Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

Mostrar mensagens com a etiqueta Sugestão de Leitura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sugestão de Leitura. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 19 de abril de 2017

SUGESTÃO DE LEITURA (39)

 


Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais

De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
e sombra de uma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga, 1937


TORGA, Miguel - Antologia Poética. Mem Martins: Círculo de Leitores, 2001. 485 p. ISBN 972-42-2431



segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

SUGESTÃO DE LEITURA (38)



REGRESSO

Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância!

Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.

Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.

                                                        Miguel Torga (1951)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

SUGESTÃO DE LEITURA (37)


MAR SONORO
       
         Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
         A tua beleza aumenta quando estamos sós
         É tão fundo intimamente a tua voz  
         Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
         Que momentos há em que eu suponho
         Seres um milagre criado só para mim.          

Sophia de Mello Breyner Andresen


ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Obra Poética: Dia do Mar. Alfragide: Editorial Caminho. 2009. 6.ª ed. 101p. ISBN 978-972-21-1586-5 

O livro está disponível na BE.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

SUGESTÃO DE LEITURA (36)

O Provincianismo Português

Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir numa síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. (...)
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.
A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia. (...)
                                                                                                                         Fernando Pessoa (1928)
  
ZENITH, Richard - Prosa Publicada em Vida. Mem Martins: Círculo de Leitores, 2006. 479 p. ISBN 978-972-42-3897-5 
 
O livro está disponível na BE.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

DIA DOS NAMORADOS 2014 (III)

"Amor", Carlotta Castelnovi


                                                                               
Piropo


     A vida de qualquer rapaz deve ser ler, escrever e correr atrás das raparigas. Esta última parte é muito importante. Hoje em dia, porém, os rapazes de Portugal já não correm atrás das raparigas - andam com elas. A diferença entre «correr atrás» e «andar com» é, sobretudo, uma diferença de energia. Correr é galopar, esforçar, persistir, e é alegria, entusiasmo, vitalidade. Andar é arrastar, passo de caracol, pachorrice, sonolência. O amor não pode ser somente uma partida de golfe, em que dois jarretas caminham devagar em torno de alguns buraquinhos. Tem de ser, pelo menos, os 400 metros barreiras.
   (...)
    Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem laconicamente, com o ar indiferente que marca o «cool» da contempo­raneidade «Vamos aí?». Ou simplesmente «Bora aí?». Nos últimos tempos, tanto em Lisboa como na linha de Cascais, esta economia de expressão atingiu até o cúmulo de se cingir a um breve e boçal «Bute?». «Bute» signi­fica qualquer coisa como «Acho-te muito bonita e desejável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete de framboesas». Mas, como os rapa­zes só dizem «Bute:», são as pobres raparigas que têm de fazer o esforço todo de interpretação e de enriqueci­mento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas «Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?». E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de considerações pouco líricas - foi um «Bute» terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixo­nado ou desapaixonado?
   Isto não pode ser, até porque há uma tradição a manter. Imagina-se alguma rapariga a dizer «Ai, Lena... quando ele disse 'Bute' subiu-me o coração à boca!». A verdade é que o coração é um órgão bastante pregui­çoso e só se dá ao trabalho de subir à boca quando se lhe dão excelentes motivos para isso.
    De uma maneira geral, todas as palavras que não se imaginam num soneto de Camões são impróprias. O amor pode ser um fogo que arde sem se ver, mas não basta tomar o facto por dado e dizer simplesmente «Bute» - é preciso dizer que arde sem se ver. Mesmo que não arda, mesmo que se veja.

   CARDOSO, Miguel Esteves - A Causa das Coisas. Lisboa: Assírio & Alvim, 6ª ed. 1988, p. 227-228.

O livro está disponível  para requisição na BE da ESJS.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

DIA DOS NAMORADOS 2014 (II)

"Amor", Carlotta Castelnovi

POEMA DO AMOR

Este é o poema do amor.

Do amor tal qual se fala, do amor sem mestre.
Do amor.
Do amor.
Do amor.

Este é o poema do amor.

