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Escola Secundária José Saramago - Mafra

quarta-feira, 15 de maio de 2013

POESIA DE ADRIANO ALCÂNTARA (III)

Fotografia do Professor Adriano Alcântara

RETÓRICA

Não sinto sonhos
em lugar nenhum
Dormito neles
livre
quando acordo
e te vejo na menina
do mundo todo
Aí somos
aqui estamos
a salvo
Sabe-se lá do quê
De um dia assim
danado
sem mercê?

terça-feira, 14 de maio de 2013

NOSTALGHIA EX [POSTA]



 

PERFUME I

Imagem daqui.


O perfume

Envio-te um doce perfume, presente que ofereço ao perfume, não a ti. Porque tu podes perfumar o próprio perfume.

Anónimo

Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, Lisboa. Portugália Editora, 2009, p.455.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

S. JOÃO DA CRUZ

Paul Cézanne, Mont Sainte-Victoire (1885-95)
Imagem daqui.




OS VERSOS SEGUINTES DECLARAM O MODO DE SUBIR PELA SENDA AO MONTE DE PERFEIÇÃO, E ADVERTEM PARA NÃO IR PELOS DOIS CAMINHOS TORTUOSOS


Para chegar a gostar de tudo
não queiras ter gosto em nada.
Para chegar a saber tudo
não queiras saber algo em nada.
Para chegar a possuir tudo,
não queiras possuir algo em nada.
Para chegar a ser tudo,
não queiras ser algo em nada.

 

Para chegar ao que não gostas,
hás-de ir por onde não gostas.
Para chegar ao que não sabes,
hás-de ir por onde não sabes.
Para chegar a possuir o que não possuis,
hás-de ir por onde não possuis.
Para chegar ao que não és,
hás-de ir por onde não és.

 

Quando reparas em algo,
deixas de atirar-te ao todo.
Para chegar de todo a tudo,
hás-de afastar-te de todo em tudo.
E quando chegues de todo a ter,
hás-de tê-lo sem nada querer.

 

Quando já não o queria,
tenho tudo sem querer.
Quanto mais eu tê-lo quis,
com tanto menos me vejo.
Quanto mais buscá-lo quis,
com tanto menos me vejo.
Quando menos o queria,
Tenho tudo sem querer.
Já por aqui não há caminho,
Porque para o justo não há lei;
Para si ele é a lei.

S. João da Cruz, Poesias Completas, tradução, prólogo e notas de José Bento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990, pp. 89-91.

 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RELANCE


Fotografia do Professor Martinho Rangel

Altas serras felizes
Que o sol doira de luz logo à nascença.
Que o céu olha de cima
Com a ternura extensa
Da eternidade.
Que o vento anima
De movimento
E a neve cobre de um alvacento
Manto de augusta serenidade.

Miguel Torga (1976)

TORGA, Miguel - Relance. In Diário. (Volumes IX a XII). Rio de Mouro: Círculo de Leitores. 2001. ISBN 972-42-2548-8. Diário IX, p. 1213.

Esta obra está disponível para requisição na BE da ESJS.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

OS CURSOS DE ÁGUA DA HISTÓRIA

Rede de afluentes do rio Ohio (à esquerda, a azul). | Taylor Perron, MIT
Imagem daqui.



“(…) Tereis ouvido bem? Terei eu realmente afirmado que este presente que somos poderia e deveria explicar o passado que outros foram, que o hoje poderia e deveria, para usar esta expressão coloquial, pôr o ontem no seu lugar? Assim é, e agora apenas será necessário demonstrá-lo, para o que me socorrerei da ajuda de um modestíssimo professor de História chamado Tertuliano Máximo Afonso, personagem de um romance saído ao público há poucos dias e do qual sou autor.

Defende o dito professor a arriscada ideia de que o ensino da História não se deveria fazer de trás para diante, isto é, do mais antigo para o mais recente, mas sim de diante para trás, isto é, (…) começar por estudar profundamente a galinha a fim de se poder chegar a uma melhor compreensão das propriedades reprodutivas do ovo. Convidado a expor esta nada canónica teoria, eis como ele a desenvolveu: «Falar do passado é o mais fácil que há, está tudo escrito, é só repetir, papaguear, conferir pelos livros o que os alunos escrevam nos exercícios ou digam nas chamadas orais, ao passo que falar de um presente que a cada minuto nos rebenta na cara, falar dele todos os dias do ano ao mesmo tempo que se vai navegando pelo rio da História acima até às origens, ou lá perto, esforçar-nos por entender cada vez melhor a cadeia de acontecimentos que nos trouxe aonde estamos agora, isso é outro cantar, dá muito trabalho, exige constância na aplicação, há que manter sempre a corda tensa, sem quebra». Noutra passagem do romance, esta velha e banal alegoria do rio da História enriquece-se com uma novidade de tomo ao chamar-se a atenção para a importância dos pequenos e médios cursos de água que afluem ao rio principal, esses sem os quais a rede hidrográfica da História não passaria de um estagnado e apodrecido pântano. O que o meu professor de História pretendia expressar, com estes aparentemente gratuitos jogos de água, é que, sendo verdade que o passado nos fornece, como é sua obrigação, inúmeras chaves indispensáveis à compreensão do presente, não menos verdade é, porém, que o estudo do presente aplicado à História, também a antiga, mas principalmente a recente, lançaria novas luzes sobre sucessos que aos observadores e testemunhas coetâneos deviam ter parecido unívocos, encerrados e limitados no seu próprio acontecer, e, sobretudo, inocentes de outras consequências além das imediatas, sem ir mais longe nas previsões que a linha do horizonte visível. (…)

