Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

SEM PALAVRAS VI

Canto Ostinato, Simeon ten Holt

PROSA DE FERNANDO PESSOA


Laura Cesana, Homenagem a Fernando Pessoa



«UM GRANDE PORTUGUÊS»

(1926)

Vivia, há já não poucos anos, algures num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário. 
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: « Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O sr. quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma». «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?» disse; «isso nem a cegos passa». O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco, regateando; por fim fez-se o negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma. 
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos, negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia de feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade , quando surgiu pela porta, cambaleante de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Ele disseram que não: e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar. 
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O Vigário continuou a conversar e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos dois irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo - um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, «estando nós a jantar» (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa de bêbado...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez a seguir à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar. 
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira  providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido. 
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário, «nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas recebiam.» E, como era de justiça, foi mandado em paz. 
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada em «o conto do Vigário», para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua admirável origem. 
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do Mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que , se há um céu para os hábeis, com constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade - nem um leve brilho de olhos de Machiavelli ou de Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Saville, Marquês de Halifax. 

ZENITH, Richard (ed.) - Obra Essencial de Fernando Pessoa: Prosa Publicada em Vida. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2006. 479 p. ISBN 978-972-42-3897-5


Livro disponível na BE.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

AQUISIÇÕES RECENTES


ANDRADE, Maria Filomena – Rainha Santa, mãe exemplar: Isabel de Aragão. Maia: Círculo de Leitores, 2012. 328 p. ISBN 978-972-42-4704-5

CAETANO, Paulo - Cavalos Selvagens Ibéricos. Lisboa: Bizâncio, 2011. 160 p. ISBN 978-972-53-0496-9

MENINO, Vanda Lourenço; COSTA, Adelaide Pereira Millán – A rainha, as infantas e a aia: Beatriz de Castela, Branca de Castela, Constança Manuel, Inês de Castro. Maia: Círculo de Leitores, 2012. 503 p. ISBN 978-972-42-4705-2

PENAMACOR, Cláudia; ALCOBIA, Isabel – Photoshop CS5 & CS4. Lisboa: FCA, 2011. 250p. ISBN 978-972-722-661-0

RIBEIRO, Nuno; TORRES, José – Tecnologias de Compressão Multimédia. Lisboa: FCA, 2009. 365p. ISBN 978-972-722-633-7


LADRÕES DE BICICLETAS

Cena do filme Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica, 1948.
Foto daqui.
 

“LADRÕES DE BICICLETAS – VITTORIO DE SICA (1948)

Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha de suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.”
José Miguel Silva, Movimentos no Escuro, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2005, p. 20

 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O TEMPO DAS PALAVRAS

Fotografia do Professor Martinho Rangel

I

Joeirar palavras até produzir o canto
tal a torrente a montante
que taludes, quais funis
quantos litros de água para encontrar uma pepita
quantas pepitas para encontrar uma pérola de água
(assim se constrói o mundo estranho)
húmidos vestígios de auroras pueris
no dorso quase calvo de uma onda
joeirar palavras até se ouvir
o canto sinuoso do poema.

Armindo S.

S., Armindo - O Tempo das Palavras. Lisboa: Projeto Folio, 2010. 35p. ISBN 978-989-691-005-1

O Tempo das Palavras encontra-se exposto na vitrina de livros autografados .

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

MANUEL BANDEIRA - CREPÚSCULO DE OUTONO

Manuel Bandeira, por Cândido Portinari (1931)
Imagem daqui.
 
 

CREPÚSCULO DE OUTONO

O CREPÚSCULO cai, manso como uma bênção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito…
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.

 
O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

 
Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura inânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

 
Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale… o horizonte purpúreo…
Consoladora como um divino perdão.

 
O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

 
A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.
Clavadel, 1913
Manuel Bandeira, A Cinza das Horas
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

RETRATO DE MÓNICA

Retrato de Sophia de Mello Breyner Andresen, por Arpad Szenes.


