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Escola Secundária José Saramago - Mafra

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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

FERNÃO DE MAGALHÃES


Fernão de Magalhães (Viena, Kunsthistorisches Museum).




Como era Fernão de Magalhães

Ao querermos conhecer Fernão de Magalhães, é natural que tenhamos curiosidade em saber como era a sua fisionomia, de forma a podermos acompanhar a sua história com um rosto. Tal curiosidade já foi patenteada no século XVI pelo humanista italiano Paolo Giovio, que adquiriu um retrato do navegador. Em 1535 já integrava a sua vasta coleção de retratos de pessoas famosas reunida num museu que montou em Como, na Itália. Se esse retrato não tiver sido apenas imaginado, poderá admitir-se que foi traçado de memória, poucos anos depois da sua morte, em 1521, por alguém que conheceu Fernão de Magalhães.

O retrato acima mencionado perdeu-se, mas podemos conhecê-lo indiretamente e assim visionarmos com verosimilhança como teria sido Fernão de Magalhães, pois ele serviu de matriz a duas pinturas que o copiaram. Uma delas foi feita por volta de 1552 e a outra cerca de 1579.

(...)

A única descrição de Fernão de Magalhães feita por um seu contemporâneo é aquela que foi traçada num tão breve como expressivo testemunho de Frei Bartolomeu de Las Casas (1484-1566) registado alguns anos depois de se ter encontrado com o navegador em Valhadolide, 23 de fevereiro de 1518:

Este Fernão de Magalhães devia ser homem de ânimo e valoroso em seus pensamentos e para empreender coisas grandes, ainda que a pessoa não mostrasse muita autoridade, porque era pequeno de corpo e em si não mostrava ser para muito, ainda que tão pouco desse a entender ser falto de prudência e que alguém o pudesse facilmente subordinar, porque parecia ser recatado e de coragem.

Há ainda a assinalar um aspeto físico de Fernão de Magalhães referido por João de Barros ao indicar que ele coxeava um pouco por ter sido ferido por uma lança numa perna, no decorrer de  uma luta travada em 1514 em Azamor, Marrocos.

Quanto ao perfil psicológico de Fernão de Magalhães, podemos traçá-lo de uma forma simples e abrangente através de um conjunto de palavras que se nos afiguram ser adequadas para o caracterizar: ambicioso, astuto, audaz, autoritário, combativo, confiante em si mesmo, corajoso, curioso em conhecer novas terras e novas gentes, determinado, hábil, irritadiço, justiceiro, lutador, otimista, persistente, perspicaz, resiliente, tenaz, valente, vingativo e voluntarista.

O conhecimento de quem era Fernão de Magalhães passa ainda pelo alinhamento de outras informações como as de que era especialista em navegações, náutica, astronomia, geografia, cartografia, climas, condições atmosféricas e matemática; solidário com amigos e subordinados; duro com rivais e opositores; de opiniões firmes e frontais; sem medo; com espírito crítico; intransigente na defesa das suas opiniões, mas por vezes conciliador; interessado por economia e empenhado na obtenção de lucros com empréstimos e negócios de especiarias; resistente à fome, à sede e à doença; sedento de honrarias e muito cioso de pontos de honra; muito religioso e proselitista da fé católica; respeitador dos nativos que encontrou, a não ser em situações extremas; fiel aos senhores que nele confiavam; calculista, mas também por vezes ingénuo e com excesso de confiança; vítima de intrigas por não ter lóbis favoráveis aos seus interesses em Portugal, embora os tivesse em Espanha, mesmo que também aí tivesse de enfrentar inimigos e intrigas.

Quanto à posição social de Fernão de Magalhães, sabemos que foi um cavaleiro fidalgo da casa real portuguesa cujas origens nos limitamos aqui a referir estarem situadas no Norte de Portugal, tendo ele próprio expresso oficialmente a informação de ser «vizinho da cidade do Porto». (...)

