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Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

quinta-feira, 7 de março de 2013

CINCO BOAS RAZÕES PARA LER LLANSOL

1. Para perceber que a dimensão «gregária» (social), ou a psicológica, que dominam hoje as nossas vidas, nem sempre são as mais importantes, e que a «literatura» (que identificamos quase sempre com o romance realista e social) não existe, ou não tem lugar hoje, se for máquina de produzir narrativas sempre iguais e derrames psicológicos esgotados.

2. Para compreender como nós, humanos, não somos o centro de uma cadeia hierárquica, mas um elo na «grande cadeia do Ser» (já Shaskespeare ou Dante têm de ser lidos a esta luz). E que temos a enorme responsabilidade de assumir um contrato com o Vivo (que vem de Espinosa e deveria ir dar hoje ao protocolo de Kyoto e às políticas do ambiente!) . Isto é actualíssimo, num momento em que o planeta está claramente ameaçado! E actualíssima é também a pergunta, daí derivada: o que é o humano? (depois do fim de todos os humanismos), pergunta central em Llansol. Quem chega a encontrar a resposta, lendo-a e insistindo na leitura, muda de vida.

3. Para entender que o mundo não é o que ingenuamente julgamos que ele é, mas existe sempre «em dobra»; que ele é o «desconhecido que nos acompanha» e produz o novo que transforma; que há o visível e o invisível, e que este não é metafísica, mas resulta de olhar o concreto e sentir a potência de um corpo: estamos perante um hiper-realismo da matéria, do carbono, da energia vital de onde tudo nasce! É este o combustível da linguagem de Llansol, são estes os temas dos seus livros, e não as estafadas histórias das vidinhas pessoais ou colectivas.

4. Para termos o prazer de reaprender a ler, e perceber o que é ser «legente» e não simples leitor. Porque esta aprendizagem pode ser um prazer, tal como escrever o era para Llansol, uma escritora cuja Obra nasceu da superação do medo, do poder de decisão próprio, de uma escolha da via do isolamento e da «despossessão» (que criou uma comunidade na diáspora, a única possível para ela, que não se confunde com nenhuma espécie de seita nem partido, e que hoje é grande, apesar de não parecer). E isto inclui a despossessão da própria noção de «autor», que Llansol rejeitava, porque nela não há nem posse, nem autoridade.
Por isso, toda a Obra coloca uma exigência única e dupla : reaprender uma estética (do fulgor da palavra e da língua sem impostura) e aceitar uma ética (não de grupos, não social, mas a da liberdade de consciência , a dos esquecidos da História na «geografia de rebeldes» da Europa que os seus livros percorrem desde a Idade Média, a dos inteiros e intensos): é esta a etistética ou a sensualética de Llansol.
 
5. Finalmente, e de um ponto de vista mais exterior: porque é uma escritora que escreveu, só escreveu, escreveu sempre intensamente , como muito poucos: «escrever é o duplo de viver» (e vice-versa: a escrita é uma pulsão vital). Isso está hoje patente no imenso espólio que deixou, manancial para muitos mais livros por vir... e que virão brevemente.

JOÃO BARRENTO
CINCO BOAS RAZÕES PARA LER LLANSOL
 

quarta-feira, 6 de março de 2013

FESTIVAL LITERÁRIO DE MACAU

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Entre os dias 10 e 16 de março de 2013 decorrerá a segunda edição da Rota das Letras - Festival Literário de Macau, reunindo, no mesmo evento, o português e o chinês, e contando com a participação de escritores, editores, tradutores, jornalistas, músicos, cineastas e artistas plásticos.
 
Todas as informações poderão ser encontradas aqui.

JOANA VASCONCELOS NO PALÁCIO NACIONAL DA AJUDA

Imagem daqui.
 
 
A partir do dia 22 de março de 2013, estará patente, no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, a exposição de Joana Vasconcelos que pôde ser visitada em Paris, no Palácio de Versalhes, em 2012.
 
Fonte: Diário de Notícias

terça-feira, 5 de março de 2013

D. LUÍS DA CUNHA

D. Luís da Cunha, por João Maria Caggiani (1842)
Imagem daqui.


Por ocasião da recente edição crítica do Testamento Político ou Carta de conselhos ao Senhor D. José sendo Príncipe,  da responsabilidade de Abílio Diniz Silva, com a chancela da Biblioteca Nacional de Portugal, apresentamos um excerto da mencionada carta, da autoria de D. Luís da Cunha.