“RETRATO DE MÓNICA
                Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, (…)dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
                Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
                Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode dizer-se que Mónica trabalha de sol a sol.
                De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
                A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
                Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos. (…)
                Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
                (…) Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. (…)”
Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares, 28ª edição, Braga, Figueirinhas, 1995, pp.117-120

terça-feira, 20 de novembro de 2012

ENCONTROS DE LEITURA (2)

Dia Internacional da Convenção dos Direitos da Criança

De acordo com a Declaração dos Direitos da Criança, aprovada em 20 de Novembro de 1959 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, " a criança, por motivo da sua falta de maturidade física e intelectual, tem necessidade de uma protecção e cuidados especiais, nomeadamente de protecção jurídica adequada, tanto antes como depois do nascimento".

Mais informação sobre os direitos das crianças em:
e
Instituto de Apoio à Criança






Assinalámos a data com poesia, música e dança. Participaram alunos de Cursos Profissionais de Apoio à Infância,  de Apoio à Gestão Desportiva e de Multimédia, alunos com necessidades educativas especiais e os docentes António Santos e Ema da Silva.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

CINEMA E FUTEBOL

Charlie Chaplin, Luzes da Cidade
Imagem daqui.

“OS ONZE GRANDES DO CINEMA
              Outro dia, minha amiga Danuza Leão arregalou muito os seus grandes olhos azuis e me perguntou no seu jeito juvenil de falar quais eram para mim os 11 maiores diretores de cinema. Pertence ela a uma geração que viu Chaplin pela primeira vez agora, quando da exibição de Luzes da cidade. Fui para casa e comecei a pensar no assunto. A pergunta não deixa de ter seus lados difíceis e não foi sem bastante cogitação que cheguei a arrumar o scratch abaixo, scratch porque agora anda a mania de se resolver tudo em termos de futebol, e até um scratch de chatos já foi feito. Eis a resposta a Danuzinha:

Chaplin
Griffith – Stroheim
Eisenstein – Pudovkin – Dovchenko
Flaherty – Gance – Vigo – Dreyer – King Vidor

    Desse supertime quatro não poderão mais jogar por se acharem devidamente falecidos: D.W. Griffith, Eisenstein, Robert Flaherty e Jean Vigo. A razão pela qual coloquei Chaplin ao goal deve ser por essas horas clara para minha amiga Danuza. Ela certamente terá visto Luzes da cidade, e se não viu o filme pode se considerar de relações formalmente cortadas comigo. Chaplin é não só o maior diretor de cinema de todos os tempos, como o único cineasta que conseguiu reunir todas as funções do métier nele mesmo.
              A colocação de King Vidor como extrema direita é qualquer assim como se pôr Leônidas num time ideal de futebol brasileiro – um pouco pelo respeito ao seu passado de grande jogador. King Vidor realmente caiu muito, mas filmes seus como A turba, Aleluia e No turbilhão da metrópole justificam, pela força do cinema que contêm, a sua inclusão neste quadro de gigantes. King Vidor é, a meu ver, o menor deles e não fosse por esse respeito eu o substituiria por reservas mais válidos como Hitchcock, Pabst, René Clair e poucos mais.
                É pena que Danusa não tenha visto nenhum filme de todos esses grandes cineastas mencionados, e a única esperança para ela e a grande maioria dos jovens de sua geração de vê-los, é a criação que se cogita de uma Cinemateca Brasileira - um dos departamentos, a ser criado (se o congresso quiser)."
Vinicius de Moraes, Última Hora, 10 de dezembro de 1951

SEMANA DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA 2012

Imagem daqui
De 19 a 25 de Novembro decorre a Semana da Ciência e da Tecnologia. Acompanhe a programação nacional no site Ciência Viva .
 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

QUANDO A EUROPA DESCOBRIA O MUNDO...

Imagem daqui.
 
A Exposição A Idade de Ouro das Cartas Náuticas, com um destaque especial para as cartas-portulanas e para as grandes descobertas de Portugal, pode ser visitada na Biblioteca Nacional de França, até ao dia 27 de janeiro de 2013.