Por falta de referências documentais não sabemos o ano do nascimento de Fernão de Magalhães, mas é possível sugerir a hipótese de que tal poderia ter acontecido por volta de 1480.

Agenda Fernão de Magalhães - nos 500 Anos do Início da Grande Viagem 2019, Produção de conteúdos: José Manuel Garcia, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2018.



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

quarta-feira, 18 de abril de 2018

CONHECER ABRIL






O Museu do Aljube - Resistência e Liberdade, para comemorar os 44 anos do 25 de Abril e festejar o 3º aniversário do Museu, organizou um programa especial e variado que inclui conferências, visitas guiadas e teatro.

Imagem e todas as informações disponíveis no sítio EGEAC - Cultura em Lisboa.



quinta-feira, 12 de abril de 2018

A HESPÉRIA


Edward Burne-Jones (1833-1898), Garden of the Hesperides (1869-1873).
Imagem daqui.




Homero, no rasto do Amenti dos Egípcios e do Jardim das Hespérides de Hesíodo, sublinha a felicidade dos habitantes da Hespéria, localizando nela o Campo Elíseo ou morada dos Bem-Aventurados, o Paraíso de Saturno, símbolo de uma Idade de Ouro perdida, a última das terras (finisterrae) antes das Ilhas Afortunadas.

Tais argumentos (a abundância de metais constituía um outro) explicam por que desde um passado remotíssimo, a partir do Mediterrâneo e oriente médio, afluíram à Península Ibérica sucessivas ondas de vida, povos heterogéneos e das mais variadas raças e índoles, almas de eleição atraídas pelos lugares sagrados e centros mistéricos, herdeiros da civilização semi-divina de Mu, a Atlântida imortalizada por Platão no Timeu e no Crítias.

São incontáveis os testemunhos aludindo a esse território ocidental, sejam os legados pelos sobreviventes do dilúvio em que terá perecido, sejam aqueles atestando a sacralidade que as gerações vindouras conferiram aos vestígios remanescentes e o desvelo que, pelos séculos fora, puseram na sua preservação. Plutarco, na biografia de Sertório, não deixa mesmo de relacionar com tal tradição a vinda para a Hispânia daquele romano, cuja intenção era terminar os seus dias sem guerras nem tiranias, sob a graça vespertina de Vénus, a Grande Deusa guardiã da Ilha dos Amores situada neste extremo do continente.(...)

O Eterno Feminino no Aro de Mafra, Roteiro Monográfico, coordenação de Manuel Gandra, Mafra, Câmara Municipal de Mafra, 1994, p. 5.



quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A LÍNGUA IMPERIAL


Imagem daqui.



O Problema das Línguas

Se ter uma grande literatura fosse, por si só, suficiente para impor, não a mera sobrevivência, mas a vasta e duradoura sobrevivência de uma língua, o Grego seria hoje a segunda língua da civilização. Mas nem sequer o Latim, que também chegou a ser a segunda língua da civilização, conseguiu manter a sua supremacia. Para assegurar a sua permanência no futuro, a língua tem de ter algo mais do que uma grande literatura: ser dona de uma grande literatura é uma vantagem positiva, mas não efectiva, pois salvará a língua da morte mas não garantirá a sua promoção na vida.

A primeira condição para uma ampla permanência de uma língua no futuro é a sua difusão natural, o que depende do simples factor físico do número de pessoas que a fala naturalmente. A segunda condição é a facilidade com que poderá ser aprendida; se o Grego fosse fácil de aprender, todos nós teríamos, hoje, o Grego como segunda língua. A terceira condição é que a língua terá de ser o mais flexível possível, de modo a poder responder, na íntegra, a todas as formas de expressão possíveis, e de consequentemente ser capaz de espelhar com fidelidade, através da tradução, a expressão de outras línguas e assim dispensar, do ponto de vista literário, a sua aprendizagem.

