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Escola Secundária José Saramago - Mafra

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

HOMENAGEM A SARAMAGO E À LITERATURA PORTUGUESA






Para celebrar o 20º aniversário da atribuição do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago, a partir das 10h, do dia 9 de dezembro, na sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, far-se-á a leitura integral de Todos os Nomes, por 20 atores.

Esta leitura de cerca de nove horas será seguida de uma cerimónia de homenagem ao Nobel, com intervenções de Germano de Almeida, Lídia Jorge, Ondjaki, Nelida Piñon e Mia Couto.

Entrada livre.



quarta-feira, 14 de novembro de 2018

DESEJOS DE UM PASSADO



Imagem daqui.




Desejos de um passado


Desejos de um passado
Que pensei nunca conhecer.
Dor de um presente
Que anseio por esquecer.

Oh, lágrima solar,
Que iluminas a minha face,
Seca de uma vez!
Para que esta dor passe.

Oh, ancestrais,
Elevai-me novamente,
Livrai-me destes mortais,
Salvai-me deste presente.

Oh, fado incerto,
Diz-me se algum dia,
O meu coração deserto
Encontrará o amor que pedia.

Oh, escuridão eterna,
Espera por mim.
Aproxima o meu fim
Esta dor que não pedi.

Tomás Silva, Aluno do 12º LH4 desta Escola.



terça-feira, 13 de novembro de 2018

POESIA DE LUÍSA CORDEIRO (34)


“ELE, tu e todos nós…”
 

Eu não sei,

eu não pelejo,

eu não sou nenhum anjo

mas por Deus estou a lutar!!!...,

só tu não vês,

só tu não crês

que o Amor de Deus

te quer alcançar!!!!!!!

 

…e quando choras

porque não podes mais,

tu pensas no momento

em que te fizeram

teus pais…

 

Só tu não queres ver…

só tu não queres saber

porque morreu um FILHO

para nos salvar!!!

…e o meu grito,

é uma casca de noz,

num mar imenso e aflito,

numa jangada que és tu e eu…

somos todos nós!!!

Luísa Cordeiro
06.11.2018
 

DIAS DO DESASSOSSEGO 2018


Imagem e informações detalhadas aqui.



segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O ECO


Imagem daqui.




No silêncio liso da neve, incha um rumor pela aldeia. Estremeço violentamente - foi ontem. Abro as janelas de um golpe, os olhos cegam-me ao impacto da reverberação do sol. O rumor cresce ainda no ar de vidro, depois imobiliza-se, amortece e finalmente cessa. Um motor de automóvel, pareceu-me. Estalam-me os ouvidos à subtileza da aragem, na luz estridente da manhã. Mas nada ouço: terei enlouquecido? Saio à rua, olho a toda a volta: só a aldeia submersa, apavorada, de olhos tristes. Um galo canta no meu quintal. É meu, o único. O grito sobe pela coluna de sol, rasgado, sangrento. Abre-se lá ao alto, embate pelos montes, desnorteado, à procura de uma significação. Um instante, absurdamente, ainda espero que outro galo lhe responda. Mas nem ele próprio se responde a si. É um galo isolado, estranho, sem sentido visível, como o brilho estrídulo da neve. A aldeia olha em silêncio, eu escuto ainda estonteado. Abruptamente porém atiro um berro grosso para o horizonte

        - Eh!...

e fico extático, aterrado comigo, do excesso de mim. Não chamava ninguém: clamava a minha abundância, decerto o meu desespero. Há quanto tempo não falava? A palavra é um mistério, Ema dizia; é um ruído estúpido e o espírito vive nele. Assim a palavra ouvida é o terror desse espírito, desse mistério. Por isso apenas se aguenta, se há mais alguém para aguentar. Acontece-me às vezes falar alto; mas não me ouço. As palavras são então como as pedras, quando me não pergunto, «o que é uma pedra?», ou «porque é que há pedras?» Outras vezes acontece que dou conta das palavras antes de morrerem de todo. Então fico apavorado ou surpreso, como se uma sombra passasse onde não havia razão de passar.

Eis porque muitas vezes falo deliberadamente para me ouvir. É uma experiência dura. Subitamente, alguém surge à minha face e é no entanto invisível. É como se eu criasse um homem sem a coragem de um Deus. Ou como se criasse um Deus. De dia, no entanto, é mais fácil: o sol dá uma ajuda. Mas agora o meu urro é mais poderoso que o sol. Que violência - um homem! Como não hás-de ser tu bastante para encher a terra inteira? Maior que a montanha, o deserto da neve - tu certificado ainda na vibração dos teus ouvidos, nos ecos esparsos pela distância.

Subitamente, porém, quando o último eco morreu, um grito enorme subiu de novo no ar

        - Eh!...

Espera: não foste tu que gritaste. (...)

Vergílio Ferreira, Alegria Breve, Lisboa, Quetzal Editores, 2015, pp. 79-80.



sexta-feira, 9 de novembro de 2018

POESIA DE LUÍSA CORDEIRO (33)


“Qual…”
 
Qual deles é o maior,
o canto ou a cigarra…?
Qual deles te encanta mais,
o Fado ou a guitarra…?
E qual deles o mais belo
e te acaricia o rosto,
o ouro da alvorada
ou o doce sol posto…?
 
Nenhum sem o outro
poderia existir,
tal como a Esperança mora
no incógnito devir…
 
Luísa Cordeiro
30.10.2018
  

SENTIDO E SIGNIFICADO


Imagem daqui.



Depois de o enfermeiro ter saído, o Sr. José ficou deitado ainda uns minutos, sem se mexer, a recuperar a serenidade e as forças. O diálogo fora difícil, com alçapões e portas falsas surgindo a casa passo, o mais pequeno deslize poderia tê-lo arrastado a uma confissão completa se não fosse estar o seu espírito atento aos múltiplos sentidos das palavras que cautelosamente ia pronunciando, sobretudo aquelas que parecem ter um sentido só, com elas é que é preciso mais cuidado. Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições.

José Saramago, Todos os Nomes, Lisboa, Caminho, 1998, pp. 134-135.