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Escola Secundária José Saramago - Mafra

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segunda-feira, 23 de abril de 2018

JANELAS


André Vicente Gonçalves.
Imagem daqui.




ouverture la vie en close

em latim
«porta» se diz «janua»
e «janela» se diz «fenestra»
a palavra «fenestra»
não veio para o português
mas veio o diminutivo de «janua»,
«januela», «portinha»,
que deu a nossa «janela»
«fenestra» veio
mas não como esse ponto da casa
que olha o mundo lá fora,
de «fenestra», veio «fresta»,
o que é coisa bem diversa
já em inglês
«janela» se diz «window»
porque por ela entra
o vento («wind») frio do norte
a menos que a fechemos
como quem abre
o grande dicionário etimológico
dos espaços interiores
e ver-te
verde vênus
doendo
no beiracéu
é ver-nos
em puro sonho
onde
ver-te, vida,
é alto ver
através de um véu

Paulo Leminski, Toda Poesia, São Paulo, Companhia das Letras, p. 153.



quinta-feira, 19 de abril de 2018

DO NOME XV


Gustav Klimt (1862-1918), detalhe de As Três Idades da Mulher (1905).
Imagem daqui.



Os Nomes

Tua mãe dava-te nomes pequenos, como se a maré os trouxesse com os caramujos. Ela queria chamar-te afluente-de-junho, púrpura-onde-a-noite-se-lava, branca-vertente-do-trigo, tudo isto apenas numa sílaba. Só ela sabia como se arranjava para o conseguir, meu baiozinho-de-prata-para-pôr-ao-peito. Assim te queria. Eu, às vezes.

Eugénio de Andrade, Memória Doutro Rio, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 37.



segunda-feira, 16 de abril de 2018

EUGÉNIO DE ANDRADE - A GÉNESE DO POEMA


Eugénio de Andrade, por Bottelho.
Imagem daqui.




"Pego no papel e começo a escrever, abandonando-me perfeitamente ao ritmo das palavras, às próprias palavras. E quando paro volto a reler tudo o que escrevi, e nessa altura há um verso que salta. Pego noutra folha de papel e começo, abro com esse verso que apareceu. Então aí as palavras começam a chamar-se umas às outras, o poema começa realmente a organizar-se e é uma luta, quase corpo a corpo, que dura às vezes horas, a tarde inteira. E se tiver sorte chego ao fim da tarde com um poema, ou assim me parece. Levo isso à noite para a cabeceira e na manhã seguinte, em regra, também de uma maneira geral, inutilizo tudo o que escrevi. Mas qualquer coisa fica na memória porque depois recomeço a escrever, com algumas alterações já, e vou assim perseguindo o poema, às vezes durante uma semana. E persigo até o poema de edição para edição."

Eugénio de Andrade

Textos e Pretextos - Eugénio de Andrade, Centro de Estudos Comparatistas e Fundação Eugénio de Andrade, número cinco, inverno de 2004, p. 118.




quarta-feira, 11 de abril de 2018

POESIA DE LUÍSA CORDEIRO (28)

"Eu queria..."

Queria ser uma pomba
a comer na tua mão,
poente no teu corpo,
arrepio na tua pele,
o gosto na tua boca,
a luz no teu coração,
o farol na enseada
que ilumina a tua noite
e as pegadas que deixas
na areia fina e doce
molhada de beijos meus,
balada do meu amor
em tons da minha paixão.

Luísa Cordeiro 

terça-feira, 27 de março de 2018

POESIA DE LUÍSA CORDEIRO (27)


"Desassossego"

Turbilhão...

folha ao vento,

descomandado pensamento,

Alma agitada,

descompassado coração.

Sobre o rochedo,

olho as vagas

que teimam em me levar,

olhar vago,

sem deixar de as fitar,

o meu espírito

une-se ao mar

em turbilhão.

E neste desassossego,

meu coração por ti cego, 

todo ele é saudade,

todo ele é amor,

amor...

em turbilhão.