Ora, falando não só do presente mas também do futuro imediato, na medida em que este possa ser considerado como factor de desenvolvimento das condições embrionárias do nosso tempo, só há três línguas com um futuro popular - o Inglês (que já tem uma larga difusão), o Espanhol e o Português. São línguas faladas na América, e como Europa significa civilização europeia, a Europa tem-se radicado cada vez mais no continente ocidental. Assim línguas como o Francês, o Alemão e o Italiano só poderão ser europeias: não têm poder imperial. Enquanto a Europa foi o mundo, estas dominaram, e triunfaram mesmo sobre as outras três, pois o Inglês era insular e o Espanhol e o Português encontravam-se num dos seus extremos. Mas quando o mundo passou a ser o globo terrestre este cenário alterou-se.

Será portanto numa destas três línguas que o futuro do futuro assentará.


Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Livros Horizonte, 1993, p. 237.




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

ENCONTRO E PERMANÊNCIA


Convento da Arrábida e Mata de Carvalhos.
Imagem daqui.




«REFLECTIR A CULTURA PORTUGUESA

Uma cultura minoritária, como é a cultura portuguesa, não se satisfaz na qualificação de regionalista. Ela deriva duma cumplicidade de factos que, somados, fazem uma história comum. Temos a nosso favor uma nação organizada em Estado, e este determinado por uma cultura colectiva unilinguística. A identidade é-nos dada pelo conceito de pátria e prolongada pelo privilégio de atributos exteriores, como o facto de se ser europeu, cristão e livre. A cultura é um estilo de vida. Um povo que possui uma cultura dá exemplo duma unidade de estilo que é mesura, entendimento e reflexão sobre todas as coisas. E não exactamente uma prova de memória quanto às excentricidades mentais dos indivíduos chamados "artistas". Se eu tivesse que instaurar uma realidade cultural, faria, num lugar como a Arrábida, um encontro de cultura que atraísse gente de todos os lugares do mundo; e onde se assistisse a debates, teatro, certames e discussões filosóficas, com o concurso dos melhores pensadores e autores, tanto portugueses como estrangeiros. Portugal não precisa de mudar. Precisa de se encontrar. Assim como Sagres teve uma escola náutica em tempo oportuno, deveria haver hoje uma escola de pensamento que reflectisse uma cultura portuguesa, como unidade de estilo e sensibilidade a novas perspectivas cívicas e humanas. (...)»

Agustina Bessa-Luís, Caderno de Significados, selecção, organização e fixação de texto de Alberto Luís e Lourença Baldaque, Lisboa, Guimarães Editores, 2013, p. 90.



terça-feira, 5 de abril de 2016

"SEM ALARDES, SEM DESFALECIMENTOS"


Adolfo Rocha, seminarista, Miguel Torga, fotobiografia.
Imagem daqui.



"(...) Portugal é uma presença inconfundível na crónica do mundo. Na anatomia da Europa, figura essa espécie de nervo pequeno-simpático, minúsculo factor de mutações transcendentes. Procura-se, e encontra-se com dificuldade, tal a sua insignificância. Minimiza-se-lhe o valor, e passa-se adiante. Desdenha-se. Esquece-se. E ele continua lá, imprescindível e atento, a viver a sua vida própria e a intervir na fisiologia do corpo universal a que pertence. Mas essa intervenção raramente se realiza através dos notáveis portugueses de que a história universal, de resto, mal regista os nomes. É feita por intermédio dum povo inteiro, estóico e despretensioso, colmeia que ninguém quer ver no seu afã ordeiro e sagrado. Povo que é dos mais pobres da terra, e a quem a terra deve parte do seu tamanho e muita da sua significação."

Miguel Torga, "Lado Português de um Diálogo Luso-Brasileiro - Portugal", in Ensaios e Discursos, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001, p. 193.


quinta-feira, 10 de março de 2016

NÓS E ELES - PORTUGAL SEGUNDO OS EUROPEUS NOS SÉCULOS XV E XVI


Imagem, texto de apresentação e informações adicionais, incluindo o programa, aqui.