SARAMAGO - UMA HISTÓRIA DE 90 ANOS


O Concurso 'Saramago - Uma História de 90 anos' é uma iniciativa da Editora Caminho-Leya, em parceria com o Plano Nacional de Leitura (PNL), a Rede de Bibliotecas Escolares e a Fundação José  Saramago, que pretende assinalar os 90 anos  do nascimento do escritor José Saramago.
O concurso é dirigido aos alunos do ensino secundário e aos docentes dos vários níveis de educação/ensino que concorrerão em duas categorias distintas, mas nas mesmas modalidades e formatos.
Trata-se de uma proposta pensada como instrumento para todos aqueles que se considerem autores  ou com apetência para a escrita  e que queiram dar expressão pública aos seus atos criativos, produzindo trabalhos inspirados na vida e obra de José Saramago.
Aos concorrentes é proposto, em simultâneo, que façam uso de algumas ferramentas da área das tecnologia, de forma a enriquecer os conteúdos produzidos, enquadrando-os em suporte digital.
Calendarização: 
Início: 16 de Novembro de 2012 - data de aniversário de José Saramago.
Final: 11 de Março de 2013.
 
(Fonte: Plano Nacional de Leitura)

O regulamento do concurso pode ser consultado na página do Plano Nacional de Leitura  e também na Biblioteca da Escola.

NOS 90 ANOS DE JOSÉ SARAMAGO: TRÊS FADAS E UM MENINO...

Imagem daqui.



“MAGNÍFICO REITOR DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Em rotações e translações o mundo precisou de dar muitas voltas antes de se decidir a trazer-me a este acto, embora me seja impossível crer que às fadas que me assistiram no nascimento lhes tivesse passado pela cabeça a louca fantasia de incluírem a Universidade de Coimbra no cabaz das prendas com que haviam achado razoável agraciar-me, as quais, aliás, das prendas falo, imediatamente se percebeu serem das mais modestas. Nem naquela época (mais de oitenta anos passaram já sobre o dia de Novembro em que abri os olhos para a luz), nem naquele lugar (uma pobre aldeia do Ribatejo), e menos ainda a baixíssima condição social do recém-nascido, propenderiam as potências do destino a prodigalizar-se em dádivas. Não obstante, recapitulando o que depois me viria a suceder na vida, olhando quanto e a quem nesta hora me rodeia, chego à interessante conclusão de que uma terceira providenciadora da sorte, também escalada para comparecer à cabeceira do meu berço de tábuas mal ajustadas, deverá ter perdido a bússola entre as espessas cabeleiras dos olivais da Azinhaga (hoje escalpados) e por isso a sua varinha de condão não pôde estar presente na junta vaticinadora encarregada de traçar as linhas do meu fado. É voz antiga que ninguém foge ao seu destino, mas não se repara que tão grande verdade só é explicável pelo facto de o regulamento das fadas impor às ocasionais faltosas a obrigação de cometerem mais tarde, sozinhas, a parte do seu trabalho que deveriam ter feito em parceria com as colegas pontuais. Por tal razão é que algumas vidas, que até certa altura levavam um rumo discreto e alheio ao mundanal ruído, deram, de repente, uma guinada noutra direcção, e, sem que na altura se tivessem percebido muito bem as causas da mudança do tempo, a brisa passou a soprar com maior firmeza e constância, as velas encheram-se redondas e as ilhas desconhecidas começaram a levantar os seus cumes acima do horizonte. No meu caso, Magnífico Reitor, a fada retardatária levou nada menos que sessenta anos a dar comigo, mas, graças a ela, pude finalmente escrever o Memorial do Convento, e os carrilhões de Mafra, desde então (…) não têm parado de tocar…
Ignoro, Magnífico Reitor, quantas teriam sido as fadas que estiveram no feliz e nunca assaz festejado nascimento da Universidade de Coimbra, porém imagino que não teriam sido mais que as três do costume. Imagino também que nenhuma se demorou pelo caminho e que todas cumpriram a sua missão com a competência e a solenidade requeridas. Mas uma coisa é nascer uma criança na aldeia da Azinhaga e outra, muito diferente, foi terem-se aberto ao mundo as portas de uma Universidade como esta, para quem oitenta anos iriam ser uma juventude e muito mais dilatados os seus próprios memoriais. Pertence aos domínios do óbvio que três simples fadas, por muito informadas que estivessem dos arcanos, não teriam arcaboiço para prever tanto e tão variado futuro. Inclino-me portanto a crer que, ao longo da sua existência, esta Universidade de Coimbra terá recebido, regularmente, de tempos a tempos, a visita de outras fadas, munidas das chaves e conhecedoras dos segredos com que teriam de abrir-se as novas portas e, pelo sim, pelo não, porque algo do passado haverá sempre que levar na mochila das viagens ao porvir, se manteriam entreabertas as antigas. O velho não é apenas um último resto sobrante do novo que havia sido, nele reside também, ainda que à vista desarmada possa não o parecer, a referência melhormente futurível do novo em preparação. Não sendo esta a circunstância nem este o lugar adequado para justificar e demonstrar tão categórica e aparentemente contraditória asserção, retomo o fio do meu discurso sobre o papel das fadas na vida dos seres humanos em geral (incluído este que aqui se encontra) e das universidades (esta de Coimbra em particular), atrevendo-me a propor, Magnífico Reitor, a mais do que plausível probabilidade de que a tal minha fada retardatária, considerando insuficiente, talvez por um inapagado remorso, o muito que em meu favor já havia feito, tenha vindo, como ao longo dos séculos vieram tantas outras por motivos de maior calado, chamar a estes veneráveis umbrais, impelida por uma ideia cuja generosidade só tinha equivalente na desmedida, isto é, que por vós me fosse outorgado o grau de Doutor honoris causa, ou, por outras palavras, mais retoricamente, que por um instante se cruzassem as linhas das nossas vidas, a da Universidade que sois e a do homem e do escritor que sou. O instante é este, e será, como tantos, irremediavelmente breve, mas a honra, essa, haverá de perdurar enquanto eu viva.”
Doutoramento Honoris Causa de José Saramago, 11 de Julho de 2004, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2004, pp.11-13.

