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Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

SENTIDO E SIGNIFICADO


Imagem daqui.



Depois de o enfermeiro ter saído, o Sr. José ficou deitado ainda uns minutos, sem se mexer, a recuperar a serenidade e as forças. O diálogo fora difícil, com alçapões e portas falsas surgindo a casa passo, o mais pequeno deslize poderia tê-lo arrastado a uma confissão completa se não fosse estar o seu espírito atento aos múltiplos sentidos das palavras que cautelosamente ia pronunciando, sobretudo aquelas que parecem ter um sentido só, com elas é que é preciso mais cuidado. Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições.

José Saramago, Todos os Nomes, Lisboa, Caminho, 1998, pp. 134-135.



quinta-feira, 8 de novembro de 2018

FRANKENSTEIN DISSECADO - 200 ANOS


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No ano em se assinalam os 200 anos da publicação de Frankenstein, de Mary Shelley, o Pavilhão do Conhecimento - Centro Ciência Viva promove a exploração desta história, dissecando aquela que é considerada a primeira obra de ficção cinetífica de sempre.



quarta-feira, 7 de novembro de 2018

SOPHIA, 100 ANOS - 1919-2019


Sophia com Agustina Bessa-Luís e Eugénio de Andrade, anos 50.
Imagem daqui.



As informações sobre as comemorações podem ser consultadas em:




terça-feira, 6 de novembro de 2018

LABIRINTOS


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«Onde li eu a história (Jorge Luís Borges?) do rei persa mostrando ao rei árabe seu hóspede o labirinto assustador em que transformara os jardins do palácio? Ai de quem lá entrasse. Bosques cerrados, veredas sem saída, sebes densíssimas de buxo, portões fechados, muralhas, feras, armadilhas. O rei árabe viu tudo aquilo baixando a cabeça em silêncio e anos depois, quando o rei persa lhe retribuiu a visita, levou-o à beira do deserto e disse-lhe:
 
        - Aí tens o meu labirinto. Tão inquietante como o teu.»


Carlos de Oliveira, O Aprendiz de Feiticeiro, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1979, p. 155.




segunda-feira, 5 de novembro de 2018

NOMES E MATIZES


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Faltam-me as palavras. Efectivamente faltam-nos as palavras. Diz-se que numa das línguas faladas pelos indígenas da américa do sul, talvez na amazónia, existem mais de vinte expressões, umas vinte e sete, creio recordar, para designar a cor verde. Comparando com a pobreza do nosso vocabulário quanto a esta matéria, parecerá que devia ser fácil para eles descrever as florestas em que vivem, no meio de todos aqueles verdes minuciosos e diferenciados, apenas separados por subtis e quase inapreensíveis matizes. Não sabemos se alguma vez o tentaram e se ficaram satisfeitos com o resultado. O que, sim, sabemos, é que um monocromatismo qualquer, por exemplo, para não ir mais longe, o aparente branco absoluto destas montanhas, também não decide a questão,  talvez porque haja mais de vinte matizes de branco que o olho não pode perceber, mas cuja existência pressente. A verdade, se quisermos aceitá-la com toda a sua crueza, é que, simplesmente, não é possível descrever uma paisagem com palavras. Ou melhor, ser possível, é, mas não vale a pena. Pergunto se vale a pena escrever a palavra montanha se não sabemos que nome se daria a montanha a si mesma. Já a pintura é outra coisa, é muito capaz de criar sobre a paleta vinte e sete tons de verde seus que escaparam à natureza, e alguns mais que não o parecem, e a isso, como compete, chamamos arte. Às árvores pintadas não caem as folhas.

José Saramago, A Viagem do Elefante, Lisboa, Editorial Caminho, 2008, pp. 241-242.



sexta-feira, 2 de novembro de 2018

FÓRUM DO FUTURO 2018

POESIA DE LUÍSA CORDEIRO (32)


“Qual…”

Qual deles é o maior,
o canto ou a cigarra…?
Qual deles te encanta mais,
o Fado ou a guitarra…?
E qual deles o mais belo
e te acaricia o rosto,
o ouro da alvorada
ou o doce sol posto…?

Nenhum sem o outro
poderia existir,
tal como a Esperança mora
no incógnito devir…