Do amor das fachadas dos prédios e dos recipientes do lixo.
Do amor das galinhas, dos gatos e dos cães, e de toda a espécie de bicho.
Do amor.
Do amor.
Do amor.

Este é o poema do amor.

Do amor das soleiras das portas
e das varandas que estão por cima dos números das portas
com begónias e avencas plantadas em tachos e terrinas.
Do amor das janelas sem cortinas
ou de cortinas sujas e tortas.

Este é o poema do amor.

Do amor das pedras brancas do passeio
com pedrinhas pretas a enfeitá-lo para os olhos se entreterem,
e as ervas teimosas a nascerem de permeio
e os homens de cócoras a raparem-nas e elas por outro lado a crescerem.
Do amor das cadeiras cá fora em redor das mesas
com as chávenas de café em cima e o toldo de riscas encarnadas.
Do amor das lojas abertas, com muitos fregueses e freguesas
a entrarem e a saírem, e as pessoas todas muito malcriadas.

Este é o poema do amor.

Do amor do sol e do luar,
do frio e do calor,
das árvores e do mar,
da brisa e da tormenta,
da chuva violenta,
da luz e da cor.
Do amor do ar que circula
e varre os caminhos
e faz remoinhos
e bate no rosto e fere e estimula.
Do amor de ser distraído e pisar as pessoas graves,
do amor de amar sem lei nem compromisso,
do amor de olhar de lado como fazem as aves,
do amor de ir, voltar, e tornar a ir, e ninguém ter nada com isso.
Do amor de tudo quanto é livre, de tudo quanto mexe e esbraceja,
que salta, que voa, que vibra e lateja.
Das fitas ao vento,
dos barcos pintados,
das frutas, dos cromos, das caixas de tintas, dos supermercados.

Este é o poema do amor.

O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes o amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhes,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.

Este é o poema do amor.

GEDEÃO, António - Obra Completa. Sta. Maria da Feira: Relógio D' Água Editores, 2004. ISBN 972-708-790-6, p. 211-213.

O livro está disponível na BE.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

CAIS

Fotografia do Professor Martinho Rangel

Ténue é o cais
no Inverno frio.
Ténue é o voo
do pássaro cinzento.
Ténue é o sono
que adormece o navio.
No vago cais
do balouço da bruma
ténue é a estrela
que um peixe morde.
Ténue é o porto
nos olhos do casario.
Mas o que em fora nos dilui
faz-nos exactos por dentro.

Fernando Namora 

terça-feira, 16 de julho de 2013

SUGESTÃO DE LEITURA (34)


(...) "Isto está cheio de gente! Não vamos conseguir ...". disse Pedro Justiceiro, desanimado, eram 14 e 40. Renato respondeu que, pelo contrário, quanto mais gente melhor para o plano. 
(...) Silvino envolve a mão num lenço de quadrados azuis, agarra a alavanca, dá uma mirada em redor, ninguém deste lado, ninguém naquele, puxa de leve, piram-se cinco abelhas a experimentar o voo, zzzzzzz, zzzzzzz, somem-se na direcção do Egipto, não tarda nada ouvem-se os primeiros gritos, gritos dilacerantes, de cortar o coração, e rebenta o cagaçal de pés em correria.
"Já está uma barulheira do escafandro", comenta Renato, e manda puxar outra vez, segunda dose, Silvino diz "okay chefe, lá vai disto", zzzzzzz, zzzzzzz, mais vinte e uma abelha em três esquadrilhas de sete revolteiam no espaço afiando os ferrões, dois japoneses atravessam a galeria aos pulos, seguidos de uma sueca que enfia desesperadamente a mão no decote, uma abelha tinha-se lá ido meter, devia ser a abelha-mestra, cada vez mais gritos, impossível distinguir um grito sueco de um grito de Campo de Ourique, zzzzzzz, zzzzzzz, um cidadão espanhol quer encafuar-se numa arca francesa, Luís XVI, é o encafuas, já lá havia abelhas, duas de rabo alçado e ferrão em riste, o espanhol dá um salto como os  bonecos nas caixas de surpresas, diz três obscenidades, mas foi em espanhol, passa, zzzzzzz, zzzzzzz, aparecem em pelotão compacto as meninas do colégio dando à perninha e berrando graciosamente.
"Puxa!", ordena de novo Renato, "quem me acaba o resto?", retruca Silvino, agarra-se à alavanca com a força toda, o fundo da caixa abre-se de par em par, "olha para este cardume", entusiasma-se Silvino, "enxame", emenda Renato, "ou isso", concorda Silvino, zzzzzzz, zzzzzzz, cena terrível, centenas de abelhas iradas atacando em todas as direcções, apanham a excursão de alemães que se tinham reunido disciplinadamente à espera que a guia desse o sinal de partida, já não esperam, arrancam como foguetes, mas chocam de frente com os italianos que vinham à desfilada, julgavam que a porta era do outro lado, há feridos ligeiros, um japonês pára para tirar fotografias, mas não tira, é atacado pela retaguarda, dá um pinote e foge agarrado à zona, toda a zona está a arder, fica uma Nikon exposta entre as obras de arte assíria.
ZAMBUJAL, Mário - Crónica dos Bons Malandros. Lisboa: Quetzal Editores, 2008. 31.ª ed. 151p. ISBN 978-972-564-662-5