 

MEMORIAL DO CONVENTO 1982-2012

 
Trinta anos depois...
 
Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.
(da contracapa da obra)


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O PARADIGMA DAS REDES SOCIAIS

Ainda a propósito do post sobre o Facebook, aqui ficam excertos de um artigo publicado na revista PC GUIA.

 O VÍCIO DAS REDES SOCIAIS
                                           POR GUSTAVO DIAS
Desde que haja vontade, existirá sempre maneira de o ser humano comunicar com outros remotamente, seja por carta, por telefone, CB, fax, email, IRC, fóruns e serviços de conversação instantânea. Recentemente, assistimos ao aparecimento de um novo meio de comunicação, as redes sociais, que vieram alterar a forma como a internet (e o seu acesso) são feitos.
(...)  O peso das redes sociais é, no mínimo, assustador.
O Facebook, por exemplo, é o segundo site mais utilizado em todo o mundo, logo a seguir ao Google, que continua a dominar sem grande oposição (o Bing, da Microsoft, mantém a 22º posição). Se precisar de números para reforçar a dimensão das redes sociais, que tal o impressionante número de mil milhões de contas registadas no Facebook, o que caso correspondessem a utilizadores únicos (ou seja, ignorando as diversas contas faltas e repetidas) poderia significar 1/7 da população mundial? Dá que pensar.

EM PORTUGAL
O uso de redes sociais em Portugal também tem registado um crescimento bastante elevado, embora não existam dados concretos que nos permitam quantificar os seus utilizadores face à população nacional e a quem tem acesso à internet. Quanto às redes sociais existentes, uma coisa é certa: o Facebook domina praticamente em qualquer região do globo, sendo  até fundamental para o desenvolvimento de outras redes sociais, como demonstra o facto de podemos agregar a nossa conta de Facebook a inúmeras redes, evitando criar um novo registo com todos os nossos dados . Claro que isto não é regra em todos os caso, e nem todas as gigantescas redes sociais têm peso no nosso país - por exemplo, a Qzone, dirigida a cidadãos chineses e que conta com quase 500 milhões de utilizadores. (...)
 
Revista PC Guia. Dir. Pedro Tróia. N.º 202, Novembro de 2012.
 
A revista PC GUIA encontra-se disponível na BE (estante de periódicos).


