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Escola Secundária José Saramago - Mafra

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

PORTUGAL, OS JESUÍTAS E O JAPÃO - crenças espirituais e bens materiais




Imagens daqui.

Desde sábado, 16 de fevereiro, e até 2 de junho de 2013, está patente, no Museu McMullen de Arte do Boston College (EUA), a exposição intitulada Portugal, os Jesuítas e o Japão: Crenças Espirituais e Bens Materiais.
Nesta mostra ver-se-ão reunidas 70 peças da arte Namban pertencentes a instituições e a colecionadores privados dos Estados Unidos da América, de Portugal, da Grã-Bretanha e do Brasil.
 
 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

PROVÉRBIOS MEDIEVAIS

Pieter Brueghel, O Jovem, Os Provérbios
Imagem daqui.


Provérbios burlescos
 

(…) O que suscita o riso é, antes de mais, a comparação com animais, sobretudos os domésticos. Destes, a primazia vai para o asno, depois para o gato, o perro ou cão, a galinha, o porco ou bácoro, o boi, a mosca, o piolho, o rato. Nos outros animais, surgem com algum relevo a raposa e o lobo, o boi, o abutre, o bode, o carneiro e o borrego. Logo se nota que os provérbios dão conta da vida dos homens no interior da casa e se situam num cenário doméstico. Mesmo a raposa e o lobo surgem como símbolos das forças externas que ameaçam a casa. A companhia dos animais na lavoura, no pastorio ou na caça inspira afinal poucos adágios. Por outro lado, e isto parece-me ainda mais significativo, as metáforas pressupostas têm quase sempre sentido burlesco. Na maioria dos casos o animal designa o homem ou a mulher: o galo e o lobo referem-se a ele; a galinha, a raposa, a loba, a cabra, a sardinha apontam-na a ela.

Pelo contrário, o asno, o gato, o cão, o bácoro e o porco têm um sentido peculiar. O asno é como que uma espécie de prolongamento do proprietário e que, por isso mesmo, exprime a forma de agir simultaneamente habitual e ridícula do seu dono, as suas posições irredutíveis e que a pressão social ou as regras morais não conseguem vencer. Assim no célebre «Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube», ou no «Asno morto, cevada ao rabo». Mas a polissemia é, muitas vezes, mais rica. Assim, em «Asna velha, cinta amarela», a escolha do feminino dá um tom mais cómico à frase e torna o significado extensivo não apenas ao dono mas à própria mulher. O gato serve de metáfora para designar o indivíduo desconfiado «Gato escaldado…» ou arisco e irritável «Daí vem a tosse ao gato». De qualquer maneira, a intimidade com os animais faz deles bom espelho do homem do povo. Sem reivindicar a sua superioridade de ser racional, o homem do povo compara-se facilmente com eles, a si e à sua mulher; o comportamento animal serve-lhe, sem problemas, para definir as suas qualidades ou defeitos, escolhendo, de preferência, as situações cómicas.

O tom burlesco surge em segundo lugar, para falar do clero ou religião, dos médicos, dos estrangeiros, das donas, dos senhores e homens-bons e mesmo do demónio. (…) O riso é, obviamente, subversivo. O seu tom nem sempre é agressivo, mas escarninho ou astucioso. (…) Dos estrangeiros, os que chegam às aldeias são os beberrões e marginais, decerto mercadores ou mercenários: «Bem canta o francês, molhado o papo». Mas também ensinam, astuciosamente, a lidar com os senhores exigentes: «A senhor arteiro, servidor ronceiro»; «Com teu amo não jogues as pêras, que ele come as maduras e dar-te-á as verdes». (…)

Parece-me importante sublinhar o papel das mulheres de idade na criação e transmissão de cultura popular: inventam os provérbios e os contos, citam-nos ou contam-nos à lareira, para crianças e adultos, mas, como sabem que não têm um papel claro na tomada de decisão das famílias ou das comunidades, falam humoristicamente do seu lugar secundário, mas imprescindível, e de um bem conhecido jeito para tirarem partido da sua própria fraqueza, valorizando a experiência, a persistência, e mesmo a importância económica do seu trabalho lento mas eficaz. Com ar escarninho, devolvem as ironias dos jovens invocando o seu sentido prático e a sua independência face aos preconceitos sociais. Sabem que constituem, afinal, um importante suporte para a comunidade e a sua reprodução, assegurando a transmissão das subtis regras da sabedoria popular às novas gerações. (…)

Descobrimos, assim, por meio dos refrãos, a enorme complexidade das sociedades rurais. (…) Por detrás delas, estão mecanismos ocultos onde, pelo menos ao nível da prática, intervêm as mulheres, e mesmo as de idade, a quem é cometido o papel de transmitirem as fórmulas condensadoras do saber colectivo e de ditarem os limites dentro dos quais se devem pôr em prática as regras estabelecidas, tendo em conta o seu carácter relativo e teórico. (…)

O riso, o sarcasmo, o burlesco servem, portanto, ao vilão quer para exprimir a importância que o corpo, os animais e a casa têm na sua cultura, quer para relativizar as hierarquias sociais, as normas de respeito devido, até, às autoridades do lugar (os homens-bons) e da família (os velhos, os parentes, os compadres e comadres). É, como salienta Bakhtine, a forma de defesa das classes dependentes, rurais ou urbanas, perante a dominação das classes superiores. É a arma possível quando não se pode recorrer à revolta aberta. Não cultivam a agressão, mas a diferença.”