O livro está disponível para requisição na Biblioteca da ESJS.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

EXAMES À PORTA

Multimédia: Marcelo Almeida, 12.º S3

Deixamos igualmente a sugestão de sítios com informação relevante:
Guia Geral de Exames
GAVE
Guia do Estudante

Os manuais de preparação para os exames estão disponíveis na BE da ESJS.
 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

50 ANOS DE AVENTURAS DE JOÃO SEM MEDO

(...) Os habitantes dessa cidade, como já sabem, andavam de pernas para o ar, usavam gravatas na cintura, cintos no pescoço, galochas nas mãos e luvas nos pés. Os prédios em que moravam não dispunham de portas nem de janelas. Entrava-se e saía-se dos andares, através dos telhados, por intermédio de elevadores montados nas paredes exteriores das fachadas. Outra particularidade a distinguia das demais cidades: apresentava diariamente um aspecto panorâmico novo, porque não possuía ruas fixas. Na verdade a Lei obrigava os donos dos prédios a mudarem-nos todos os dias de orientação e de rua, segundo um plano de barafunda paranóica estabelecido por poetas surrealistas reformados. Para esse fim, e obedecendo a métodos de construção especiais, edificavam-nos sobre largas plataformas metálicas com rodas, para se deslocarem com mais facilidade. Mercê deste processo ideal, a confusão da Cidade atingia requintes impossíveis de ultrapassar porque os habitantes ignoravam onde moravam.
Em resumo: ninguém sabia a quantas andava. Os relógios não marcavam as horas, os minutos e os segundos, mas os séculos. Os governantes, os professores e o escol intelectual, cuidadosamente escolhidos entre as pessoas mais insignificantes da Cidade, pugnavam com denodo pela mumificação do Disparate de pernas para o ar. E ai daquele que não pronunciasse pelo menos dez asneiras por minuto. Ou não sujasse as grandes descobertas e empresas humanas (como a energia atómica ou os satélites, por exemplo) com teorias imbecis de amesquinhamento reles. Considerados moralmente mortos, os colegas tratavam logo de excluí-los sem reluntância nem remorsos, das respectivas Academias e Universidades.
Esta estupidez, preceituada como mais uma das mais galhardas manifestações da alma da Raça, cultivava-se desde a infância com esmeros maternais. As Escolas, onde os mestres se seleccionavam não pela ciência demonstrada mas pela maneira de trajar e fazer o nó da gravata, incumbiam-se de torcer os meninos até à incapacidade perfeita. Ensinavam-lhes de propósito coisas sem significação, palavras vazias, matéria inoperantes, ideias cadavéricas, sempre com mais de duzentos anos, pelo menos, e que, conservadas em álcool, graças ao seu desuso em cabeças vivas serviam para simulações de sistemas geniais recentes.
Também se chamavam ursos aos raros estudiosos. (...)
No meio desta trapalhada, em que tudo parecia desengonçar-se e fazer o pino, o pobre João Sem Medo esforçava-se por se manter imune ao contágio, repugnando-lhe aderir à lógica absurda de certos hábitos e cerimónias.

