião do bàtismo, impõe-se á criança um nome, a que chamam nome de ribeiro, de ribeira, de rio; a um Cigano em conversa escapou também a expressão nome de barranco, pois barranco é expressão hidrografica muito alentejana, e algarvia, no sentido de corrente de agua que em regra séca de verão. Das referidas expressões a mais vulgar creio ser nome de ribeiro, que se contrapõe ao nome de pia (...) dado depois pelo padre na igreja. (...)

Eis alguns exemplos de nomes de ribeiro indicados paralelamente a nomes de pia:
Abob'ra (nome geografico, provindo dos Casais da Abobora) - Dina.
Bombiano - Antonio.
Cabelinho d'oiro - João.
Cabeludo - Emilio.
Caracol - José.
Chocalhinha badalinha - Esperança.
Escaravelho - Mariana.
Espilradeira (assim terminado em -a) - Joaquim Tau.
Florida - Emilia.
Inverno - João Abreu.
Laganhoso - Pedro.
Mandil - Josué.
Martelo - João.
Moira - Ludovina.
Moiro - Diamantino.
Mostarda - Manuel.
(...)
Ribêra (isto é, Ribeira de Santarem) - Isaura.
Santarena - Maria.
(...)
Vai à cepa - Julio.
(...)

O caracter do nome de ribeiro é ser pseudonimo, para corresponder ao calão. O que os Ciganos querem é que ninguem de fóra da vida da familia os entenda, nem na linguagem, nem nos nomes (...). Os nomes de ribeiro, a que igualmente ouvi chamar «apelidos», têm origem como as alcunhas ordinarias (...): alguns significam locais de nascimento, como me explicaram, por exemplo, Moira (Moura), Montemór, Ribêra, Abob'raSantarena; outros indicam profissões das mães, por exemplo, Pexêra; Moiro explicaram-me que resultou de ter o menino estado dois anos por bàtizar, isto é, ter estado «moiro». (...)

No uso quotidiano póde juntar-se um nome de ribeiro a um nome de pia, a modo de alcunha ou apelido, como: Antonio Bombiano, Emilio Cabeludo, (...) Julio Vai à cepa, Manuel Mostarda; ou juntar-se ao nome de pia ou de ribeiro o de um dos pais, ligados por de (Morena da Naséi, isto é, Morena filha da Naséi - Nazaré -; Aurora do Barrela, isto é, filha do Barrela). (...)"

(N.B. Foi respeitada a grafia original)

J. Leite de Vasconcellos, Antroponimia Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda/ Publidisa,  1ª edição 1928, 2ª edição facsimilada 2005, pp. 421-425.


sexta-feira, 8 de maio de 2015

VULTOS DA NOSSA HISTÓRIA


Imagem daqui.


A mostra de medalhas intitulada Vultos da Nossa História, estará patente no átrio da Casa da Moeda, de 12 de maio a 30 de setembro de 2015.


quarta-feira, 29 de abril de 2015

DONA FILIPA DE LENCASTRE E O SEU TEMPO: ARTE, CIÊNCIA E CULTURA

Imagem daqui.

O colóquio, organizado pelo Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, terá lugar no Museu da Batalha, no dia 16 de maio, a partir das 14h00, assinala os 600 anos do falecimento da Mãe dos príncipes que deram nome à Ínclita Geração.

O programa encontra-se aqui.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

SALOIOS IX

Pátio da Casa-Museu Leal da Câmara
Imagem daqui.