"Resta referir universalmente a qualidade e a natureza dos portugueses. Estes, então, são homens que muito se estimam e chegam a tal que pensam que no mundo não haja outros iguais, têm muita afetação, gravidade e altivez no andar, no estar, no pensar, no negociar, em todas as suas ações superam de longe a afetação castelhana." Gianbattista Confalonieri, Della Grandezza e Magnificenza della Città di Lisbona.


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

XADREZ E DIPLOMACIA


Imagem daqui.




"Ibne Amar encontrava-se numa situação análoga à de Jáfar ibne Iáhia (Barmeki) junto de (Hárune) Arraxide. Almutâmide acreditava nele nos assuntos mais importantes e julgava-o digno dos postos mais elevados. Por outro lado, Ibne Amar resolvia com acerto todos os assuntos que lhe earm encomendados e marcava-os com o seu selo como o ferro rubro ao fogo. Era bem conhecido em toda a Espanha. Até o rei cristão Afonso (VI), quando se pronunciava diante dele o nome de Ibne Amar, afirmava que era o homem mais excelente da Península. De feito, conseguiu impedir que tal príncipe conquistasse as cidades de Sevilha e Córdova e os seus territórios.

Desejoso de apoderar-se dos estados de Almutâmide, Afonso avançava à cabeça de um importante exército. O coração dos muçulmanos estava cheio de terror porque se sabiam demasiado fracos para poderem resistir. Então Ibne Amar recorreu à astúcia e empregou o estratagema mais engenhoso.

Mandou fazer um jogo de xadrez, magnífico tanto do ponto de vista da arte como da finura do seu acabamento, de tal modo que nenhum rei possuía outro igual. As peças eram de ébano, de aloés, e de sândalo com incrustações de ouro. E o tabuleiro era também uma maravilha de precisão. Provido deste xadrez e na qualidade de enviado de Almutâmide, apresentou-se a Afonso que encontrou à entrada do território muçulmano. O rei cristão recebeu-o da maneira mais honrosa e ordenou aos cortesãos que frequentassem a tenda do estrangeiro e velassem por que nada lhe faltasse. Um dia Ibne Amar ensinou xadrez a um dos cortesãos de Afonso, o qual falou dele ao seu senhor, grande jogador de xadrez.

Quando o príncipe recebeu a visita de Ibne Amar perguntou-lhe se era forte em tal jogo ao que o seu interlocutor respondeu afirmativamente. E era realmente um xadrezista de primeira qualidade.
        - Disseram-me - replicou o príncipe - que tens um xadrez magnífico.
        - É verdade.
        - Como poderei vê-lo?
        - Vou trazer-to - mandou responder Ibne Amar pelo seu intérprete - mas na condição de jogarmos ambos uma partida. Se ganhares, o jogo será teu; se perderes, poderei pedir-te o que quiser.
        - Trá-lo para eu o ver - disse Afonso.
O vizir mandou-o buscar e apresentou-o ao cristão que exclamou persignando-se:
        - Nunca imaginei que um jogo de xadrez pudesse estar tão bem feito. - E acrescentou voltando-se para Ibne Amar:
        - O que é que dizias?
O muçulmano repetiu as condições que propusera.
        - Não - disse Afonso -, não posso jogar. Não sei o que queres pedir-me, talvez uma coisa que não te possa dar.
        - Não jogarei noutras condições - respondeu Ibne Amr. E mandou embrulhar de novo o xadrez e levá-lo para a sua tenda.

O vizir revelou, porém, a alguns cortesãos cristãos, sob promessa de segredo, o que exigiria a Afonso no caso de ganhar a partida. E obteve a sua ajuda mediante somas importantes.

Como a recordação do xadrez obsessionava o príncipe, consultou os seus favoritos sobre as condições que Ibne Amar queria impor-lhe.
        - É coisa pouca - responderam. - Se ganhares, terás o xadrez mais formoso que um rei pode possuir. Se perderes, que pode pedir um adversário teu que um rei como tu não possa cumprir? E se exigir uma coisa impossível, não estamos nós prontos a pormo-nos do teu lado para o fazer entrar na razão?
Insistiram com tanto êxito que Afonso mandou vir Ibne Amar com o seu xadrez e disse-lhe que aceitava as suas condições.