FERREIRA, José Gomes - A Cidade da Confusão. In Aventuras de João Sem Medo. Lisboa: Diabril Editora. 1975. 4.ª ed. Cap. VII, p.95-97.

O livro encontra-se disponível para requisição na Biblioteca da ESJS.

Para saber mais sobre a obra:
 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RELANCE


Fotografia do Professor Martinho Rangel

Altas serras felizes
Que o sol doira de luz logo à nascença.
Que o céu olha de cima
Com a ternura extensa
Da eternidade.
Que o vento anima
De movimento
E a neve cobre de um alvacento
Manto de augusta serenidade.

Miguel Torga (1976)

TORGA, Miguel - Relance. In Diário. (Volumes IX a XII). Rio de Mouro: Círculo de Leitores. 2001. ISBN 972-42-2548-8. Diário IX, p. 1213.

Esta obra está disponível para requisição na BE da ESJS.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

EM ABRIL, LIVROS MIL

Multimédia: Marcelo Almeida, 12.º S3

Seleção de títulos existentes na BE para ler no mês do livro e da liberdade.  

sexta-feira, 12 de abril de 2013

N' EÇA LEITURA

(...) Uma das senhoras de preto fazia votos para que se aliviassem os estudos. As pobres crianças sucumbiam verdadeiramente à quantidade exagerada de matérias, de coisas a decorar: o dela, o Joãozinho, andava tão pálido e tão desfigurado, que ela às vezes tinha vontade de o deixar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chávena sobre uma console ao lado, e, passando sobre os lábios a renda do lenço, queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escândalo as exigências, as dificuldades que punham, só para poder deitar RR... Ao pequeno dela tinham feito as perguntas mais estúpidas, as mais reles; assim, por exemplo, o que era o sabão, porque lavava o sabão?...
A outra senhora e a condessa apertavam as mãos contra o peito, consternadas. E Carlos, muito amável, concordou que era uma abominação. O marido dela - continuava a dama de preto - ficara tão desesperado que, encontrando o examinador no Chiado, o ameaçou de lhe dar bengaladas. Uma imprudência, decerto; mas, enfim, o homem fora malvado!... Não havia verdadeiramente senão uma coisa digna de se estudar, eram as línguas. Parecia insensato que se torturasse uma criança com botânica, astronomia, física... Para quê? Coisas inúteis na sociedade. Assim, o pequeno dela, agora, tinha lições de química... Que absurdo! Era o que o pai dizia - para quê, se ele o não queria para boticário?(...)

QUEIRÓS, Eça - Os Maias. Lisboa: Livros do Brasil, s.d. Cap IX, p. 294.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

SUGESTÃO DE LEITURA (33)


Darwin foi um dos primeiros investigadores a consi­derar os benefícios do sexo e fê-lo de modo pragmático, como sempre. Ele entendia que a principal vantagem do sexo era o vigor híbrido, ou seja, que a descendência de dois progenitores não relacionados é mais forte, mais saudável e mais apta — e tem menor probabilidade de sofrer de doenças congénitas como a hemofilia ou a doença de Tay-Sachs — do que os filhos de progenitores familiares próximos entre si. Bastava olhar para as an­tigas monarquias europeias como, por exemplo, os Habsburgos, um ramo doentio e insano, para estimar os efeitos nefastos de demasiada consanguinidade. Para Darwin, o sexo tinha tudo a ver com a exogamia, não obstante ter casado com a sua única prima direita, o modelo de virtude Emma Wedgewood, de quem teve 10 filhos.  
A resposta de Darwin gozava de dois grandes méri­tos, mas padecia do seu total desconhecimento acerca dos genes. E os dois méritos são, por um lado, que o vigor híbrido é vantajoso de imediato e, por outro, que os benefícios são focalizados num indivíduo. Isto signi­fica que é mais provável que a exogamia dê origem a crianças saudáveis que não morram na infância, logo que mais genes sobrevivam até à geração seguinte. Trata-se de uma explicação darwiniana agradável, com um significado mais abrangente ao qual voltaremos mais tarde. (Aqui, a selecção natural está a actuar sobre indivíduos e não sobre grupos.) O problema é que esta interpretação só explica a exogamia e não do sexo.