Do legado islâmico deixado em terras saloias não fazia parte o seu maior tesouro, a arte e as suas variações: a música, a dança, a poesia, o sufismo… O árabe, ou o muçulmano, ou o mouro, ou o marroquino, ou o berbere, que se instalou em terra saloia era o homem da força do trabalho e não o da contemplação mística, nem tão-pouco o poeta ou o músico. Contudo, o que veio trouxe bagagem, ainda que depauperada, e o que ela continha permanece. Faz-se sentir na onomástica, de forma especial na toponímia, nos hábitos arreigados relacionados com o trabalho da terra, com o pequeno negócio, nos caracteres morfológicos e psicológicos (a astúcia, a calma, a pertinácia…) do saloio e da saloia, e nas tendências sociais das populações. Além destes aspetos, existem outros que poderiam e mereceriam ser aprofundados e investigados. A título de exemplo, encontra-se aquilo que Kiesler Reinhard designa como “arabismos semânticos”, tipicamente ibéricos, inexistentes nas outras línguas românicas. É o caso da expressão matar a fome, “recortada” do árabe, e de alguns modos de falar ou fórmulas de cortesia de talhe inconfundivelmente islâmico, como refere o autor.
Uma outra vertente dessa influência que permanece por desbravar prende-se com certos aspetos arquitetónicos das casas mais antigas da região que parecem emular traços marroquinos e assim prolongar a herança recebida. O tradicional pátio das casas saloias mais abastadas (ainda há alguns que têm logrado resistir às novas construções) é um deles. Habitualmente bem servido de água, a maioria das vezes por meio de um poço, tem sempre flores, em canteiros ou em vasos, fazendo assim as vezes de um jardim e preservando a vida doméstica dos olhares indiscretos dos passantes, o pátio será um vestígio do característico riad/ jardim interior, tão prezado ainda hoje pelas culturas islâmicas e tão divulgado nos roteiros turísticos. Ele será também o local central da casa, o ponto aglutinador e a fonte de luz. Encontram-se ainda sem grande procura dois outros traços arquitetónicos da habitação, também eles tributários desse legado – a telha de canudo e o terraço. As entradas e saídas de casa fazem-se através de um portão de ferro forjado ou, então, de madeira, mas com batentes em ferro forjado; há normalmente uma outra abertura, uma porta estreita, por vezes com um pequeno postigo. As janelas que deitam para a rua normalmente são muito pequenas; já aquelas que estão viradas para o pátio são notavelmente maiores, permitindo desta forma a entrada da luz natural nos espaços interiores, dependências da mulher saloia.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

COLÓQUIO "A CHAROLA DE TOMAR: NOVOS DADOS, NOVAS INTERPRETAÇÕES"

Imagem e informações detalhadas aqui.


O colóquio, organizado pela Direção-Geral do Património Cultural, com a colaboração do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, terá lugar nesta Faculdade, nos dias 8 e 9 de janeiro de 2015. A entrada é livre.



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

LIVRO DE COZINHA DA INFANTA D. MARIA - II



"Cumpre, antes de mais nada, salientar que este manuscrito - embora verse assuntos prevalentemente culinários e de doçaria, distribuídos mais ou menos racionalmente em quatro secções, ou cadernos (o que lhe empresta aquela aparência vagamente sistemática que levou alguém a dar-lhe o título, algo austero, de «tratado» de cozinha) - encerra também, nas primeiras e nas últimas páginas, uma ou outra receita que nada tem com mistérios pantagruélicos. Com efeito, pode ter sido uma daquelas enciclopédias caseiras da vida prática, de consulta fácil e de utilidade óbvia (...).

*****

Receita para esquinência

Tomarão canela, que seja muito boa, e noz moscada,
de cada cousa destas meia onça; e de gengi-
bre, uma quarta de onça; de alva-de-cães, que
seja muito alva e seca, uma oitava de onça;
e quatro ou cinco cravos-girofles; uma onça
de açúcar refinado: tudo há-de ser muito moído
e peneirado, e muito misturado um com o outro;
e ao que tiver a esquinência tomarão quantos
pós destes possam tomar com três dedos,
e deitar-lho-ão no gorgomilo quão abai-
xo puderem, e após eles um bocado de água
fria. E desta maneira lhos darão três
vezes, uma após outra, e deitar-lhos-ão
três ou quatro dias a fio, se nos primeiros
três dias não ficar livre."



Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, Prólogo, Leitura, Notas aos textos, Glossário e Índices de Giacinto Manuppella, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, pp. XVI, 147 e 162.