XADREZ NA BIBLIOTECA (3)

Cartaz da autoria do professor Luís Amorim e de alunos do 12.º S3  (2011)

II Torneio de Xadrez da ESJS

12 de Dezembro de 2012
 
8h30 - 13h30
 
Biblioteca

Inscrições até 7 de Dezembro
 
Organização: Equipa da BE e Professor José Avelar Rosa

A LUZ DAS PALAVRAS

Imagem daqui.
 
Numa homenagem a Manuel António Pina, recentemente falecido, será inaugurada a exposição A luz das palavras, no dia 18 de novembro, pelas 16h00, no Museu Nacional da Imprensa, no Porto. Nela estarão contempladas as facetas de jornalista, de escritor e de poeta do colunista do Jornal de Notícias. Os gatos, amados por Manuel António Pina, terão lugar de destaque com uma coleção de textos sobre eles.
 
A mostra estará patente até 31 de maio de 2013, todos os dias, entre as 15h00 e as 20h00.

SABIÁ

Sabiá.
Imagem daqui.
 

“A ciência pode classificar os órgãos de um
sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
existem
nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.”
Manoel de Barros, Livro Sobre Nada, Rio de Janeiro, Editora Record, 2004, p.53.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

EXPOFOTOGRAMAS

Luz/Sombra



Fotografias do Professor Martinho Rangel

Dinamização: Professor Carlos Marques, alunos da turma F do 12.º ano e Núcleo de Fotografia da ESJS.

Estes trabalhos foram desenvolvidos no âmbito dos conteúdos da disciplina de Desenho A do 12º ano - "Materiais e Técnicas Fotossensíveis".
São o resultado de um exercício estruturado em três fases:
- realização de estudos de temática livre;
- seleção e passagem da composição para suporte de acetato A4;
- concretização do fotograma na câmara escura, por sensibilização de papel fotográfico.
Texto do Professor Carlos Marques

terça-feira, 13 de novembro de 2012

DA SAUDADE IV

Cais das Colunas, Lisboa, 1973.
Fotografia de Eduardo Gageiro
 

2- A Pedra, o Barco e o Tempo

Chego com minha irmã a Lisboa. Entramos no estuário do Tejo, sempre bonito, azul e inesperado, com um mar que se abre quando esperávamos o conchego apertado de um porto urbano. Pergunto-me se estas larguezas do Tejo frente a Lisboa terão alguma coisa a ver com o carácter dos seus habitantes: franzino nos actos concretos, amplo nos desejos. Doroteia está ausente, partiu para Cabo Verde com seu marido logo que soube das más notícias. Possivelmente cruzámo-nos no caminho, na lonjura das águas.
Nossos parentes em Lisboa recebem-nos o melhor possível, auxiliam-nos na nossa tarefa. No entanto com demasiada frequência encontramos pessoas arrogantes. Olham-nos de alto a baixo, procurando o erro no nosso traje, o provincianismo nas maneiras, o sinal de afastamento de Lisboa, que todos consideram insuportável ou mesmo fatal para a cultura e para o espírito. Ou então olham-nos como lendas vivas, como gente recém-escapada às feras, às febres e aos canibais. Cabo Verde?, dizem, onde fica ao certo? Depois perguntam as coisas mais tolas: não há elefantes? Não é perigoso e terrífico viver em ilhas, assim no meio do mar, abertas às tempestades? Apercebo-me de que imaginam as ilhas inteiramente galgadas e varridas pelas vagas oceânicas, que nos imaginam agarrados aos rochedos como lapas, e que simultaneamente suspeitam selvas densas e palmares, animais monstruosos, algures, talvez também entre a espuma das ondas.
E o principal passatempo das gentes mais endinheiradas de Lisboa, ou que de qualquer forma se consideram ilustres, é o de se mostrarem uns aos outros. Passeiam nas ruas não porque tenham um trajecto a cumprir, de obrigação ou recreio, mas para ostentarem os novos luxos adquiridos, e olham em volta para verem quantos olhares os olham. No teatro olham-se uns aos outros, de binóculo, e ficam mais contentes com a quantidade de presenças que conseguem reconhecer do que com a qualidade do espectáculo.
A saudade de Cabo Verde torna-se cada dia maior, enorme. A propósito de um cheiro, ou de uma cor, a propósito de nada, rasgam-se no meu espírito visões instantâneas e inteiras, como se às ilhas me transportasse súbito milagre, e eu me encontrasse numa praia, num cimo dum monte ou num barco. Uma saudade palpável, espessa mesmo, como se até aqui eu tivesse arrastado a alma de todo o arquipélago.”
Maria Isabel Barreno, O Senhor das Ilhas, Lisboa, Editorial Caminho, 1998, pp.93-94.

