Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

NOVO NA BE


Livro de divulgação das histórias e tradições da Freguesia, da autoria de Heitor Baptista Pato. Oferecido à Biblioteca da ESJS por Rui Maximiano, Presidente da Junta de Freguesia de Almargem do Bispo.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA

José Tolentino de Mendonça, Machico, Madeira, 1965
Imagem daqui.

 
“DA VERDADE DO AMOR

Da verdade do amor se meditam
relatos de viagem confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito


pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
 
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor”

José Tolentino de Mendonça, Baldios, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999.

 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

DIA DA INTERNET SEGURA 2013


O Dia da Internet Segura, que todos os anos acontece em fevereiro, assinala-se hoje, embora as atividades decorram ao longo de duas semanas (4 a 18 de fevereiro).
Com o objetivo de promover uma utilização mais segura e responsável das tecnologias online, especialmente entre as crianças e jovens em todo o mundo, a organização internacional escolheu como tema aglutinador: "Os direitos e as responsabilidades na Internet : liga-te, mas com respeitinho".
Para participar e conhecer as iniciativas em Portugal, consulte: http://www.seguranet.pt/semana2013

UMAR-I KHAYYĀM

Pintura persa
Imagem daqui.


"26


Oh, amigo, não te apoquentes com os enigmas da vida,
Não aflijas o teu coração com os pensamentos vãos.
Goza a vida porque quando se fez este mundo,
Não foste convidado para o aconselhar."

Umar-i Khayyām, Rubā’iyat, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p.46.


Excerto da apresentação da obra, por Maria Aliete Galhoz:
“Pela primeira vez se apresenta em Portugal uma antologia de «ruba’i»s (quartetos) do poeta astrónomo e matemático persa Umar-i Khayyām (1048-1132, d.C.) traduzidos a partir do texto original impresso Ruba’yati Umari Kayyam, edições Adib (Tājikistān), 2000.
A antologia é bilingue, contém os textos em persa e a respectiva tradução em português. Trata-se de uma selecção de 51 quartetos da responsabilidade total de Halima Naimova (…).
É consensual que o «corpus» de «ruba’i»s de Umar-i Khayyām, fixado o seu título no plural colectivo «Rubā’iyat» («Quadras»), pertence ao património cultural da humanidade. A sua fortuna editorial é imensa e «quasi» universal pelas inúmeras línguas em que está traduzido, havendo, até, uma colectânea de tradução na língua artificial esperanto.”

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

AQUISIÇÕES RECENTES



Aquarium Decorating and Planning, Wilfried Weigel

A Vida de Cleópatra, Auguste Bailly

Biblioteca da Matemática Moderna, António Marmo de Oliveira

Dolores, Jacqueline Susann

Educação e Política (volume II), Albano Estrela e Júlio Ferreira (org.)

 Maria Stuart, Stefan Zweig

O Retorno, Dulce Maria Cardoso

Os Bórgias, J. Lucas-Dubreton 

O Vermelho e o Negro II, Stendhal

Spartacus, Howard Fast

Três Vidas, Máximo Gorki

Youth Sports - Growth, Maturation and Talent, Manuel J. Coelho e Silva

LEÃO, O AFRICANO

Cairo, maio de 2010
 

 
"Enfim, o Cairo!
Em nenhuma outra cidade esquecemos tão depressa que somos estrangeiros. Mal chega, o viajante é arrastado pelo turbilhão dos boatos, das histórias, das caretas indiscretas. Cem desconhecidos o abordam, falam-lhe ao ouvido, tomam-no como testemunha, agarram-no pelo ombro para melhor provocarem as pragas ou os risos que esperam. A partir daí, está dentro do segredo, detém o início de uma história fabulosa, é-lhe necessário conhecer a continuação, nem que tenha de ficar até à próxima caravana, até à próxima festa, até à estação das cheias. Mas, desde logo, começa uma nova história.
Nesse ano, quando desembarquei estafado e exausto, a uma milha da minha nova morada, toda a cidade, apesar de ferida de morte pela peste, troçava sem entraves do «augusto olho», o do monarca, entenda-se. O primeiro vendedor de xarope, adivinhando a minha ignorância e deleitando-se com ela, considerou seu dever esclarecer-me, detendo todos os negócios, afastando com ar desdenhoso os seus sequiosos clientes. A história que me contaram mais tarde nobre e mercadores em nada diferia da deste homem. (…)
O meu interlocutor tinha acabado de me oferecer um cálice de xarope de rosas e propôs-me que me sentasse sobre uma caixa de madeira, o que eu fiz. Em redor de nós, já não havia qualquer ajuntamento. (…)
Mesmo na véspera da minha chegada ao Cairo, boatos de uma conspiração percorriam a cidade. Tinham, naturalmente, chegado aos ouvidos do sultão, que decretara um recolher obrigatório do crepúsculo até à alvorada.
- É por isso que – terminou o vendedor de xarope apontando-me o Sol no horizonte – se a tua casa é longe é melhor correres, porque dentro de sete graus qualquer pessoa que for encontrada na rua será flagelada em público até sangrar.
Sete graus era menos de uma meia hora. Olhei em meu redor. Não havia senão soldados, em todos os cantos das ruas, que olhavam nervosamente para os lados do pôr do Sol. Não ousando nem correr nem perguntar o caminho, com medo de parecer suspeito, contentei-me em caminhar ao longo do rio, apressando o passo (…).
Dois soldados vinham ao meu encontro, com passos e olhares inquiridores, quando vi um caminho à minha direita. Meti-me por ele sem um momento sequer de reflexão, com a curiosa impressão de o ter percorrido todos os dias da minha vida.
Estava em casa. O jardineiro estava sentado no chão diante da porta, com o rosto fechado. Saudei-o com um gesto e agarrei ostensivamente nas minhas chaves. Sem uma palavra, ele afastou-se para me deixar entrar, não parecendo de forma alguma surpreendido por ver um desconhecido penetrar assim na morada do seu senhor. A minha certeza havia-o tranquilizado. Senti-me mesmo assim obrigado a explicar-lhe a razão da minha presença, retirei do bolso o documento assinado pelo copta. O homem não o olhou. Não sabendo ler, confiou em mim, retomou o seu lugar e não se mexeu mais.”
Amin Maalouf, Leão, o Africano, Bertrand Editora, 2000, pp.277-279