LANE, Nick - A Espiral da Vida. Lisboa: Gradiva: 2012. 524 p. ISBN 978-989-616-489-8

Este livro está disponível para requisição na Biblioteca da ESJS.

NICK LANE é bioquímico e foi contemplado com a primeira fellowship em investigação da Provost’s Venture no Departamento de Genética, Evolução e Ambiente  - University College London. Publica com regularidade em revistas científicas reconhecidas internacionalmente e dedica-se à divulgação científica nos vários meios de comunicação social. É frequentemente orador convidado em conferências internacionais. O seu livro anterior, Power, Sex, Suicide, foi nomeado para o Prémio Royal Society para livros de ciência em 2006 (prémio que o livro agora publicado venceu em 2010) e para o Prémio Jovem Autor Académico do Ano. Foi ainda eleito livro do ano pela The Economist.
(Texto da badana do livro)

segunda-feira, 4 de março de 2013

MONTRA DE LIVROS (17)


Exemplares de obras de Maria Gabriela Llansol que podem ser consultados/requisitados na BE:

 Os Pregos na Erva (1962)
 
Finita (1987)
 
Um Beijo Dado Mais Tarde (1990)
 
Lisboaleipzig 1 (1994)
 
Lisboaleipzig 2 (1994)
 
O Começo de Um Livro é Precioso (2008)
 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

SUGESTÃO DE LEITURA (32)

MIA COUTO E OS SETE SAPATOS SUJOS
 
 Em 2006, Mia Couto recebeu um convite para proferir uma "oração de sapiência" no ISCTEM, em Maputo. Conhecedor da realidade sociológica e económica de Moçambique, escolheu para tema da sua lição o combate à pobreza e os preconceitos que impedem a entrada num mundo moderno.

E Se Obama Fosse Africano? e Outras Interinvenções  resulta da sua participação em encontros públicos. São textos de reflexão que abordam temas como a política, a literatura, a cultura, a antropologia, entre outros.

No capítulo intitulado "Os Sete Sapatos Sujos",  o autor refere que " (...) Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que precisamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos. (...) "  (pág. 33)
Em suma, um conjunto de ideias e atitudes que impedem o desenvolvimento e a justiça social de muitos povos.

Aqui fica um excerto:

Sétimo sapato: A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros
 
Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser nós quem acredita estar vivendo fora, dançando nos braços de Janet Jackson. O que os vídeos e toda a subindústria televisiva nos vêm dizer não é apenas «comprem». Há todo um outro convite que é este:«sejam como nós». Este apelo à imitação cai como ouro sobre azul: a vergonha de sermos quem somos é um trampolim para vestirmos esta outra máscara.
O resultado é que a nossa produção cultural se está convertendo na reprodução macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa música poderá ser uma espécie de hip-hop tropical, o destino da nossa culinária poderá ser o McDonald's.
Falamos de erosão dos solos, de desflorestação, mas a erosão das nossas culturas é ainda mais preocupante. A secundarização das línguas moçambicanas (incluindo da língua portuguesa) e a ideia de que só temos identidade naquilo que é folclórico são modos de nos soprarem ao ouvido a seguinte mensagem: só somos modernos se formos americanos.
A nossa sociedade tem uma história similar à de um indivíduo. Ambos os percursos são marcados por rituais de transição: o nascimento, o fim da adolescência, o casamento, o fim da vida.
Olho a nossa sociedade urbana e pergunto-me : será que queremos realmente ser diferentes? Porque vejo que esses rituais de passagem se reproduzem como fotocópia fiel daquilo que sempre conheci na sociedade colonial. Estamos dançando a valsa, com vestidos compridos, num baile de finalistas que é decalcado daquele do meu tempo. Estamos copiando as cerimónias de final de curso a partir de modelos europeus da Inglaterra medieval. Casamo-nos de véus e grinaldas e atiramos para longe da Avenida Julius Nyerere tudo aquilo que possa sugerir uma cerimónia mais enraizada na terra e na tradição moçambicana.
 