Este diplomata português, que nasceu em Lisboa em 1662, vindo a falecer em Paris, em 1749, formou-se em Cânones pela Universidade de Coimbra e foi um reconhecido homem do seu tempo, desempenhando uma importante missão fora de portas. Citando Abílio Diniz Silva, D. Luís da Cunha foi um embaixador português que "desde 1697 [viveu] nas Cortes mais ilustradas da Europa (Londres, Haia, Hanôver, Madrid, Paris, Bruxelas)". (p. 32)

Terá sido no ano de 1742 que "D. Luís da Cunha sentiu a necessidade, ou até o dever (...), de redigir uma Carta de Conselhos ao Príncipe D. José, chamando a atenção do futuro rei para os graves problemas que se punham a Portugal, e para as urgentes e necessárias medidas de os resolver. Dever, porque tinha consciência da responsabilidade que lhe cabia por ser o mais antigo ministro em exercício, e pelo prestígio que lhe dava a sua longa carreira diplomática, durante a qual observou com lucidez os problemas dos países europeus que conheceu, e reflectiu nas soluções que neles encontrou para a resolução das dificuldades de Portugal. Soluções que nalguns casos ele sabia serem demasiado ousadas, contrariando interesses e ideias estabelecidas, e que pela sua contundência transformaram o Testamento num importante libelo reformador."(p. 28)



“(…) O que logo salta aos olhos é que Portugal não tem, nem frutos nem géneros, para se permutarem com os que nos entram de fora, não só quanto à qualidade, mas também quanto à quantidade e variedade. E para prova do que digo, não falarei nos géneros da desigualdade do comércio que temos com Castela, em prejuízo de Portugal, porque de todos é bem sabida, estando à porta; mas ajunto a lista dos frutos e géneros que os estrangeiros tiram de Portugal, e o que nele introduzem, como por exemplo:
Os Franceses tiram de Portugal, couros em cabelo, pau do Brasil, laranjas, limões, azeite, sumagre, marfim, lãs, amêndoas, figos, passas, peixe salgado, presuntos, óleo de copaíba, salsaparrilha, azeite de baleia, vinhos de Portugal, da Madeira, sabão de todas as castas, melaço, açúcar, tabaco do Brasil, casquinha, cravo do Maranhão, sebo, cacau, baunilha e paus para tintas.
É de reparar que os Franceses sempre foram aumentando os direitos da entrada dos ditos frutos e mercadorias, desde o ano de 1664, sem que usássemos da represália, como seria justo, levantando-lhes também à proporção os direitos da entrada dos que metem em Portugal, o que lhes seria mais sensível, porque são em muito maior quantidade e de melhor qualidade, a saber: em primeiro lugar, de Paris uma droga a que chamam moda, que vai por toda a Europa, e segundo diz o marechal de Vauban (…) é um dos melhores ramos do comércio de França.
Mandam de Paris, estofos de lã, e barbilhos da fábrica de Paris, luvas de castor e de meio castor, e outras, bastantes chapéus, cabeleiras, boldriés lisos e bordados em ouro e prata, leques de todas sortes, pérolas, sinais, espadins de prata e de cobre, dourados e prateados, botões de cobre dourados e prateados, e em cor, caixas de prata e douradas, algumas de ouro, e de tartaruga, volantes com ouro e prata lavrados, e de todas as cores, castiçais de cobre prateados, jarros, bacias, e outras mais coisas desta natureza, sapatos de homem e de mulher, (…) palatinas de várias sortes, rendas de seda crua, brancas e negras, fivelas de prata, de metal, e de pedras falsas, brincos e girândolas de pedras falsas, (…) véstias bordadas em ouro e prata, meias de seda e bordadas, fitas de ouro e prata da fábrica de Paris, e alguns panos de linho para camisas.
De Lião se manda toda a sorte de primaveras, nobrezas, estofos de ouro e prata, fio de ouro e prata, galões de ouro e prata, abotoaduras do mesmo, boldriés de seda, meias de seda, fitas de ouro e prata, lavradas e lisas. De Ruão, lenços de algodão, várias sortes de estofos do mesmo, panos para vestidos, águas ardentes (ainda que a entrada seja proibida), couros de vitela, calções e luvas de carneira e camurça, vinagres de cidra, caixas de tartaruga, de corno, e óculos. De Saint-Étienne várias sortes de estofos de linho, riscados e lisos. De Amiens, barreganas, camelões, estamenhas e outra sorte de fazendas de lã, e barbilho. (…) De Morlaix e Nantes, bretanhas, esguiões, papel pardo e velas de sebo. Da Flandres francesa, cambraias lisas e lavradas, alguns guardanapos, toalhas e rendas de linhas. (…)
Os Ingleses tiram de Portugal vinhos em grande quantidade, azeite moderadamente, couros da Baía, pau do Brasil, laranjas (…).
Mandam para Portugal panos, estamenhas, droguetes, sarjas, sempiternas, baetas, meias de seda e de lã, chapéus (…) e outras mais coisas.
Os Holandeses tiram de Portugal quase o mesmo que os Ingleses (…).
Metem em Portugal, meias grossas de lã e de fio, panos de Leyde e camelotes, sarjas, veludos, (…) e outras coisas mais.
Pelo que toca ao que sai de Portugal para as nações do Norte, e estas metem em Portugal, não vale a pena de entrar nesta individuação, porque o que elas tiram é muito pouco, e o que metem é por mãos dos Holandeses, (…) e são estes os que fazem o maior ganho, pelas comissões que se lhes mandam.
A respeito do que os Italianos tiram de Portugal, não estou cabalmente instruído, só sei que já foi maior a quantidade dos tabacos e açúcar que sacavam, e que navegam para Portugal muitos veludos, damascos de Génova, outros géneros de sedas, muito papel, e vidros.
À vista pois do referido, se pode fazer um cálculo dos poucos efeitos que temos para permutar com os estrangeiros, e que o excesso lho devemos pagar em dinheiro, o que mais facilmente se pode saber, se se mandar fazer um balanço nas alfândegas, porque dele constará o que sai e o que entra. Mas não posso deixar de dizer que nos direitos de entrada que os estrangeiros pagam, há um grande abuso, porque sobre serem neles favorecidos conforme as ordens de S. Majestade, os que têm na alfândega as suas fazendas, se acordam com os oficiais para lhas avaliarem em menos de metade, o que tenho por confissão dos mesmos mercadores que negoceiam em Portugal. (…)
Estas são as minhas ideias a respeito do sobredito; mas a principal seria examinar quais são as fazendas estrangeiras que poderíamos proibir por totalmente inúteis, as quais podíamos nós mesmos fabricar, para delas não necessitarmos, e quais poderíamos navegar nos nossos navios, tirando-as em direitura dos lugares onde as vão buscar os Holandeses para as mandarem para Portugal.”
Testamento Político de D. Luís da Cunha ou Carta de conselhos ao Senhor D. José sendo Príncipe, introdução, estudo e edição crítica de Abílio Diniz Silva, Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, 2013, pp.122-125.