 
Pode ler-se nas badanas do livro:
“Esta autobiografia imaginária parte de uma história verdadeira. Em 1518 um embaixador magrebe, ao regressar de uma peregrinação a Meca, é capturado por piratas sicilianos que o oferecem de presente a Leão X, o grande Papa da Renascença. Este viajante chamava-se Hassan-al-Wazzan. Veio a tornar-se Jean-Léon de Médicis, chamado Leão, o Africano.
Assim, depois de ter vivido em Granada, sua cidade natal, em Fez, em Tombuctu, no Cairo, em Constantinopla, Leão passa vários anos em Roma, onde ensina árabe, escreve a parte hebraica de um dicionário poliglota, e redige, em italiano, a célebre Descrição de África que, durante quatro séculos, se mantém o livro de referência essencial para o conhecimento do continente negro. Mas, mais fascinante ainda do que a obra de Leão, é a sua vida, a sua aventura pessoal, em que pontuam os grandes acontecimentos do seu tempo: durante a Reconquista encontrava-se em Granada, de onde teve que fugir à Inquisição, acompanhado da família; encontrava-se no Egipto aquando da sua tomada pelos Otomanos; encontrava-se na África negra durante o apogeu do império de Askia Mohamed Touré; encontrava-se por fim em Roma durante as mais belas horas da Renascença, bem como no momento do saque da cidade pelos soldados de Carlos V.
Homem do Oriente e do Ocidente, homem de África e da Europa, Leão, o Africano é, de certa maneira, o antepassado da humanidade cosmopolita de hoje. (…)
Nascido no Líbano em 1949, Amin Maalouf vive em Paris desde 1976. (…)”


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

SUGESTÃO DE LEITURA (32)

MIA COUTO E OS SETE SAPATOS SUJOS
 
 Em 2006, Mia Couto recebeu um convite para proferir uma "oração de sapiência" no ISCTEM, em Maputo. Conhecedor da realidade sociológica e económica de Moçambique, escolheu para tema da sua lição o combate à pobreza e os preconceitos que impedem a entrada num mundo moderno.

E Se Obama Fosse Africano? e Outras Interinvenções  resulta da sua participação em encontros públicos. São textos de reflexão que abordam temas como a política, a literatura, a cultura, a antropologia, entre outros.

No capítulo intitulado "Os Sete Sapatos Sujos",  o autor refere que " (...) Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que precisamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos. (...) "  (pág. 33)
Em suma, um conjunto de ideias e atitudes que impedem o desenvolvimento e a justiça social de muitos povos.

Aqui fica um excerto:

Sétimo sapato: A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros
 
Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser nós quem acredita estar vivendo fora, dançando nos braços de Janet Jackson. O que os vídeos e toda a subindústria televisiva nos vêm dizer não é apenas «comprem». Há todo um outro convite que é este:«sejam como nós». Este apelo à imitação cai como ouro sobre azul: a vergonha de sermos quem somos é um trampolim para vestirmos esta outra máscara.
O resultado é que a nossa produção cultural se está convertendo na reprodução macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa música poderá ser uma espécie de hip-hop tropical, o destino da nossa culinária poderá ser o McDonald's.
Falamos de erosão dos solos, de desflorestação, mas a erosão das nossas culturas é ainda mais preocupante. A secundarização das línguas moçambicanas (incluindo da língua portuguesa) e a ideia de que só temos identidade naquilo que é folclórico são modos de nos soprarem ao ouvido a seguinte mensagem: só somos modernos se formos americanos.
A nossa sociedade tem uma história similar à de um indivíduo. Ambos os percursos são marcados por rituais de transição: o nascimento, o fim da adolescência, o casamento, o fim da vida.
Olho a nossa sociedade urbana e pergunto-me : será que queremos realmente ser diferentes? Porque vejo que esses rituais de passagem se reproduzem como fotocópia fiel daquilo que sempre conheci na sociedade colonial. Estamos dançando a valsa, com vestidos compridos, num baile de finalistas que é decalcado daquele do meu tempo. Estamos copiando as cerimónias de final de curso a partir de modelos europeus da Inglaterra medieval. Casamo-nos de véus e grinaldas e atiramos para longe da Avenida Julius Nyerere tudo aquilo que possa sugerir uma cerimónia mais enraizada na terra e na tradição moçambicana.
 
COUTO, Mia - E Se Obama Fosse Africano? e Outras Interinvenções. Lisboa: Editorial Caminho. 2009. 214 p. ISBN 978-972-21-2023-4

Para continuar a ler, requisite o livro na BE.


DA ARTE E DA BELEZA


Anunciação, Fra Angelico, 1433-1434
Imagem daqui.



“«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»
                Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
                Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de descrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne, Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
                Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar – mas será involuntariamente? – bons sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
                No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
                Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
                A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.”
Adília Lopes, Dobra, Poesia Reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, pp. 601-602.