Descrição: https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif
Luísa Cordeiro

sexta-feira, 23 de março de 2018

RÓMULO DE CARVALHO E A ARTE DE EDUCAR


Imagem daqui.




«É a aprendizagem a marca da civilização, e é do despertar das consciências e do transmitir de saberes que depende a vivência da cultura. Com que zelo, com que amor sincero, como confessava seu filho Frederico, Rómulo se encarregava de ensinar (a começar na própria casa), nunca como monólogo, mas como autêntico diálogo. Não se tratava, porém, de descer até ao jovem aprendente, mas sim de o elevar ao conhecimento maduro, com a preocupação da clareza e do gradualismo. Para o mestre, haveria sempre que saber dar os passos necessários para chegar ao conhecimento e à compreensão. "Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes".

Para Rómulo de Carvalho (RC), o experimentado docente, "o professor tem de ter qualidades muito humanas e saber expressar-se, manifestar as suas ideias. Os alunos agradam-se disso. Tal como deliram com as experiências". Mas na arte de educar tem de haver uma dramaturgia. É como se estivéssemos num teatro - com encenação, marcação, representação e clímax. O amadorismo ou o improviso não cabiam nos procedimentos de RC. Tudo tinha de estar muito bem preparado. Os alunos são julgadores severíssimos. Apenas se deixam impressionar se tudo for brilhante e irrepreensível. O metodólogo sabia-o, melhor que ninguém, e explicava isso com muito cuidado e rigor aos seus formandos. (...)

Num texto intitulado "Presença de Descartes" afirmava: "A finalidade dos estudos deve consistir em orientar o espírito para a construção de juízos sólidos e verdadeiros sobre todos os objetos que se lhe apresentem". E isto obriga à liberdade criadora - de alguém que foi, em complementaridade perfeita (o próprio diria, no seu sentido autocrítico, quase perfeita), o pedagogo, o praticante da cultura científica, o divulgador e também, com existência própria, o poeta...»

Guilherme d'Oliveira Martins, "Rómulo de Carvalho", in Jornal de Letras, 14 a 27 de março de 2018, p. 28.




quarta-feira, 21 de março de 2018

NO DIA MUNDIAL DA POESIA


Bosh, O Jardim das Delícias (c. 1500-1505) - painel esquerdo.




Vt Pictura Poesis

Como a pintura é a poesia: há aquela que, se perto estiveres,
mais te seduz; e há a que te encanta, se algo te afastares;
esta gosta de penumbra; quer ser vista à luz aquela,
que não teme o olhar arguto de quem a julgar;
uma agradou uma vez; a outra, dez vezes revista, agradará.

Horácio, Arte Poética, 362-365, in Romana - Antologia da Cultura Latina, organização e tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa, Babel, 2010, p. 209.



quinta-feira, 8 de março de 2018

NO DIA DA MULHER


Rembrandt Harmensz van Rijn (1606-1669), Palas Atena (1657).
Imagem daqui.




Pelos extremos raros que mostrou
em saber Palas, Vénus em fermosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
África, Europa e Ásia as adorou.

Aquele saber grande que ajuntou
esprito e corpo em liga generosa,
esta mundana máquina lustrosa,
de só quatro Elementos fabricou.

Mas mor milagre fez a natureza
em vós, Senhoras, pondo em cada ũa
o que por todas quatro repartiu.

A vós seu resplandor deu Sol e Lũa,
a vós com viva luz, graça e pureza,
Ar, Fogo, Terra e Água vos serviu.

Luís de Camões, Rimas, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1953, p. 170.



terça-feira, 6 de março de 2018

DO NOME XIV





nomes a menos

Nome mais nome igual a nome,
uns nomes menos, uns nomes mais.
Menos é mais ou menos,
nem todos os nomes são iguais.
Uma coisa é a coisa, par ou ímpar,
outra coisa é o nome, par e par,
retrato da coisa quando límpida,
coisa que as coisas deixam ao passar.
Nome de bicho, nome de mês, nome de estrela,
nome dos meus amores, nomes animais,
a soma de todos os nomes,
nunca vai dar uma coisa, nunca mais.
Cidades passam. Só os nomes vão ficar.
Que coisa dói dentro do nome
que não tem nome que conte
nem coisa pra se contar?