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ANTERO DE QUENTAL - Causas da Decadência dos Povos Peninsulares II


“No mundo da inteligência não é menos notável a expansão do espírito peninsular durante a Idade Média. O grande movimento intelectual da Europa medieval compreende a filosofia escolástica e a teologia, as criações nacionais dos ciclos épicos, e a arquitectura. Em nada disto se mostrou a Península inferior às grandes nações cultas, que haviam recebido a herança da civilização romana. Demos à Escola filósofos como Raimundo Lúlio; à Igreja, teólogos e papas, um destes português, João XXI. As escolas de Coimbra e Salamanca tinham uma celebridade europeia: nas suas aulas viam-se estrangeiros de distinção, atraídos pela fama dos seus doutores. Entre os primeiros homens do século XIII está um monarca espanhol, Afonso o Sábio, espírito universal, filósofo, político e legislador. Nem posso também deixar esquecidos os mouros e judeus, porque foram uma das glórias da Península. A reforma da Escolástica, nos séculos XIII e XIV, pela renovação do aristotelismo, foi obra quase exclusiva das escolas árabes e judaicas de Espanha. Os nomes de Averróis (de Córdova), de Ibn-Tofail (de Sevilha) e os dos judeus Maimónides e Avicebron serão sempre contados entre os primeiros na história da filosofia na Idade Média. Ao pé da filosofia, a poesia. Para opor aos ciclos épicos da Távola Redonda, de Carlos Magno e do Santo Graal, tivemos aquele admirável Romancero, as lendas do Cid, dos Infantes de Lara, e tantas outras, que se teriam condensado em verdadeiras epopeias, se o espírito clássico da Renascença não tivesse vindo dar à poesia uma outra direcção. (…)Quanto à arquitectura, basta lembrar a Batalha e a catedral de Burgos, duas das mais belas rosas góticas desabrochadas no seio da Idade Média. Em tudo isto acompanháramos a Europa, a par do movimento geral. Numa coisa, porém, a excedemos, tornando-nos iniciadores: os estudos geográficos e as grandes navegações. As descobertas, que coroaram tão brilhantemente o fim do século XV, não se fizeram ao acaso. Precedeu-as um trabalho intelectual, tão scientífico quanto a época o permitia, inaugurado pelo nosso infante D. Henrique, nessa famosa escola de Sagres, de onde saíam homens como aquele heróico Bartolomeu Dias, e cuja influência, directa ou indirectamente, produziu um Magalhães e um Colombo. Foi uma onda que, levantada aqui, cresceu até ir rebentar nas praias do novo mundo.”
Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, discurso pronunciado na noite de 27 de maio [1871], na Sala do Casino Lisbonense, Lisboa, Guimarães Editores, 2001, pp.21-23.
 

LIVROS NOVOS NA BE


Coleção GRANDES PINTORES DO MUNDO
Diego Velásquez

El Greco

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Hieronymus Bosch

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Miguel Ângelo

Paul Gaugin

Pierre-Augusto Renoir

Sandro Botiticelli

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

ARISTIDES DE SOUSA MENDES, o filme

 
 
Realizado por Francisco Manso e João Correa e protagonizado por Vítor Norte, o filme Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul de Bordéus é hoje apresentado nas salas portuguesas.
 

MURAL DA BIBLIOTECA

Facebook: rede social ou obsessão?


... um complemento para melhorar a qualidade de vida.
... é uma perda de tempo.
... seiscentos milhões de utilizadores em Portugal.
... dependência anti-social.
... rede social.
... obsessão.
... jogar FarmVille 2.
... depende das pessoas, para mim não é obsessão.
... sem Facebook vivíamos em aldeias.
... conseguimos mentir sobre o nosso estado civil.
... é a minha vida.
... não tenho Facebook.
... like.
... gosto.
... Facebokas.