segunda-feira, 4 de março de 2013

MONTRA DE LIVROS (17)


Exemplares de obras de Maria Gabriela Llansol que podem ser consultados/requisitados na BE:

 Os Pregos na Erva (1962)
 
Finita (1987)
 
Um Beijo Dado Mais Tarde (1990)
 
Lisboaleipzig 1 (1994)
 
Lisboaleipzig 2 (1994)
 
O Começo de Um Livro é Precioso (2008)
 

EM JEITO DE SONETO

Desenho da autoria de Corina Guzun
 
 

Muitas vezes ponho-me a pensar
Que o chão me foge dos pés
E que se revoltam as marés
Que meu amor insiste em penetrar.
 

Não sei o quanto vos posso amar
E não sei o que vós fareis
Mas como no tempo dos reis
Tentar-vos-ei conquistar.
 

Experimentareis vós, ó linda musa,
Com medo, com receio, fugir?
Renegar o sentimento de que meu coração abusa?

 
Querereis vós, expulsando o medo, sentir?
Sereis vós uma verdadeira lusa?
A agonia arde-me por dentro – a dúvida de agir...

Poema de Corina Guzun e de Nuno Silva, Alunos do 10º F, desta Escola.



sexta-feira, 1 de março de 2013

MARIA GABRIELA LLANSOL


A obra e a visão do mundo da escritora, pelos Professores João Barrento e Etelvina Santos.

DA CONCISÃO XVI

Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira (2000)



"Eu tenho por certo que os fins hão-de ser felicíssimos ao nosso reino e nação; mas os meios, antes deles, de igual dificuldade e perigo."


Padre António Vieira, "Carta à Rainha D. Catarina de Inglaterra", 1697, Cartas, III,
coordenadas e anotadas por J. Lúcio de Azevedo, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1971, p. 709.