Paulo Leminski, Toda Poesia, São Paulo, Companhia das Letras, 2013, p. 123.



quinta-feira, 1 de março de 2018

TEMPO PASSADO


Imagem daqui.



Não chores...
Pensa no que fomos,
Ambos pecadores
sem remorsos; ficaram as dores.
Esconder emoções é esconder o amor,
Esquecer o passado é esquecer tudo...
Ao ver-te, olho o mundo,
Mas o meu mundo é incolor.
E a atenção foi necessária,
Neste amor moderado...
Tu foste tudo,
Mas «foste» é passado.

Miguel Jacinto, Aluno do 12º LH3 desta Escola.



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

EXERCÍCIO ESPIRITUAL


Mário Cesariny (1923-2006), Figuras de Sopro (1947).
Imagem daqui.



Exercício Espiritual

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Mário Cesariny, Poesia, edição, prefácio e notas de Perfecto E. Cuadrado, Porto, Assírio & Alvim, 2017, p.145.



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

DIA DOS NAMORADOS

   
William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), Jeune bergère (1868).



Si yo fuera un poeta
galante, cantaría
a vuestros ojos un cantar tan puro
como en el mármol blanco el agua limpia.
        Y en una estrofa de agua
todo el cantar sería:
        "Ya sé que no responden a mis ojos,
que ven y no preguntan cuando miran,
los vuestros claros, vuestros ojos tienen
la buena luz tranquila,
la buena luz del mundo en flor, que he visto
desde los brazos de mi madre un día. "

Antonio Machado, Poesías Completas, Soledades/ Galerías/ Campos de Castilla..., Edición Manuel Alvar, Madrid, Editorial Espasa, 1997, p. 136.



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

POESIA DE LUÍSA CORDEIRO (26)


"O meu espírito"


O meu espírito,
é livre
como os nómadas,
viaja
como os ciganos,
sente
o salgado do mar
nas viagens
de todos os marinheiros,
e,
não se prende
às vis certezas
da Terra.

O meu espírito,
fala a linguagem
das andorinhas,
das gaivotas 
e dos golfinhos.

O meu espírito,
junta-se
ao vento que passa
e namora as estrelas
depois de amar
o fogo
de cada poente.

O meu espírito,
sou eu,
e sei,
que depois daqui,
segue
em direção ao céu.


Luísa Cordeiro


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

DA CONCISÃO XCV

Imagem daqui.



quem?
mim-
guém?

Arnaldo Antunes, Antologia, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2006, p. 13.



sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

POESIA DE LUÍSA CORDEIRO (25)


"O corcel e o cavaleiro enamorado"


O corcel
do cavaleiro enamorado,
é branco como a neve,
doce e leve,
que vai caindo
de mansinho
sobre o rosto
amorenado
do cavaleiro enamorado
que percorre
o seu caminho,
sempre sozinho,
no seu corcel
branco nacarado.

E,
pouco a pouco, 
a neve,
branca e leve,
vai deixando aparecer
nas roseiras
que ladeiam
o caminho,
botões
e rosas
já abertas, 
tão formosas,
tão belas
e perfumadas
que o cavaleiro enamorado
desce do seu corcel
tão branco e leve
como a neve
e colhe 
em seu peito
o cavaleiro enamorado,
de rosas,
tão belas,
tão maravilhosas,
uma braçada,
e,
subindo em seu corcel
tão branco e leve
como a neve,
segue,
em direção à sua amada.


Luísa Cordeiro

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

DO LADO DE CÁ


Alice no País das Maravilhas. Daqui.



Do lado de cá
está o que vês.
É o que há.

Margarida Rios, Aroma, Coleção Garça Branca, Setúbal, Estuário, 1991, p. 9.



sábado, 6 de janeiro de 2018