COUTO, Mia - E Se Obama Fosse Africano? e Outras Interinvenções. Lisboa: Editorial Caminho. 2009. 214 p. ISBN 978-972-21-2023-4

Para continuar a ler, requisite o livro na BE.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

RELEMBRANDO VERGÍLIO FERREIRA (28/1/1916-1/3/1996)

A vida inteira para dizer uma palavra!
Felizes o que chegam a dizer uma palavra!
Saul Dias
 
I

Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a à volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta - sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás que aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros  - é a História que se diz? abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou. Abro a porta devagar, ela range para o espaço do jardim. É um jardim morto, as plantas secas, os canteiros arrasados nas pedras que os limitavam. Alguns têm só terra ou hastes secas de roseiras. (...) Um silêncio súbito, silêncio da terra. Só vozes ermas dos campos, ouço-as no calor parado da tarde. Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores. Olho-o um instante , olho a casa, circunvago o olhar. Preparar o futuro - o futuro... E uma súbita ternura não sei porquê. Silêncio. Até ao oculto da tua comoção . Preparar o futuro, preparação para a morte. Está certo. Parte-se carregado de coisas, elas vão-se perdendo pelo caminho. Se ao menos uma ideia breve. Não tenho. Não é bem a vida que faz falta - só aquilo que a faz viver. (...)

FERREIRA, Vergílo - Para Sempre. Lisboa: Bertrand Editora. 2004. 14 ed., 306 p. ISBN 972-25-0268-9

Outras obras do autor disponíveis na BE: Aparição, Cântico Final, Contos, Até ao Fim,  Manhã Submersa, Pensar, Alegria Breve, Nítido Nulo, Promessa.  


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

SUGESTÃO DE LEITURA (31)

O VAGABUNDO NA ESPLANADA

(...) A meio da esplanada havia uma mesa vaga. Com o à-vontade de um frequentador habitual, o homem sentou-se.
Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pela soalheira  um sorriso de bem-estar.
Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação.
Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal, e enrolou-lha nas canelas. O homem, apanhou-a, abriu-a. Estendeu as pernas, cruzou um pé sobre o outro. Céptico, mas curioso, pôs-se a ler. 
O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se, circunvagando os olhos, como se gritassem: «Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!». Nas caras descompostas pelo desorbitado melindre, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda raiva contra o homem mal vestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada.
Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sobre o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:
- Não pode...
E calou-se. O homem olhava-o com atenta benevolência.
- Disse? 
- É reservado o direito de admissão - tornou o rapaz, hesitando. Está além escrito.
Depois de ler o dístico, o homem, com a placidez de quem, por mera distracção, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:
- Que direito vem a ser esse? 
- Bem... - volveu o empregado. A gerência não admite... Não podem vir aqui certas pessoas.
- E é a mim que vem dizer isso? 
O homem estava deveras surpreendido. Encolheu os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada nas caras circunstantes. O azul-claro dos olhos embaciou-se-lhe.
- Talvez que a gerência tenha razão - concluiu ele, em tom baixo e magoado. - Aqui para nós, também não me parecem lá grande coisa.
O empregado nem podia falar.
Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu, delicadamente:
- Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim,  não me importo.

FONSECA, Manuel da - O Vagabundo na Esplanada. In Tempo de Solidão. Editora Arcádia. 1973. 202 p.

Livro disponível na BE.
 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

SUGESTÃO DE LEITURA (30)


O Tempo entre Costuras é a história de Sira Quiroga, uma jovem modista empurrada pelo destino para um arriscado compromisso. Sem aviso, os pespontos e alinhavos do seu ofício convertem-se na fachada para missões obscuras que a enleiam num mundo de glamour e paixões, riqueza e miséria, mas também de vitórias e derrotas, de conspirações históricas e políticas, de espias. 