O vizir pediu então que se chamassem alguns nobres que designou como testemunhas. Afonso mandou-os vir e começou a partida. Mas, dissemo-lo já, Ibne Amar era um tal jogador que ninguém lhe podia ganhar no Andaluz. E ante os olhos dos cortesãos bateu completamente o seu adversário. Quando o resultado da partida não ofereceu dúvidas, Ibne Amar disse:
        - Ganhei o que tínhamos combinado?
        - Sem dúvida. O que pedes?
        - Que saias desta terra e entres na tua.
Afonso empalideceu, sentiu-se preso de uma grande agitação e entre outras coisas disse aos seus favoritos:
        - Aqui está o que eu temia. E vós a tranquilizar-me...
Por um instante perguntou-se a si mesmo se cumpriria a sua palavra e não continuaria a campanha, mas as pessoas do seu séquito fizeram-lhe ver a vergonha que seria o maior rei cristão da época atraiçoar a sua promessa. E insistiram com tanto acerto que acabou por se acalmar. Exigiu, no entanto, que naquele ano pagassem o dobro do tributo ordinário. Ibne Amar aceitou e mandou entregar a soma pedida a fim de conseguir a retirada imediata de Afonso. Graças à prudente e hábil conduta do vizir, Alá soube colocar assim os muçulmanos ao abrigo da violência dos cristãos. E Ibne Amar voltou a Sevilha para junto do seu senhor a quem achou encantado por tão feliz sucesso."

António Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, vol. 2: História, Lisboa, Editorial Caminho, 1989, pp. 225-226.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

SENDO NÓS PORTUGUESES, CONVÉM SABER O QUE É QUE SOMOS


Imagem daqui.


Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.
a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.
b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.
Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver.


Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1966, p. 94.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

DA CONCISÃO LX


Azulejos de fachadas do Porto.
Imagem daqui.



"Uma lista dos defeitos dos portugueses devia levar o político inteligente a elaborar projecto de sociedade em que eles passassem apenas a ser características, ou quem sabe se qualidades - Cortina 1."

Agostinho da Silva - Uma Antologia, organização e apresentação Paulo Borges, Lisboa, Âncora Editora, 2006, p. 228.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

DA SAUDADE XV

City is Landing, Jacek Yerka. Daqui.


