Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

DA SAUDADE V

Miranda, John William Waterhouse, 1875
Imagem daqui.
 

“XII
SAUDADE
Séculos são, na vida que enfastia,
Estes dias de exílio amargurados;
Um por um, mágoa a mágoa, vão contados
Em lenta e cruelíssima agonia.
Oh! roubemos-lhe ao menos este dia,
Ao padecer que todos traz roubados
Sejam pela amizade consagrados
Ao casto amor instantes de alegria.
Tem prazeres também a desventura:
A própria carrancuda adversidade
Sorri coa esp’rança que lhe luz futura.
Vem, amigo, no seio da amizade
Festeja a esposa, sonha coa ventura
Que um dia há-de matar tanta saudade.”
 
Londres – 1828
Obras de Almeida Garrett, Vol. I, Porto, Lello & Irmão Editores, s.d., p.1722.


NA ESCOLA ... DE NOVO NO AR

Cartaz da autoria de alunos do Núcleo da Rádio

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

OSCAR NIEMEYER

Imagem daqui.
 
Oscar Niemeyer.    Brasileiro.    Arquiteto.    1907-2012.
 
 

LAZARILHO DE TORMES

"El Garrotillo", de Francisco Goya (1746-1828) - identificado com uma cena do Lazarilho de Tormes.
Imagem daqui.


“TRATADO I
LÁZARO CONTA A SUA VIDA E DE QUEM É FILHO
Saiba, pois, vossa mercê, antes de tudo o mais, que me chamam Lázaro de Tormes, filho de Tomé Gonçalves e de Antónia Peres, naturais de Telhares, aldeia de Salamanca. Nasci dentro do rio Tormes, pelo que dele tomei o sobrenome. E assim foi. O meu pai (que Deus lhe perdoe!) tinha o cargo de alimentar o moinho duma azenha, que há na margem daquele rio, na qual foi moleiro mais de quinze anos. E estando a minha mãe uma noite na azenha, grávida de mim, vieram-lhe as dores do parto e pariu-me ali. De modo que com verdade me posso considerar nascido no rio.
Ora, sendo eu menino de oito anos, atribuíram ao meu pai certas sangrias abusivas que apareceram nos costados dos sacos que ali levavam para moer, e por isso foi preso, e confessou e não negou, e sofreu castigo da justiça. Espero em Deus que esteja em glória, porque o Evangelho lhes chama bem-aventurados. Nesse tempo organizou-se uma expedição contra os mouros, e nela foi o meu pai, que então estava desterrado por via do desaire de que falei, com o cargo de azemeleiro de um cavaleiro que foi na expedição. E com o seu senhor, como leal criado, se extinguiu a sua vida.
Minha viúva mãe, como se visse sem marido nem amparo, decidiu encostar-se aos bons para ser um deles, e veio viver para a cidade (…)”
Lazarilho de Tormes, trad. de Arsénio Mota, coleção Os Clássicos Espanhóis, Barcelos, Livraria Civilização Editora, 1977, pp.19-20.

O SEGREDO DE BARCARROTA

Edição de El Lazarillo de Tormes, Medina del Campo (Valladolid), 1554.
Um dos "achados" de Barcarrota.
Imagem daqui.
 

“PRÓLOGO
Barcarrota é uma pacata e simpática vila a meio caminho entre Badajoz e Zafra, a uma mirada apenas da raia portuguesa.
Barcarrota tem um antigo castelo adaptado para praça de touros e para cinema ao ar livre no Verão, com uma torre de menagem de onde se podem vislumbrar lonjuras e azulejos na entrada celebrando os feitos de antigos matadores.
Barcarrota tem um pequeno casino em Arte Nova, no qual, porém, dificilmente imaginamos fortunas perdidas nos vícios da sorte e do azar.
Barcarrota tem uma igreja a que chamam de Nuestra Señora del Soterraño, onde retábulos barrocos marianos se misturam com Cristos góticos, como se quisesse dar a entender que mãe e filho se entrecruzam nos caminhos de estilos tão diferentes.
Barcarrota tem uma igreja a que chamam de Santiago, cujas grossas paredes românicas evocam memórias sarracenas e recordações romanas. Outras gentes…
Barcarrota tem ruelas medievais que cheiram ainda a judiaria, com arcos e casas brancas e restos de portas que outrora se deviam cerrar ao fim das tardes. Era a lei…
Barcarrota tem orgulho em ser o berço de Hernando de Soto, explorador das Américas, e até lhe ergueu uma estátua em bronze…
(o cavaleiro)
… e em ferro forjado
(o cavalo)
… pois é dever de boa terra homenagear os seus melhores filhos.
Barcarrota tem fontes, praças e pilares, escudos e arcos, cruzeiros, memórias e janelas gradeadas e tem hoje praticamente tantos habitantes como há cinco séculos. Aqui, de resto, nada de muito estranho ou de extravagante acontece, sendo esse, aliás, um dos seus maiores encantos.
Porém, em 1992, quando o pedreiro António Perez abriu uma parede de uma casa ancestral no centro da vila, um segredo com quase quinhentos anos caiu nos braços da pacata e simpática vila.
E Barcarrota não voltou a ser a mesma.”
Sérgio Luís de Carvalho, O Segredo de Barcarrota, Alfragide, Oficina do Livro, 2011, pp.11-12.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

CAMILO CASTELO BRANCO: SOBRE O ESPIRITUOSO

Camilo Castelo Branco, por Mário Santos, 1917
O artista utilizou como base do retrato o documento fotográfico, uma vez que Camilo se suicidou a 1 de junho de 1890. O pintor escolheu uma fotografia – rara, aliás – em que Camilo aparece sem o seu inseparável “pince-nez”.
 

