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Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

terça-feira, 8 de setembro de 2015

PRÉMIO ELOQUÊNCIA CAMÕES 2015

Ivone Amélia Donaldo Manave. Daqui.


"Ivone Amélia Donaldo Manave, estudante da 11ª classe da Escola Secundária de Malhazine (em Moçambique) foi a vencedora do Prémio Eloquência Camões 2015. Com o trabalho «Igualdade de Género», Ivone defendeu a igualdade de oportunidades para as mulheres, num texto bem estruturado e apresentado oralmente com a convicção e o empenho de quem está a defender uma causa justa. (...)

O Prémio Eloquência Camões é promovido pelo Centro Cultural Português em Maputo e tem o apoio da Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes da Universidade Pedagógica."


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

DA SAUDADE XV

City is Landing, Jacek Yerka. Daqui.


"O messianismo português, que é diverso dos anteriores milenarismos, como os de Joaquim de Flora, ou Fiore, dado que assume um modelo de império, não redutível ao fim da história, mas antes como um fim que vem depois do fim, para utilizarmos as palavras de Dominique Roux. O messianismo bandarrista serve de semente para o mito do Quinto Império e alimenta o chamado sebastianismo. Com efeito, entre 1530 e 1540, surgem umas Trovas de Gonçalo Anes, de alcunha o Bandarra, sapateiro de Trancoso, que falam Desse bom Rei Encoberto que Tirará toda a Erronia/ Fará Paz em todo o Mundo. As Trovas, que serão julgadas como judaizantes pela Inquisição, servirão, contudo, de elemento fundamental para a estratégia de resistência dos que se opunham à administração filipina e tratavam de lançar achas para a fogueira do messianismo sebastianista, procurando transformar aquele que fora O Desejado num Encoberto. É, a partir de então, que se estrutura o mito do Quinto Império como uma religião política, como a integração simbólica de um povo, segundo as palavras de Jürgen Moltmann. É o que acontece a todas as nações que se auto-interpretam como nações metafísicas, em contraste com as chamadas nações empírico-etnográficas. Todas as nações que se assumem de um ponto de vista transcendental, representando diversos espaços histórico-geográficos de uma só e mesma nação. Daí a sua atracção e repulsão recíprocas, como salienta o recente filósofo russo Nikolai Chulguine, referindo-se... à Rússia. A ascensão e queda de Portugal nos séculos XV e XVI é fulminante. Do reino antigo, rapidamente se passa ao novo reino, sonhando-se com o Império, ao mesmo tempo que o rei, nos fins de 1576, começos de 1577, deixa de ser Alteza e se assume como Majestade, abandonando a coroa aberta do reino e alcandorando-se à coroa fechada e circular do soberanismo monárquico. Pouco tempo depois, com a derrota de Alcácer-Quibir em 1578, passa-se abruptamente, da suprema esperança, aos amargos da derrota. Os mitos da augmentação aparecem, assim, incidivelmente ligados aos mitos da decadência. Como observa Garcia de Resende: Era Portugal o cume/ Agora por mau costume/ Se perdeu em poucos anos. No cume, na procura do Império, a degenerescência dos costumes, a corrupção do corpo político e a falta de autenticidade do poder, que geram a necessidade de se plantar novo reyno, novos homens, novas Leys, novos costumes, como expressa D. Álvaro de Castro, em carta ao Cardeal D. Henrique. Um novo reino que, de certa maneira, procura retomar os antigos hábitos. Como se expressa o povo em Cortes, há uma enorme diferença entre o estado a que somos vindos e quão diferentes nas vidas e nos costumes daqueles Portugueses antigos, usando de tamanhos excessos nas jóias, nos comeres, nos adereços de nossas casas e nos exercícios de nossas vidas. Mas é deste choque que surge o típico da consciência nacional portuguesa, fundada na procura da regeneração e da refundação, onde, muito messianicamente, a memória do sofrimento constitui o principal alento para o desejo de libertação. (...) Sebastianistas continuam a ser aqueles que consideram que Portugal não é apenas aquele Portugal que permaneceu no Portugal dos séculos XV e XVI. Que há outros novos portugais além do Portugal Velho. Novos portugais que os genes e os sonhos dos sucessivos portugueses semeiam pelo mundo. Que há outros portugais sem o nome de Portugal e que constituem aquilo que Gilberto Freyre (1900-1987) qualificou como o mundo que o português criou. Neste sentido, Pessoa disse que falta cumprir-se Portugal, que a nossa missão é o impossível do conquistemos a distância, do mar ou outra, mas que seja nossa. Têm, pois, razão Alexandre Herculano, António Sardinha (1888-1925), António Sérgio (1883-1969) ou Agostinho da Silva (1906-1994) quando apontam certas facetas do renascimento como a primeira das causas da nossa decadência. Liberdadeiros, tradicionalistas, racionalistas ou esotéricos, uns simplesmente liberalistas, outros monárquicos, outros socialistas, outros republicanos, todos reconhecem que a decadência foi deixarmos de cumprir a liberdade portuguesa. Mas o Renascimento é um desses deuses com duas faces. Se uma aponta a decadência, a outra escreve-se com a esperança camoniana. 1580 constitui, de facto, um marco assinalado pelas lendárias palavras de Camões: morro, mas morro com a pátria. Não que a pátria tenha perecido, dado que o sofrimento, provocado pela consciência da ocupação, gerou o desejo de libertação. Ela volver-se-á em algo que se perde entre as brumas da memória, algo que nos é segredado pela voz dos egrégios avós, tornando-se saudade, ou messianismo, ou tentando transformar-se num imortal que tem de ressurgir, obrigando os vindouros ao esforço de levantar hoje de novo o esplendor de Portugal, conforme as palavras daquele que será o chamado hino nacional. Todo o patriotismo português será saudade e memória a partir de então, exigindo um esforço interior de refundação ou regeneração. (...)"