José Mattoso, O Essencial sobre os Provérbios Medievais Portugueses, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987, pp.11-17.

AQUISIÇÕES RECENTES


DIOGO, José–Manuel – Steve Jobs.  Oeiras: Levoir. 2012. 126 p. ISBN 978-989-682-286-6 

ESQUIVEL, Laura – Como Água para Chocolate. Porto: Asa Editores II. 2002. 22.º ed. 229 p. ISBN 972-41-1198-9

Fado  – Património da Humanidade - Portugal 2011. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa. 2011. 41 p.

GIL, José – Portugal, Hoje: O Medo de Existir. Lisboa: Relógio d’Água. 2005. 5.ª ed.  142 p. ISBN 972- 708-817-1

MATOS, Artur Teodoro de; COSTA, João Paulo Oliveira e; CARNEIRO, Roberto – Cronologia da Monarquia Portuguesa. Maia: Círculo de Leitores. 2012. 494 p. ISBN 978-972-42-4823-3

PATO, Heitor Baptista – Almargem do Bispo: História e Tradição. Almargem do Bispo: Junta de Freguesia de Almargem do Bispo. 2012. 296 p. ISBN 978-989-20-3150-7

PEREIRA, Paulo (dir.) -  História da Arte Portuguesa 10. Rio de Mouro: Círculo de Leitores. 2008. 183 p. ISBN 978-972-42-3963-7

SÓFOCLES, Édipo Rei. Lisboa: Editorial Inquérito. 1988. 5.ª ed. 83 p.

WALTHER, Ingo F.; METZGER, Rainer – Marc Chagall 1887-1985: Poesia em Quadros. Berlim: Taschen. 1999. 95 p. ISBN 3-8228-04886-6

WHITE, Ellen G. – Como Encontrar a Paz Interior. Lisboa: Edições Une. 2007. 142 p. ISBN 978-972-99908-4-7

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

DIA DOS NAMORADOS II


 

DIA DOS NAMORADOS I

Imagem: Institut Français (Portugal) / Alliance Française

O PRIMEIRO AMOR

"Amor", Alejandra Karageorgiu
 Pinzellades al món

(...) O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói - porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre de mais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós . Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. (...)
(...) Afinal nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. (...) Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».
É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro.
 
CARDOSO, Miguel Esteves -  O Primeiro Amor. In Os Meus Problemas. Lisboa: Assírio & Alvim. 1988. 2.ª ed. 225 p.
 
Livro disponível na BE.
 

O AMOR É PORTUGUÊS

Soror Mariana Alcoforado, Matisse (1946)
Imagem daqui.


 

“5- Da supervivência do Amor (Dom Pedro e Dona Inês)

Supervivência tanto significa intensidade, vivência superlativa, como superação da morte, vida perene.

Um mito de fatalidade amorosa, que é céltico, foi renovado, em termos trans-sociais e transcendentes, por dois amantes, um príncipe de Portugal e uma fidalga da Galiza. Sequência trágica, a dos amores entre altos personagens de uma e de outra banda do Minho (Rainha Dona Tareja – Fernão Pérez de Trava; Príncipe Dom Pedro – Dona Inês de Castro; Rainha Dona Leonor de Telles – Conde de Andeiro).

Sobremaneira fatal, irregular e trágico foi este. O príncipe, uma vez rei, desenterrou o corpo da amada, reabilitou loucamente, pomposamente, o seu amor, entronizando rainha de Portugal, com as devidas honras aquela que seu coração elegera e lhe ficara impressa para sempre no pensamento e na carne.

E nos túmulos de pedra lavrada, ao Juízo Final se entrega o mais fervoroso, o mais louco arrebatamento de todos os tempos.

A história e lenda de Inês de Castro exprime a importância absorvente que tem o amor na existência do nosso povo. Segundo D. Francisco Manuel de Melo, era notória a índole amorosa do português, e Jorge Ferreira de Vasconcelos faz dizer a uma personagem da Eufrosina que o amor é português. A poesia de amor na língua pátria é copiosa e inconfundível. Também a prosa está enxameada com documentos dessa inebriante absorção.

As expressões mais altas, mais típicas do amor português estão em D. Diniz, Camões, Bernardim, Cristóvão Falcão, Tomaz Gonzaga, Florbela, Pascoaes (elegia do amor), etc….

Tem valor para o caso a fala do Cardeal na Ceia de Júlio Dantas.

As cartas de Soror Mariana, a despeito das ressalvas que se lhes faça quanto à autoria, constituem dos testemunhos mais impressionantes do amor português.

O nosso romantismo é de raiz: por isso precede séculos o chamado movimento romântico, excedendo-o até aos nossos dias, tanto em Portugal como no Brasil.

O lema camoniano da linda Inês a cada passo renasce em nossa literatura, feito motivo perene.”

Publicado em O que é o Ideal Português, Lisboa, Edições Tempo, 1962
F. Cunha Leão, Do Homem Português, Lisboa, Guimarães Editores, 2007, p. 89.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

DESARREZOADO AMOR - Sá de Miranda

Imagem daqui.
 
 
 
“Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
Tudo o que quer, a torto e a direito.


Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.


Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:
 
Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata treições, que nem confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?”

Sá de Miranda, Poesia e Teatro, introdução, selecção e notas de Silvério Augusto Benedito,
Editora Ulisseia e Editorial Verbo, 2005, pp.209-210.