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Escola Secundária José Saramago - Mafra

terça-feira, 17 de abril de 2018

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS - O INCIPIT

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, página datiloscrita do incipit.
Disponível aqui.



Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual a aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o íntimo apelativo de vapor de família. Ambos são providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja essa a vontade de quem lá manda. Em dias de amena meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e paraíso de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, como se só de casas térreas construída, por acaso além um zimbório alto, uma empena mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é ilusão, quimera, miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu fechado. As crianças estrangeiras, a quem mais largamente dotou (...)

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Lisboa, Caminho, 1998, pp. 11-12.



segunda-feira, 16 de abril de 2018

EUGÉNIO DE ANDRADE - A GÉNESE DO POEMA


Eugénio de Andrade, por Bottelho.
Imagem daqui.




"Pego no papel e começo a escrever, abandonando-me perfeitamente ao ritmo das palavras, às próprias palavras. E quando paro volto a reler tudo o que escrevi, e nessa altura há um verso que salta. Pego noutra folha de papel e começo, abro com esse verso que apareceu. Então aí as palavras começam a chamar-se umas às outras, o poema começa realmente a organizar-se e é uma luta, quase corpo a corpo, que dura às vezes horas, a tarde inteira. E se tiver sorte chego ao fim da tarde com um poema, ou assim me parece. Levo isso à noite para a cabeceira e na manhã seguinte, em regra, também de uma maneira geral, inutilizo tudo o que escrevi. Mas qualquer coisa fica na memória porque depois recomeço a escrever, com algumas alterações já, e vou assim perseguindo o poema, às vezes durante uma semana. E persigo até o poema de edição para edição."

Eugénio de Andrade

Textos e Pretextos - Eugénio de Andrade, Centro de Estudos Comparatistas e Fundação Eugénio de Andrade, número cinco, inverno de 2004, p. 118.




quinta-feira, 12 de abril de 2018

CONGRESSO INTERNACIONAL "JOSÉ SARAMAGO: 20 ANOS COM O PRÉMIO NOBEL"


Aceda aqui a todas as informações.



A HESPÉRIA


Edward Burne-Jones (1833-1898), Garden of the Hesperides (1869-1873).
Imagem daqui.




Homero, no rasto do Amenti dos Egípcios e do Jardim das Hespérides de Hesíodo, sublinha a felicidade dos habitantes da Hespéria, localizando nela o Campo Elíseo ou morada dos Bem-Aventurados, o Paraíso de Saturno, símbolo de uma Idade de Ouro perdida, a última das terras (finisterrae) antes das Ilhas Afortunadas.

Tais argumentos (a abundância de metais constituía um outro) explicam por que desde um passado remotíssimo, a partir do Mediterrâneo e oriente médio, afluíram à Península Ibérica sucessivas ondas de vida, povos heterogéneos e das mais variadas raças e índoles, almas de eleição atraídas pelos lugares sagrados e centros mistéricos, herdeiros da civilização semi-divina de Mu, a Atlântida imortalizada por Platão no Timeu e no Crítias.

São incontáveis os testemunhos aludindo a esse território ocidental, sejam os legados pelos sobreviventes do dilúvio em que terá perecido, sejam aqueles atestando a sacralidade que as gerações vindouras conferiram aos vestígios remanescentes e o desvelo que, pelos séculos fora, puseram na sua preservação. Plutarco, na biografia de Sertório, não deixa mesmo de relacionar com tal tradição a vinda para a Hispânia daquele romano, cuja intenção era terminar os seus dias sem guerras nem tiranias, sob a graça vespertina de Vénus, a Grande Deusa guardiã da Ilha dos Amores situada neste extremo do continente.(...)

O Eterno Feminino no Aro de Mafra, Roteiro Monográfico, coordenação de Manuel Gandra, Mafra, Câmara Municipal de Mafra, 1994, p. 5.



quarta-feira, 11 de abril de 2018

POESIA DE LUÍSA CORDEIRO (28)

"Eu queria..."

Queria ser uma pomba
a comer na tua mão,
poente no teu corpo,
arrepio na tua pele,
o gosto na tua boca,
a luz no teu coração,
o farol na enseada
que ilumina a tua noite
e as pegadas que deixas
na areia fina e doce
molhada de beijos meus,
balada do meu amor
em tons da minha paixão.

Luísa Cordeiro 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

A LUSITÂNIA



Lambert de Saint-Omer, Liber Floridus (1120).
Imagem daqui.




A Lusitânia

A Lusitânia, região que fica a setentrião do Tejo, é a maior das nações Ibéricas, e aquela com que os Romanos guerrearam mais tempo. Esta terra é limitada a sul pelo Tejo, a oeste e norte pelo Oceano; a nascente pelos Carpetanos, Vetónios, Vaceios e Calaicos, raças bem conhecidas. As restantes não vale a pena nomeá-las, devido à sua pequenez e obscuridade.

Ora a terra de que estamos a falar é próspera; percorrem-na rios grandes e pequenos, quase todos vindos do nascente, paralelamente ao Tejo. A maioria é navegável para o interior e muitos contêm poalha de ouro. Os rios mais conhecidos, a seguir ao Tejo, são o Mondego, navegável a pequena distância, bem como o Vouga. Depois destes, o Douro, que vem de longe, corre ao longo de Numância e de muitas outras povoações dos Celtiberos e dos Vaceios; é navegável para grandes barcos, até cerca de oitocentos estádios. Depois, há ainda outros rios. A seguir a estes, o Eetes, a que alguns chamam Lima, e outros Belião. Esse corre da região dos Celtiberos e dos Vaceios. A seguir, vem o Báinis (a que chamam Minho), que é em muito o maior dos rios da Lusitânia, e também navegável até oitocentos estádios.

(Geografia, III, 3, 3-4)

Estrabão, "A Lusitânia", in Hélade - Antologia da Cultura Grega, organização e tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa, Guimarães Editores, 2009, p. 498.