José Adelino Maltez, Abecedário Simbiótico - Um digesto político contemporâneo com exemplos sagrados e profanos, Entrada "Quinto Império", Lisboa, Campo da Comunicação, 2011, pp. 433-435.



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

DA CONCISÃO LIII


Imagem daqui.



"A escrita hebraica e a escrita árabe vão de Oriente para Ocidente,/ A escrita latina, de Ocidente para Oriente./ As línguas são como os gatos:/ Não se devem acariciar contra a corrente do pelo. (...)"

Yehuda Amichai (1924-2000), "Poema Temporário do meu Tempo"


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

DA CONCISÃO LII


Pablo Picasso, Joie de vivre (1946). 

"La douleur fait le poète, mais la joie fait le peintre."

Camillo Boito, "Un corps", Trésor de la nouvelle de la littérature italienne, vol. 2, Paris, Les Belles Lettres, 2004, p. 70.



PRÉMIO LITERÁRIO ALVES REDOL

Imagem e informações detalhadas, incluindo o regulamento, aqui.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

GIL VICENTE E O SEU TEMPO

            
Alfredo Roque Gameiro, Encenação de Estreia do Monólogo do Vaqueiro, de Gil Vicente. Daqui.



            O entardecer da nossa Idade Média tem o encanto nostálgico do Outono. Ideias e compleições espirituais declinam com suave lentidão, sem arrancos vigorosos do pensamento nem estremecimentos arrebatados da sensibilidade. Brandamente, como um fio de água que se escoa. O espírito foi jovial, o ânimo resoluto, os modos corteses, a inteligência tranquila e segura de si, mas a mente desconheceu dúvidas promissoras, a vontade, com querer virilmente o que quis, talvez se afirmasse mais extensamente em nolições que em volições, e a expressão literária, em si mesma, como forma de arte, não teve agilidade nem se enlevou no puro prazer estético. Dir-se-ia que ninguém, por então, deixara correr a pena só movida pelo deleite de escrever. (…) Poetas, prosadores, pregadores, todos utilizavam o verbo para instruir ou para entreter, para defender ou para atacar. A intenção didáctica tornara-se o signo daquela hora vesperal (…). Daí o desinteresse pela arte literária como expressão da sensibilidade estética, a intangibilidade de regras e preceitos, e o predomínio da temática ético-religiosa, tão absorvente que mal houve quem lançasse rápidos olhares para a gesta dos Descobrimentos e tão suspicaz que não custa a descobrir a reprimenda severa sob a aparência franca do riso e do chiste.
            Gil Vicente fez-se homem de letras nesta ambiência. O seu génio de poeta e a frescura da sua inspiração lírica colocaram-no fora e acima do estreito cercado do seu tempo; a sua mente, contudo, não se desprendeu da garra epocal. Na fronteira de duas culturas, a da Idade Média, que se aproximava do ocaso, e a Renascença, que entre nós foi sol nado quando a vida do Poeta descaía, o seu espírito, por mais alto que lhe ergamos a personalidade individualíssima, não pulsou nunca com a virtù, os anelos e a sensibilidade dos platonizantes, dos ciceronianos, dos paganizados, dos eruditos e dos retóricos que a revivescência das humanidades trouxe à actualidade (…).
