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Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

TOP LEITORES (2013-2014)

Com base nos registos de leitura domiciliária, a biblioteca elegeu os leitores do 1.º período.


(Alunos do ensino regular e profissional)

1.º Irina Gonçalves, 10.º I

2.º Eva Almeida, 10.º V1

3.º Vitor Vidal, 12.º R3


(Adultos) 

1.º Luísa Maria Torre dos Santos
 
2.º Maria João Cardoso Simões
 
3.º Inácia Lopes
 
 
Parabéns!


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

BELA INFANTA




BELA INFANTA


"Estava a bela infanta
No seu jardim assentada,
Com o seu pente d’oiro fino
Seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava.
- «Dize-me, ó capitão
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava.»
- «Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada…
Dize-me tu, ó senhora,
As senhas que ele levava.»
- «Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava.»
- «Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de valente:
Eu sua morte vingava.»
- «Ai triste de mim, viúva,
Ai triste de mim, coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!...»
- «Que darias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
- «Dera-lhe oiro e prata fina,
Quanta riqueza há por i.»
- «Não quero oiro nem prata,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
- «De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela,
Outro mói do gerzeli:
Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei p’ra si.»
- «Os teus moinhos não quero,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem tu trouxera aqui?»
- «As telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim.»
- «As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
- «De três filhas que eu tenho
Todas três te dera a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir.»
- «As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi:
Dá-me outra coisa, senhora,
Se queres que o traga aqui.»
- «Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.»
- «Tudo, não, senhora minha,
Que inda te não deste a ti.»
- «Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si,
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo,
À volta do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!»
- «Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti…
Que é dele a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!»
- «Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui.»"
Romanceiro de Almeida Garrett, seleção, organização, introdução e notas de Maria Ema Tarracha Ferreira, Lisboa, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1997, pp.266-268.


Da introdução, de Almeida Garrett: “Esta é, sem questão, a mais geralmente sabida e cantada de nossas xácaras populares, a Bela Infanta. (…)
Digo que esta é uma verdadeira xácara, porque, feita a introdução, o poeta retira-se e deixa aos seus interlocutores contar a história toda. (…)
Não sei de outra alguma destas composições populares que tenha por assunto um sucesso ligado com a guerra das Cruzadas: até por isso é interessante.”


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

DA SAUDADE XIII


Vista aérea de Lisboa. Fotografia de Jean-Yves Guilloteau.



"Quando vivemos em Portugal, dizemo-nos simplesmente nós e pensamo-nos nós. Só quando passamos a viver fora de Portugal nos dizemos e pensamos portugueses."

João Palma-Ferreira, in Boletim Cultural O Homem Português, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, fevereiro de 1990.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

TEATRO PORTUGUÊS


Fotografia de Pedro Macedo-Framed Photos, daqui.


"O teatro português vem da origem da nacionalidade; a sua autonomia social, cultural e linguística está devidamente documentada a partir de 1193, quando D. Sancho II concede aos jograis, Bonamis e Acompaniado, um casal em Canelas de Poiares do Douro e recebe dos beneficiados pela dádiva real «um arremedilho para efeito de compensação»: trata-se aqui da fonte mais antiga da História do Teatro Português e também do primeiro documento consagrado do que hoje chamaríamos direitos autorais, devidamente retribuídos e compensados...
A partir do século XII, são numerosos os documentos que atestam uma atividade de produção de espetáculos, na corte, nas Igrejas ou nas praças públicas - e esses espetáculos, como qualquer espetáculo teatral, pressupõe um texto, consagrado ou perdido, escrito ou improvisado, mas sempre, isso sim, um texto que sirva de suporte à apresentação perante um público.
E nem de outra forma se compreenderia que, a partir, concretamente, de 1502, Gil Vicente surja «em cena» com a profusão da sua obra, a genialidade dos textos e precisamente, ainda, o sentido de espetáculo, num conjunto notável de géneros e numa clara transição da tradição do teatro medieval para a intuição de novas expressões do teatro do Renascimento (...)"

Duarte Ivo Cruz


"O Teatro Nacional D. Maria II abriu as suas portas no longínquo ano de 1846 com a apresentação do drama histórico Álvaro Gonçalves, o Magriço e os Doze de Inglaterra, de Jacinto Heliodoro de Faria Aguiar de Loureiro.
Passados 168 anos, Portugal mudou, mudou muito e somos hoje uma comunidade muito diferente daquela que deu início à aventura deste teatro. (...)
Se é certo que os teatros nacionais foram criados como representantes simbólicos da identidade nacional, de um passado ilustre e de uma promessa de futuro glorioso, pensamos hoje o Teatro Nacional D. Maria II como uma instituição de coesão da comunidade de artistas e de públicos que constituem a sociedade e a cena cultural portuguesas.
Simbolicamente ao centro, no Rossio da cidade capital, acreditamos, porque sabemos o que o tempo ensina, que os clássicos ajudam a ler o mundo e a nossa realidade, as contradições do nosso tempo na voragem das mudanças sempre anunciadas. Mas essa centralidade, mais do que simbólica, conquista-se na justa capacidade de convocar os outros (...) para ocuparem esse mesmo centro, com condições de produção, de visibilidade e de acesso reforçadas. Um Teatro Nacional cultiva, com tempo, estação a estação, uma paisagem humana e constrói redes de colaboração e de trabalho, raízes invisíveis mas solidárias, com múltiplos agentes culturais e educativos, e com os seus públicos.
A dimensão de um Teatro Nacional é a dimensão da sua comunidade."

Carlos Vargas - Presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II

Agenda 2014, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2013.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

DIA DE REIS

Os Três Reis Magos. Basílica de Sant' Apollinare Nuovo, em Ravena, Itália.
Fotografia de Nina Aldin Thune, daqui.
 