(Pensamentos de utilizadores da BE sobre o Facebook)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ANTERO DE QUENTAL - Causas da Decadência dos Povos Peninsulares I

Antero de Quental (1842-1891)
Imagem daqui.
 

“MEUS SENHORES:
A decadência dos povos peninsulares nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, por que só assim nos poderemos emendar e regenerar. (…)
Meus Senhores: a Península, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, apresenta-nos um quadro de abatimento e insignificância, tanto mais sensível quanto contrasta dolorosamente com a grandeza, a importância e a originalidade do papel que desempenhámos no primeiro período da Renascença, durante toda a Idade Média, e ainda nos últimos séculos da Antiguidade. Logo na época romana aparecem os caracteres essenciais da raça peninsular: espírito de independência local, e originalidade de génio inventivo. Em parte alguma custou tanto à dominação romana o estabelecer-se, nem chegou nunca a ser completo esse estabelecimento. Essa personalidade independente mostra-se claramente na literatura, onde os espanhóis Lucano, Séneca, Marcial, introduzem no latim um estilo e uma feição inteiramente peninsulares, e singularmente característicos. Foram os prenúncios da viva originalidade que ia aparecer nas épocas seguintes. Na Idade Média a Península, livre de estranhas influências, brilha na plenitude do seu génio, das suas qualidades naturais. O instincto político de descentralização e federalismo patenteia-se na multiplicidade de reinos e condados soberanos, em que se divide a Península, como um protesto e uma vitória dos interesses e energias locais, contra a unidade uniforme, esmagadora e artificial. Dentro de cada uma dessas divisões, as comunas, os forais, localizam ainda mais os direitos, e manifestam e firmam com um sem número de instituições, o espírito independente e autonómico das populações. E esse espírito não é só independente: é, quanto a época o comportava, singularmente democrático. Entre todos os povos da Europa central e ocidental, somente os da Península escaparam ao jugo de ferro do feudalismo. O espectro torvo do castelo feudal não assombrava os nossos vales, não se inclinava, como uma ameaça, sobre a margem dos nossos rios, não entristecia os nossos horizontes com o seu perfil duro e sinistro. (…)
A tais homens não convinha mais o despotismo religioso do que o despotismo político: a opressão espiritual repugnava-lhes tanto como a sujeição civil. Os povos peninsulares são naturalmente religiosos: são-no até de uma maneira ardente, exaltada e exclusiva, e é esse um dos seus caracteres mais pronunciados. Mas são ao mesmo tempo inventivos e independentes: adoram com paixão; mas só adoram aquilo que eles mesmos criam, não aquilo que se lhes impõe. Fazem a religião, não a aceitam feita. Ainda hoje duas terças partes da população espanhola ignora completamente os dogmas, a teologia e os mistérios cristãos: mas adora fielmente os santos padroeiros das suas cidades: porquê? Porque os conhece, por que os fez. O nosso génio é criador e individualista: precisa rever-se nas suas criações. Isto (…) explica suficientemente a independência das igrejas peninsulares, e a atitude altiva das coroas da Península diante da Cúria romana. Os Papas eram já muito: mas os bispos e as cortes eram ainda bastante. Para as pretensões italianas havia um não muito franco e muito firme. E essa resistência não saía apenas da vontade e do interesse de alguns: saía do impulso incontrastável do génio popular. Esse génio criador via-se no aparecimento de rituais indígenas, numa singular liberdade de pensamento e interpretação, e em mil originalidades de disciplina. Era o sentimento cristão, na sua expressão viva e humana, não formal e ininteligente: a caridade e a tolerância tinham um lugar mais alto do que a teologia dogmática. Essa tolerância pelos mouros e judeus, raças infelizes e tão meritórias, será sempre uma das glórias do sentimento cristão da Península na Idade Média. A caridade triunfava das repugnâncias e preconceitos de raça e de crença. Por isso o seio do povo era fecundo; saíam dele santos, individualidades à uma ingénuas e sublimes, símbolos vivos da alma popular, e cujas singelas histórias ainda hoje não podemos ler sem enternecimento.”
Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, discurso pronunciado na noite de 27 de maio [1871], na Sala do Casino Lisbonense, Lisboa, Guimarães Editores, 2001, pp.17-21.