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Escola Secundária José Saramago - Mafra

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

CARTA DE AMADEO DE SOUZA-CARDOSO


Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), Avant la corrida (1912)
Imagem daqui.



     "Paris - 1908
      Minha querida maman:
      Hoje de manhan, quando os meus dedos rasgaram o envelope da sua carta, eu não esperava nada uma correção tão violenta.
      Mas que fiz eu, minha Maman, para tão formidavel sova? - Eu não assassinei, não roubei, o proximo não se queixa de mim com razões e a minha consciencia todos os dias me diz que subiu mais um degrau de perfeição. Não quero com isto defender os meus erros, pois já nossos paes, os latinos, diziam  «errare humanum est» - errar é humano.
      Se eu lhe disser que os erros tem tanto valor como as virtudes, digo um sacrilegio aos seus ouvidos, mas afinal só pronuncio uma verdade. O erro é o fundo em que se destaca uma virtude, e a virtude seria inapreciada se o erro não existisse.
      E de que me acusa a minha mãe? - De eu não ser a creatura que ella deseja. Porventura isto é uma falta propositada, voluntaria da minha parte? Não.
      Ao contrário, eu queria bem ser o que ella quer que eu seja para lhe dar um maior grau de felicidade! Mas que fazer! Todas as creaturas vêm ao mundo para seguir um destino proprio. É por isto que todos os filhos dão às mães uma suprema felicidade e uma incomparavel dor. Uma felicidade porque são os filhos do seu ventre, uma dor porque são creaturas que ella não pode guiar na vida ao seu desejo.
      Ah! e que acusações candidas me faz a minha maman.
      Porque é que a minha vida tem sido todas um fiasco? Por não estar incorporado na firma R. Cunha? Por varios acontecimentos que me tem sucedido, e que eu tanto considero porque são lições de vida? Mas que haverá de fiasco na minha existencia?
      Eu quando a consulto, acho-a, ao contrario, rasoavel e util porque consegui libertar-me dos meios de vida burgueza, tacanha de espirito e sentimento, em que eu estava embrenhado numa revolta. Neste ponto de vista eu sinto grandes duas creaturas que estavam a amparar-me e sinto-me grande eu proprio. Esses dois seres são meu Pae e minha mãe que me deixaram escolher livremente a minha forma de vida e me deram as mãos para ajudar os meus passos. Se eu não conseguisse livrar-me, se eu não vivesse na vida da arte, a vida de espirito e de alma, a suprema vida da perfeição, ah, minha mãe, eu, o seu filho. seria sempre um homem torturado, de existencia falha, e poderia então pronunciar tristemente: «a vida dum ser que eu creei, antes não houvesse creado - é um fiasco».
      (...). A minha vida poderá ser para os outros qualquer coisa de idiota; eu porém estou convencido que vivo numa profunda vida de arte - e estou contente. (...)"

(Foi mantida a grafia original.)


Carta de Amadeo de Souza-Cardoso à mãe, Paris, 1908. Espólio da Família Sousa Cardoso. In Amadeo de Souza-Cardoso - Fotobiografia, catálogo raisonné, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, p. 81-83.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

DEIXA-ME SER FELIZ (IX)



Fotografias de Fátima Pinheiro e Laurinda Mafra

No espaço da biblioteca, a jovem escritora Cristiana Vicente Martins contou a sua história de vida. As suas palavras ficarão certamente na memória dos alunos que participaram na sessão de apresentação do livro Deixa-me Ser Feliz

Obrigada, Cristiana!

V PRÉMIO LITERÁRIO ALDÓNIO GOMES 2016 - CATEGORIA: NARRATIVA JUVENIL


Imagem e todas informações aqui.


MAGNA CARTA - SIGNIFICADOS

A imagem e o programa encontram-se aqui.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

DEIXA-ME SER FELIZ (VIII)



Amanhã, dia 4 de dezembro,  pelas 10h15, na BE, Cristiana Vicente Martins apresentará o seu livro Deixa-me Ser Feliz.

Não perca!

 

A ARTE SEGUNDO BERNARDO SOARES


Paul Delaroche (1797-1856), La jeune martyre (1855).
Imagem daqui.



"A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida à acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem, e o que exprime o que sobrou do que teve."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Composto por Bernardo Soares, Ajudante de Guarda-Livros na cidade de LIsboa, edição de Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim, 9ª edição, 2011, p. 234.



quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

"BRIC-À-BRAC"


Imagem daqui.



"Quem passe num dia de chuva numa rua principal da província verá, através das vitrines embaciadas, um amontoado de coisas que brilham e que parecem atiradas para ali para estarem arrumadas, e não para serem expostas. São jarras de loiça e canecas com pinturas regionais e frases típicas ou provérbios; são imagens de santos e de padres famosos pela sua beatitude; são dançarinas, ciganas, cupidos e fontes com pombas e grinaldas; são placas com sentenças e conselhos, andorinhas pintadas dum negro fuliginoso; lâmpadas de cabeceira, ferros eléctricos com mudanças de calor e borrifadores, crucifixos, espelhos com motivos Mary Quant, estojos de toda a espécie, tabuleiros, grelhadores, loiça inglesa, almofadas, pratinhos para copos, sábios chineses e potes para chá, tacinhas de cobre, de pó de mármore, de madeiras de buxo. E estanhos, ao gosto medieval, em forma de gomil, de bacia de barbeiro, de pratos que parecem dignos de Carlos Magno, com pedras embutidas. Tudo isso vem de toda a parte, com guias alfandegárias ou de contrabando, coisas destinadas mais ao desejo ocioso, do que à necessidade das diferentes fortunas. Um povo inteiro, muitos povos estão representados nessas coisas. Elas representam, de facto, a felicidade como atitude - e não há talvez outra, nem mais barata nem mais inteligível. (...)"

Agustina Bessa-Luís, Crónica do Cruzado Osb., 1ª edição 1976, Lisboa, Guimarães Ed., 2015, p. 136.



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

DA CONCISÃO LXIV


Charles Meynier (1768-1832), Apolo, deus da Luz, Eloquência, Poesia e Arte, com Urânia, musa da Astronomia (1789-1800).
Imagem daqui.



"O pensamento pode ter elevação sem ter elegância, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a acção sobre os outros. A força sem a destreza é uma simples massa."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Composto por Bernardo Soares, Ajudante de Guarda-Livros na cidade de LIsboa, edição de Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim, 9ª edição, 2011, p. 259.