 


«(…)
CAVALLEIRO
Decidme, amigos pastores,
Sois sabidores
Si iré por aqui bien
Para el lugar de Belen?


GREGORIO
Yo allá vo adó vais,
Y ando, asmo, como andais.


VALERIO
Andad, señor, por aqui
Ó por allí.
(…)


ERMITÃO
Toda la descortesia
Es villanía.
Señor, de donde sois vos?


CAVALLEIRO
De Arabia.
(…) y perdí la companhia
De una grande caballaría,
Que venía
Á tino tras una estrella,
Y ellos van en pos della
Sin perdella;
Y alcanzarlos queria
Y fortuna me lo desvía.


ERMITÃO
Y adonde van, si sabeis?
 

CAVALLEIRO
Van tres Reis
Adorar com sentimento
Y mui grande acatamiento
El nacimiento
Del señor de todas greis.
En nuestra tierra sabreis,
Si quereis,
Que desde Balan se velaba
La señal que se esperaba,
Que mostraba
El nacimiento que veis
Del señor de nuestras leis.


GREGORIO
Decid, señor, qué estrella era?


ERMITÃO
Quien la viera!


CAVALLEIRO
Es muy reluciente estrella,
Y un niño en medio della,
Muy mas que ella
Reluciente en gran manera:
Una cruz en su cimera
Por bandera.


GREGORIO
Donde se vió tal señal?


CAVALLEIRO
Del monte vitorial.


ERMITÃO
Oh divinal
Vitoria muy verdadeira
De nuestra culpa primera! 
O Profeta Isayas,
Bien decias.
Levántate á ser alumbrado,
Hierusalen visitado
Y acatado!
Recibe tus alegrias,
Que la gloria del Messias,
Que querias,
Sobre tí es ya venida;
Y los reis de gran partida
Nobrecida, nel resplandor de tus dias,
En tus tierras los verias.
 
David nel salmo setenta
Y uno cuenta,
Reis de Tarsis y Sabá,
Y el de Arabia verná
Con humildá
Muy gran compaña sin cuenta
Adorar sin mas afrenta
Muy contenta.


CAVALLEIRO
De oro llevan gran presente,
Incenso, mirra excelente,
Humildemente.
(…)»
Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, in Obras de Gil Vicente, Porto, Lello & Irmão Editores, 1965, pp.36-38.

 

EUSÉBIO - 1942-2014

Imagem daqui.



"Derive, derive e vire, vire e atire sem parança, Eusébio, seu genial trangalhadanças."

Alexandre O'Neill

Frase de destaque do Diário de Notícias de hoje.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

DA SAUDADE XII

Pilriteiro, Parque de Grange-Canard
Imagem daqui.


Saudade, palavra doce,
que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fosse
espinho cheirando a flor.
Bastos Tigre

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

AS MÃOS E O ESPÍRITO

 
Leonardo da Vinci, Estudo de Mãos
Imagem daqui.
 
 

“Através dos milénios, a linguagem tornar-se-á um tão importante instrumento, que, quando a criança hoje aprende a falar, aprende ao mesmo tempo, sem que a gente dê por isso, toda uma maneira de conceber o mundo. «Uma maneira de conceber o mundo», disse eu. A própria palavra maneira deriva da palavra mão. Por meio da linguagem manejamos um sistema complicado de classificação e de relacionação das coisas. Há mesmo quem tenha definido a ciência moderna, com a sua estrutura matemática, como não passando de uma linguagem bem feita. (…)

A tradição oral é muito anterior e muito mais importante historicamente do que a literatura escrita. E, no entanto, a escrita foi mais uma grande conquista, uma forma superior de manusear as coisas: evoluindo lentamente a partir do simples desenho, a escrita tornou-se um conjunto de sinais que correspondem às palavras, que já eram sinais de coisas. A escrita fonética é feita, portanto de sinais de sinais. Sob certo aspecto, pode portanto dizer-se que o espírito humano agarra cada vez mais de longe os objectos materiais, mas isso quer dizer que os agarra melhor, mais planeadamente, numa conjunção mais eficaz, e social, da inteligência e da acção. (Deixem-me observar, entre parêntesis, que as palavras que designam certos elementos do pensamento, tais como conceito, compreensão, provêm de radicais latinos que significam agarrar, prender, e outras acções manuais.) (…)

Ninguém hoje contesta, julgo eu, que estamos perante uma nova crise nas relações entre o cérebro e a mão do homem. Mais uma vez, a mão cresceu e qualificou-se de tal modo, que o espírito humano, ou pelo menos certas formas do espírito humano, perderam o controlo sobre elas. De nada serve cobrir a máquina de apóstrofes, culpar a máquina de todos os males que sofremos. Nem sequer se pode dizer que os problemas postos pela máquina resultem de um pretenso domínio da matéria sobre o espírito, pois a máquina não é matéria bruta; a máquina representa uma vitória do espírito sobre a matéria, é uma criação, um produto do homem. A palavra máquina vem mesmo de uma palavra em Latim que significa, propriamente, estratagema, artimanha, ou plano. A máquina resulta de um estratagema do espírito destinado a vencer a matéria, graças ao uso consciente das próprias leis da matéria. A máquina é uma humanização da matéria (…).”
Óscar Lopes, As Mãos e o Espírito, Porto, Campo das Letras, 2007, pp.33-61.

Dos Editores: “Com esta nova edição de As Mãos e o Espírito, texto de uma lição tão particularmente significativo na vida e na obra do seu autor, assinalamos o 90º aniversário de Óscar Lopes, de cuja obra nos orgulhamos de ser editores.”