            A índole espiritual de Gil Vicente e o teor das suas ideias nasceram e permaneceram na Idade Média, e só na Idade Média – , bem entendido na derradeira quadra que a sensibilidade e o pensamento medieval viveram entre nós (…).
            Por isso a voz de Gil Vicente não conheceu as galas do belo-dizer; as suas palavras brotaram do humus popular, recorrem às vezes ao vocabulário clerical e nada pediram de emprestado ao latim polido; as suas imagens têm viço e palpitam de ternura, sem a fatuidade e a bajulação vulgares nas dos humanistas; o seu pensamento, ora ingénuo, ora intencional, antepôs ao encadeamento de juízos a intuição imaginante do símbolo; as suas leituras sérias foram as de um pregador e as das horas de desenfado parece não terem ido além da literatura castelhana, especialmente dos novelistas e poetas da segunda metade de Quatrocentos; o seu riso teve a alacridade irreprimível do que irrompe visceralmente da gana, se delicia com a chalaça e esmorece com a ironia; a sua razão não intuiu nunca aquele «livre exame» que submeteria à mesma disposição categorial os textos sagrados e os eventos naturais; a sua imaginação quase só delineou cenários de risco litúrgico e sempre enroupou de panejamentos medievais os mitos e figuras da antiguidade clássica; a sua concepção do Mundo foi teocêntrica, o seu ideal social, hierárquico, a sua ética, a do asceta que, apesar de condescendente e bonacheiro, desnuda o homem para que ele se não esqueça de que a vida tem de ser a preparação da morte.
            O saber científico, que se constrói com o senso rígido e frio da exactidão, não lhe estava na índole, nem tão-pouco o visionou nos anos em que se alargam os horizontes da visão intelectual. Somente aprendeu e soube o saber que nutre directamente a conduta do homem para com Deus, para com o Rei e para com os demais homens, e esse saber, que teve sempre por sustento e fito o mais veemente amor a tudo quanto era português, encontrou-o já sistematizado em Sumas e Artes, e alcançou-o talvez numa aula claustral para noviços ou aprendizes de clérigo, talvez numa escola superior, como escolar teólogo, mas não com qualquer cura sertanejo e ainda menos por exclusivo esforço de autodidacta.

Joaquim de Carvalho, “Os Sermões de Gil Vicente e a Arte de Pregar”, in Obra Completa, vol. II – História da Cultura, 1948-1955, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1983, pp. 45-47.



terça-feira, 1 de setembro de 2015

SETEMBRO, SOPHIA

Gravura de Eugène Grasset, "Septembre", in Les mois. Daqui.


Oblíquo Setembro de equinócio tarde
Que se alonga e depara e vê e mira
Tarde que habita o estar do seu parado
Sol de Sul pelo sal detido

Assim o estar aqui e o haver sido
Quasi a mesma que sou no tão perdido
Morar aberto de um Setembro antigo
Com o mar desse morar em meu ouvido

Pura paixão que não conhece olvido

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Pura paixão que não conhece olvido", in Portugal Socialista, janeiro de 1984.