Um romance de ritmo imparável, costurado de encontros e desencontros, que nos transporta, em descrições fiéis, pelos cenários de uma Madrid pró-Alemanha, dos enclaves de Tânger e Tetuán e de uma Lisboa cosmopolita repleta de oportunistas e refugiados sem rumo. 

 (da contracapa da obra) 

(...) Assomei-me à varanda, meio tapada por uma janela e observei-a a chegar à rua. Dirigiu-se sem pressa a um automóvel vermelho intenso estacionado mesmo em frente da porta. Supus que estivesse alguém à espera dela, talvez o homem a quem tanto interesse tinha em agradar naquela noite. Não pude resistir à curiosidade e esforcei-me por procurar o seu rosto, maquinando na minha mente cenas imaginárias. Supus que se tratava de um alemão, possivelmente seria essa a razão do seu anseio em causar boa impressão entre os compatriotas dele. Imaginava-o jovem, atraente, bon vivant, mundano e resoluto como ela. Quase não tive tempo para continuar a lucubrar, porque quando chegou ao automóvel e abriu a porta da direita - a que supostamente deveria corresponder ao lado do co-piloto -, percebi com espanto que aí se encontrava o volante e que era ela própria que tinha intenção de conduzir. Ninguém a esperava naquele carro inglês com volante à direita; sozinha ligou o motor e sozinha se foi, tal como tinha chegado. Sem homem, sem vestido para aquela noite e, muito provavelmente, sem a mínima esperança de conseguir encontrar alguma solução ao longo da tarde. (...) 
  
DUEÑAS, María - O Tempo entre Costuras. Porto: Porto Editora, 2012. 2.ª ed. 632 p. ISBN 978-972-0-04558-4

Livro oferecido à BE por Hugo Passos, consultor pedagógico da PORTO EDITORA.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

N' EÇA LEITURA


A Friend in Need, Cassius Marcellus Coolidge

 V

No escritório de Afonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminé, onde a chama morria nos carvões escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo japonês, por causa da bronquite de D. Diogo e  do seu horror ao ar.
Esse velho dandy - a quem as damas de outras eras chamavam o «Lindo Diogo», gentil toureiro que dormia num leito real - acabava justamente de ter um dos seus acessos de tosse, cavernosa, áspera, dolorosa, que o sacudiam como uma ruína, que ele abafava no lenço, com as veias inchadas, roxo até à raiz dos cabelos.
Mas passara. Com a mão ainda trémula, o decrépito leão limpou as lágrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compôs a rosa-de-musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um gole da sua água chàzada, e perguntou a Afonso, seu parceiro, numa voz rouca e surda:
- Paus, hem?
E de novo, sobre o pano verde, as cartas foram caindo num daqueles silêncios que se seguiam às tosses de D. Diogo. Sentia-se só a respiração assobiada, quase silvante, do general Sequeira, muito infeliz essa noite, desesperado com o Vilaça, seu parceiro, rezingão e com todo o sangue na face.
Um tom fino retiniu, o relógio Luís XV foi ferindo alegremente, vivamente, a meia-noite; - depois a toada argentina do seu minuete vibrou um momento e morreu. Houve de novo um silêncio. Uma renda vermelha recobria os globos de dois grandes candeeiros Carcel; e a luz assim coada, caindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos, fazia como uma doce refracção cor-de-rosa, um vaporoso de nuvem em que a sala se banhava e dormia: só aqui e além, sobre os carvalhos sombrios das estantes, rebrilhava em silêncio o ouro de um Sèvres, uma palidez de marfim, ou algum tom esmaltado de velha majólica.
- O quê! ainda encarniçados! - exclamou Carlos, que abrira o reposteiro, entrava, e com ele o rumor distante de bolas de bilhar.
Afonso, que recolhia a sua vaza, voltou logo a cabeça, a perguntar com interesse:
- Como vai ela? Está sossegada?
- Está muito melhor! (...)
 
Os Maias, Eça de Queirós 

Mariana Franco de Almeida, 11.º B 
(seleção de texto e imagem)