"O messianismo português, que é diverso dos anteriores milenarismos, como os de Joaquim de Flora, ou Fiore, dado que assume um modelo de império, não redutível ao fim da história, mas antes como um fim que vem depois do fim, para utilizarmos as palavras de Dominique Roux. O messianismo bandarrista serve de semente para o mito do Quinto Império e alimenta o chamado sebastianismo. Com efeito, entre 1530 e 1540, surgem umas Trovas de Gonçalo Anes, de alcunha o Bandarra, sapateiro de Trancoso, que falam Desse bom Rei Encoberto que Tirará toda a Erronia/ Fará Paz em todo o Mundo. As Trovas, que serão julgadas como judaizantes pela Inquisição, servirão, contudo, de elemento fundamental para a estratégia de resistência dos que se opunham à administração filipina e tratavam de lançar achas para a fogueira do messianismo sebastianista, procurando transformar aquele que fora O Desejado num Encoberto. É, a partir de então, que se estrutura o mito do Quinto Império como uma religião política, como a integração simbólica de um povo, segundo as palavras de Jürgen Moltmann. É o que acontece a todas as nações que se auto-interpretam como nações metafísicas, em contraste com as chamadas nações empírico-etnográficas. Todas as nações que se assumem de um ponto de vista transcendental, representando diversos espaços histórico-geográficos de uma só e mesma nação. Daí a sua atracção e repulsão recíprocas, como salienta o recente filósofo russo Nikolai Chulguine, referindo-se... à Rússia. A ascensão e queda de Portugal nos séculos XV e XVI é fulminante. Do reino antigo, rapidamente se passa ao novo reino, sonhando-se com o Império, ao mesmo tempo que o rei, nos fins de 1576, começos de 1577, deixa de ser Alteza e se assume como Majestade, abandonando a coroa aberta do reino e alcandorando-se à coroa fechada e circular do soberanismo monárquico. Pouco tempo depois, com a derrota de Alcácer-Quibir em 1578, passa-se abruptamente, da suprema esperança, aos amargos da derrota. Os mitos da augmentação aparecem, assim, incidivelmente ligados aos mitos da decadência. Como observa Garcia de Resende: Era Portugal o cume/ Agora por mau costume/ Se perdeu em poucos anos. No cume, na procura do Império, a degenerescência dos costumes, a corrupção do corpo político e a falta de autenticidade do poder, que geram a necessidade de se plantar novo reyno, novos homens, novas Leys, novos costumes, como expressa D. Álvaro de Castro, em carta ao Cardeal D. Henrique. Um novo reino que, de certa maneira, procura retomar os antigos hábitos. Como se expressa o povo em Cortes, há uma enorme diferença entre o estado a que somos vindos e quão diferentes nas vidas e nos costumes daqueles Portugueses antigos, usando de tamanhos excessos nas jóias, nos comeres, nos adereços de nossas casas e nos exercícios de nossas vidas. Mas é deste choque que surge o típico da consciência nacional portuguesa, fundada na procura da regeneração e da refundação, onde, muito messianicamente, a memória do sofrimento constitui o principal alento para o desejo de libertação. (...) Sebastianistas continuam a ser aqueles que consideram que Portugal não é apenas aquele Portugal que permaneceu no Portugal dos séculos XV e XVI. Que há outros novos portugais além do Portugal Velho. Novos portugais que os genes e os sonhos dos sucessivos portugueses semeiam pelo mundo. Que há outros portugais sem o nome de Portugal e que constituem aquilo que Gilberto Freyre (1900-1987) qualificou como o mundo que o português criou. Neste sentido, Pessoa disse que falta cumprir-se Portugal, que a nossa missão é o impossível do conquistemos a distância, do mar ou outra, mas que seja nossa. Têm, pois, razão Alexandre Herculano, António Sardinha (1888-1925), António Sérgio (1883-1969) ou Agostinho da Silva (1906-1994) quando apontam certas facetas do renascimento como a primeira das causas da nossa decadência. Liberdadeiros, tradicionalistas, racionalistas ou esotéricos, uns simplesmente liberalistas, outros monárquicos, outros socialistas, outros republicanos, todos reconhecem que a decadência foi deixarmos de cumprir a liberdade portuguesa. Mas o Renascimento é um desses deuses com duas faces. Se uma aponta a decadência, a outra escreve-se com a esperança camoniana. 1580 constitui, de facto, um marco assinalado pelas lendárias palavras de Camões: morro, mas morro com a pátria. Não que a pátria tenha perecido, dado que o sofrimento, provocado pela consciência da ocupação, gerou o desejo de libertação. Ela volver-se-á em algo que se perde entre as brumas da memória, algo que nos é segredado pela voz dos egrégios avós, tornando-se saudade, ou messianismo, ou tentando transformar-se num imortal que tem de ressurgir, obrigando os vindouros ao esforço de levantar hoje de novo o esplendor de Portugal, conforme as palavras daquele que será o chamado hino nacional. Todo o patriotismo português será saudade e memória a partir de então, exigindo um esforço interior de refundação ou regeneração. (...)"

José Adelino Maltez, Abecedário Simbiótico - Um digesto político contemporâneo com exemplos sagrados e profanos, Entrada "Quinto Império", Lisboa, Campo da Comunicação, 2011, pp. 433-435.



quarta-feira, 16 de julho de 2014

A ALMA LUSÍADA

Imagem daqui.



“A primeira grande tónica da nossa psicologia colectiva parece ser o paradoxal. Centra-se em torno do binómio passividade-acção.