 
“Ordinariamente, chamam-se, à francesa, «espirituosos» uns sujeitos dotados de génio motejador, aplaudidos com a gargalhada, e aborrecidos àqueles mesmos que os aplaudem. São os caricaturistas da graciosidade.
O «espirituoso», à moderna, abrange os variados ofícios que, antes da nacionalização daquele estrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de casa, outros importados: chocarreiro – trejeiteador – arlequim – palhaço – proxinela – polichinelo – maninelo – truão – jogral – goliardo – histrião – farsista – farsola – vejete – bobo – pierrot – momo – bufão – folião, etc.
Esta riqueza de sinonímia denota que o «bobo» medieval bracejou na Península Ibérica vergônteas e enxertias em tanta cópia que foi preciso dar nome às espécies.
Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga «jogralidade», que era mester vil, acendrada nos secretos crisóis do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espírito», e com o foro maior da faculdade poderosa, cáustica, implacável. (…)
Há poucos meses, faleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta anos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rossio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivera aventurosamente uns setenta anos tingidos com primoroso pincel, descontavam nestes defeitos a sua imensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anedotas.
Averiguado o «espírito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira política, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a pena e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobrevivente para vinte e quatro horas – nem o terá aqui –, orça a maioria dos jograis que tenho visto, nos últimos trinta anos, esburgar o osso da facção que lhes alquila o engenho detraidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das risadas.
O satírico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o político; mais funesto porque vulnera melindres – coisa que o caloso peito da política não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apegou aqui, nem se adelgaça à feição da nossa índole, bem acentuada nas chocarrices plebeias de Gil Vicente e António José.
É mais funesto, repito; porque me ocorre hoje, regressando das Caldas de Vizela, uma história funestíssima de que só eu posso lembrar-me. Duas chalaças terçadas entre dois amigos cavaram sepulturas de vidas e honras. Se as novelas pudessem ensinar alguma coisa, corrigindo aleijões da alma, eu pediria aos gracejadores que lessem isto; e, nas ocasiões em que a língua lhes descabe na boca, engrossada pela opilação da dicacidade, a refreassem com os dentes. (…)”
Camilo Castelo Branco, “Gracejos que Matam”, in Novelas do Minho, Lisboa, Bertrand Editores, 2009, pp.21-22.

NOVO NA BE


Nós Portugueses é um projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em parceria com a RTP, elaborado a partir dos dados da Pordata.
Os sessenta programas apresentados diariamente no Telejornal, entre outubro e dezembro de 2011, foram gravados num único DVD, que a Fundação Francisco Manuel dos Santos, através da Rede de Bibliotecas Escolares, ofereceu às escolas secundárias do país.
Este DVD constitui um recurso pedagógico útil para o conhecimento da realidade portuguesa e da sua evolução em diversas áreas: Educação, Saúde, Famílias, Empresas, Emprego, População, Contas Nacionais, Contas do Estado, Ciência, Cultura, Ambiente, Justiça, e, ainda, um ponto de partida para o aprofundamento de pesquisa em outras fontes, nomeadamente, no sítio da Pordata .

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

ANTERO DE QUENTAL - Causas da Decadência dos Povos Peninsulares III

Retrato de Antero de Quental, Cruz Caldas, 1950?
 

“No princípio do século XVII quando Portugal deixa de ser contado entre as nações, e se desmorona por todos os lados a monarquia anómala, inconsistente e desnatural de Filipe II; quando a glória passada já não pode encobrir o ruinoso do edifício presente, e se afunde a Península sob o peso dos muitos erros acumulados, então aparece fraca e patente por todos os lados a nossa improcrastinável decadência. Aparece em tudo; na política, na influência, nos trabalhos da inteligência, na economia social e na indústria, e como consequência de tudo isto, nos costumes. A preponderância, que até então exercêramos nos negócios da Europa, desaparece para dar lugar à insignificância e à impotência. (…) Em Portugal, é a influência inglesa, que, por meio de cavilosos tratados, faz de nós uma espécie de colónia britânica. Ao mesmo tempo as nossas próprias colónias escapam-nos gradualmente das mãos: as Molucas passam a ser holandesas; na Índia lutam sobre os nossos despojos holandeses, ingleses e franceses; na China e no Japão desaparece a influência do nome português. Portugueses e espanhóis, vamos de século para século minguando em extensão e importância, até não sermos mais do que duas sombras, duas nações espectros, no meio dos povos que nos rodeiam!... (…) Por isso decai também a vida económica: a produção decresce, a agricultura recua, estagna-se o comércio, deperecem uma por uma as indústrias nacionais; a riqueza, uma riqueza faustosa e estéril, concentra-se em alguns pontos excepcionais, enquanto a miséria se alarga pelo resto do país: a população, dizimada pela guerra, pela emigração, pela miséria, diminui de uma maneira assustadora. Nunca povo algum absorveu tantos tesouros, ficando ao mesmo tempo tão pobre!”
Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, discurso pronunciado na noite de 27 de maio [1871], na Sala do Casino Lisbonense, Lisboa, Guimarães Editores, 2001, pp.25-26.