Imaginemos então que o meu personagem Tertuliano Máximo Afonso é professor de História nesta Universidade e que, com a necessária aprovação superior, vai pôr em prática, aqui, o seu revolucionário projecto. Na sua classe há estudantes de diversas nacionalidades – alemães, franceses, espanhóis, ingleses, belgas, holandeses, polacos, búlgaros, canadianos, gregos, norte-americanos, suecos, austríacos, japoneses, sul-africanos, e até mesmo, quem sabe, algum português –, todos eles empenhados em conhecer a história de Itália e a cultura italiana. Escusado será dizer que Tertuliano Máximo Afonso satisfará escrupulosamente o interesse dos seus alunos, mas, invertendo a ampulheta da História, principiará por traçar o panorama da situação política, económica, social e cultural da Itália de hoje, e daí avançará para o passado, mas sempre, e isso não será o menos importante, detendo-se na análise do como e do porquê de cada caso concreto, de modo a que os encadeamentos, os nexos, as ligações de tudo com tudo fiquem claramente inscritos na memória e no espírito dos seus estudantes. Um trabalho de Hércules, direis. Assim é, de facto, mas Tertuliano Máximo Afonso irá querer muito mais. Dirá aos seus alunos: «Agora é a vossa vez, que cada um de vós, na medida dos conhecimentos que haja adquirido, faça, em relação ao país donde é natural, o mesmo trabalho que eu fiz aqui em relação a Itália, que seja cada um de vós, ao mesmo tempo, mestre dos seus condiscípulos e mestre meu, e que, depois de terdes aprendido comigo, possamos começar agora a aprender todos com todos». Não é difícil prognosticar que a aula do professor Tertuliano Máximo Afonso se transformaria num vulcão de entusiasmo… Utopia, direis. Assim é, de facto, mas, se a ideia é absurda e portanto impraticável, então que se inventem e apliquem outras que sejam igualmente criadoras de memória, ideias que nos salvem do «buraco negro» de esquecimento que todos os dias, mais e mais, nos vai engolindo (…). Sem Zeus, nem Hera, nem Héracles, atrevo-me a pensar que na aula do professor Tertuliano Máximo Afonso se passaria algo como a aparição igualmente resplandecente de uma nova Via Láctea, mas nessa nenhum «buraco negro» ameaçaria… Se ao outro não vamos poder escapar, ao menos que não façamos este por nossas próprias mãos. Tenho dito.”

José Saramago, Esquecimento: O «Buraco Negro» da Galáxia Humana, Siena, Università per Stranieri di Siena, Facoltà di Lingua e Cultura Italiana, Lectio Doctoralis per la Laurea Honoris Causa in Lingua e Cultura Italiana, 21 de novembro de 2002.

 

MURAL DA BIBLIOTECA

Liberdade...

... é respeitar o próximo.
... é poder!
... é ilusão!
... é não ter consciência.
... é poder não escrever, mas ainda assim fazê-lo.
... era voltarmos para Calpe!
... é os meus pais permitirem que eu vá a um concerto de Quim Barreiros.
... é andar nu na escola.
... é fazer sexo na rua.
... é a faixa 1 do álbum " À queima roupa" do Godinho.
... é poder comer na biblioteca.
... de sujar os livros com comida tira a liberdade de ler.
... é o que não temos na biblioteca, não nos deixam rir a não ser para dentro.
... terminar a liberdade de rir para começar a liberdade de estudar e concentrar.
... é ficar fechado na biblioteca antes de abrir.
... é ouvir a nossa música favorita vezes e vezes sem conta.
... é poder escolher a cadeira onde sentar.
... é poder escolher ir ao Facebook na biblioteca.
... eu aqui a fazer desenhos e os outros a estudar. Isto é liberdade.
(Pensamentos de utilizadores da BE sobre liberdade)


NEWBERRY LIBRARY


Newberry Library, Chicago
Imagem daqui.
 
 
 
"(...) Dir-se-á: mas então, vai-se a Chicago para ler livros que existem em Portugal? A questão é outra, e não falo de Camilo ou de Eça ou outros, falo mesmo da Literatura de Viagens: é que nada existe na Newberry que não possamos achar nas nossas bibliotecas, simplesmente... em nenhuma das nossas há todo o material, em simultâneo, que na Newberry existe! É nisso que ela é um paraíso para o investigador, que tem lá tudo à mão, proporcionando economia de tempo e trabalho harmónico."
 
Maria Alzira Seixo, "A Newberry Library e as letras lusas", in Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XXXIII, nº 1110, de 17 a 30 de abril de 2013, p. 33.