Por um lado, somos vistos como pessimistas, contemplativos, falhos de iniciativa e tendentes ao servilismo; por outro, marcámos a História como povo determinado, criativo, aventureiro e idealista. Se o nosso pessimismo e demais sentimentos depressivos são tão reais, não parecem, contudo, ter-nos condicionado como povo, nem impedido de realizarmos o nosso destino concreto. Antes pelo contrário. Quase sempre as grandes tragédias históricas se converteram em símbolos positivos dinamizadores do futuro. Do confinamento físico a que Castela nos sujeitou na Idade Média, nasceu a aventura marítima; do desastre de Alcácer Quibir, nasceu o mito sebástico; das grandes comoções colectivas têm nascido, ao longo dos séculos, as grandes solidariedades nacionais. (...)

Teixeira de Pascoaes via demarcada duas linhas psíquicas na Península Ibérica: a sentimental e a quixotesca: «O lar sentimental da Ibéria - escrevia - é a Lusitânia; como Castela é o seu palco teatral ou quixotesco». Mas as duas linhas, na alma lusíada, não se excluem: complementam-se. Somos, assim, uma espécie de síntese de alma; mas uma síntese que, sendo paradoxal, é, contudo, assimilada numa predominância sentimental. Somos - continua Pascoaes - «lembrança e esperança, carne do Pança e osso do Quixote, fugitivo na Serra do Marão. O imortal cavaleiro, isolado de Castela, de dramático, torna-se elegíaco. E temos a alma dupla da Ibéria, ou uma só com duas faces: a quixotesca e a saudosa».

Outra característica da nossa personalidade lusíada é o pendor aparentemente antifilosófico. O nosso pensar arranca da experiência, do concreto. Somos intuitivos: pensamos sentindo. O nosso conhecimento é conhecimento «de experiência feito», originado, como diria o rei-filósofo D. Duarte, mais do sentir próprio do que de teorizações abstractas: «nom compre leer per outros livros, (...), mes cada huũ (…), consiire seu coraçom no que já per feitos desvairados tem sentido».

É assim que também o genuíno pensamento português, a sua «filosofia» original, deve ser procurado não nas sistematizações mentais, mas, antes, nos seus poetas. «Uma verdade, quando aparece no mundo, - diz Pascoaes – é o poeta a primeira pessoa que visita…»; como que a confirmar aquela sua outra palavra: «Aonde não chega a razão, chega a inspiração». (…)”

Alfredo Antunes, Saudade e Profetismo em Fernando Pessoa – Elementos para uma Antropologia Filosófica, Braga, Publicações da Faculdade de Filosofia, 1983, pp.69-70.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

PORTUGAL E A EUROPA EM CARTOONS - exposição

Imagem e todas as informações aqui.


A exposição será inaugurada no dia 27 de junho, pelas 10h30, no piso 1 do edifício I&D da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e estará patente até ao final do ano.



sexta-feira, 25 de abril de 2014

A REVOLUÇÃO NA PENA DOS POETAS

Poema manuscrito de Sophia de Mello Breyner Andresen, dois dias depois da Revolução...
Imagem daqui.

terça-feira, 11 de março de 2014

DA CONCISÃO XXXII



 Imagem daqui.


"O génio lusíada é mais emotivo que intelectual. Afirma e não discute. Quando uma ideia se comove, despreza a dialéctica; e é sendo e não raciocinando que ela prova a sua verdade."

Teixeira de Pascoaes, Arte de Ser Português, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, p.76.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

LUXO PÚBLICO


"Dia 5 de fevereiro, 07.26. Ligo a rádio na Antena 1. (...) Já escutei rádio em quatro continentes. Mas não há nada comparável com estes 120 minutos. E há mais estações, e mais programas. Isto não é serviço público. É um luxo público que transforma Portugal em superpotência mundial radiofónica. Uma esperança e um exemplo para o que falta fazer. Em tudo o resto."

Excerto do artigo de opinião de Viriato Soromenho-Marques, no Diário de Notícias de hoje