Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

terça-feira, 29 de setembro de 2015

UM JARDIM OSTENSIVO E RESERVADO


Imagem daqui.



CONSELHO

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

(publicado em novembro de 1935)


Fernando Pessoa, Obra Essencial de Fernando Pessoa - Poesia Ortónima, Prefácio de Richard Zenith, Coordenação da Edição de Ivo Castro, Lisboa, Expresso/ Alêtheia Editores/ INCM, 2015, p. 123.



quinta-feira, 24 de setembro de 2015

HAMLET, de William Shakespeare


Imagem e informações no sítio do Teatro da Cornucópia.


Co-Produção Teatro da Cornucópia e Companhia de Teatro de Almada
Tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen
Até 18 de outubro de 2015



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

DO NOME II

Religiões da Lusitânia - Loquuntur Saxa - MNA. Imagem do deus Endovélico (capa).



"(...) A onomástica pessoal assume, durante a Romanidade, várias formas, consoante o estatuto político-social do indivíduo, o seu sexo e ainda a época concreta em que viveu, já que os sistemas vigentes nem sempre foram exactamente os mesmos. Em qualquer dos casos, porém, um nome pessoal exarado numa epígrafe, mormente funerária, não cumpria apenas meros objectivos de pragmática identificação, antes destinava-se a ser lido alto por quem passava, formando assim uma sequência de sons especificamente - íamos a escrever «magicamente» - evocatórias da pessoa ausente. O nome, na Antiguidade, assume um cariz verdadeiramente ontológico. Ele exprime e representa, de alguma maneira, a própria essência, o próprio carácter do ser nomeado. O nome tem, em si mesmo, um indiscutível poder. Chamar, clamar por alguém proferindo o seu nome - lendo-o alto, oralizando-o - é revivificar esse alguém, é torná-lo momentaneamente presente e acessível (no antigo Egipto tal prática era utilizada com grande empenho).

De igual modo com os deuses. Invocá-los pelo seu próprio nome, pelo seu nome «verdadeiro», é possuí-los, é ter poder para poder controlar a sua vontade. Trata-se da clássica equação de nomen/ numen: nomen, o nome, a «essência" de um ente divino traduzido por certos sons; numen, a «vontade divina», o «poder divino».

Saber escrever o verdadeiro nome do deus é importante. Mas mais ainda é sabê-lo pronunciar correctamente: Endovellicus? Indovellicus? Endovollicus? Enobolicus?... Qual o verdadeiro nome? Recorde-se, a este propósito, o tão esclarecedor passo de Jâmblico, autor que viveu na transição do século III para o século IV d. C.: «Se os nomes tivessem sido atribuídos por convenção, não importaria trocar uns pelos outros; mas, se estão estreitamente unidos com a natureza dos seres, os que se assemelham a essa natureza são certamente também os mais agradáveis aos deuses». E, mais à frente: «Se é (efectivamente) possível traduzir os nomes, estes já não conservam porém (depois de traduzidos) o mesmo poder». Não é o significado semântico que importa, mas sim a sonoridade específica de cada nome. (...)"

José Cardim Ribeiro, "Sons desenhados - letras sonantes: escrita e oralidade na Época Romana", in AA.VV., A Escrita das Escritas, Coordenação de Luís Manuel de Araújo, obra editada por ocasião da exposição A Escrita: Traços e Espaços, Lisboa, Museu das Comunicações, Fundação Portuguesa das Comunicações e ESTAR Editores, 2000, pp. 92-93.




terça-feira, 22 de setembro de 2015

O POETA EXPLICA-SE

Ruy Belo (São João da Ribeira, Rio Maior, 27-02-1933/ Queluz, 08-08-1978).
Imagem daqui.



"(...) A poesia, no estado actual de educação do nosso povo, não deve ser necessariamente popular. Não vamos esperar, pelo menos num meio como o nosso, que venha a competir com o futebol, a televisão, o cinema. Mas, como também já uma vez declarei, tenho esperanças numa educação diferente, que, por exemplo, vá permitindo, a pouco e pouco às crianças o acesso a Fernando Pessoa.

A errada concepção de que há uma poesia tradicional, que se praticou até ao Orpheu, e uma poesia moderna, também não tem contribuído para a compreensão destes problemas. A poesia, independentemente da querela dos antigos e dos modernos, sempre teve de ser moderna, de mudar, de criar a sua própria tradição. Moderno, sem mais, foi Sá de Miranda e, sem a sua acção poética e pedagógica, teria sido talvez impossível ou pelo menos singularmente mais difícil, grande parte de Camões.

No ensino da poesia, deve-se partir da poesia dos nossos dias para a poesia mais antiga. Se a poesia é fundamentalmente, como parece ser, uma forma particular de desvio em relação à linguagem quotidiana, mais fácil será ajuizar desse desvio relativamente à maneira actual de falar. Para só dar um exemplo, Carlos Drummond de Andrade pode muito bem servir de introdução a Camões.

Espero que algum dia seja possível ensinar a melhor poesia segundo a poesia que é. Ensinam-se aparentemente Os Lusíadas mas, em vez de se valorizar o que neles há de poético, põe-se em relevo o que é acidental, o que é útil,o que serve interesses as mais das vezes inconfessáveis e extraem-se lições que não decorrem imediatamente da sua arte.

Levantam-me às vezes também o problema da comunicação. Tenho de ser sincero e creio que posso sê-lo, uma vez que já disse o suficiente para não escandalizar ninguém de boa-fé. A questão da comunicação parece-me secundária. Ou os problemas do poeta interessam o público, que neles se revê, ou o poeta canta os problemas do público. Como também já uma vez disse, de Píndaro a Gottfried Benn, sempre os poetas mais ou menos praticaram ou defenderam o mesmo princípio de que, se alguém recorresse à poesia para se fazer compreender, ninguém escreveria versos.(...)"

Ruy Belo, "Um poeta explica-se", in Na Senda da Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, pp. 288-289.


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

DA CONCISÃO LVI

Sémhur, A extensão do Império Romano em alguns anos.
Imagem daqui.


Verba volant, scripta manent.
"As palavras voam, os escritos ficam."

Sentença latina.


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

DA CONCISÃO LV

Imagem daqui.


"926. Observa a aprendizagem - e o resultado da aprendizagem."


Ludwig Wittgenstein, Últimos Escritos sobre a Filosofia da Psicologia, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, p. 231.