Antero de Quental (1842-1891)
Imagem daqui.
“MEUS SENHORES:
A decadência
dos povos peninsulares nos três últimos séculos é um dos factos mais
incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa
decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de
rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa
história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto
profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta
desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente
os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e
definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de
contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também diante do espírito de
verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, por que só assim
nos poderemos emendar e regenerar. (…)
Meus
Senhores: a Península, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, apresenta-nos um
quadro de abatimento e insignificância, tanto mais sensível quanto contrasta
dolorosamente com a grandeza, a importância e a originalidade do papel que
desempenhámos no primeiro período da Renascença, durante toda a Idade Média, e
ainda nos últimos séculos da Antiguidade. Logo na época romana aparecem os
caracteres essenciais da raça peninsular: espírito de independência local, e
originalidade de génio inventivo. Em parte alguma custou tanto à dominação
romana o estabelecer-se, nem chegou nunca a ser completo esse estabelecimento.
Essa personalidade independente mostra-se claramente na literatura, onde os
espanhóis Lucano, Séneca, Marcial, introduzem no latim um estilo e uma feição
inteiramente peninsulares, e singularmente característicos. Foram os prenúncios
da viva originalidade que ia aparecer nas épocas seguintes. Na Idade Média a
Península, livre de estranhas influências, brilha na plenitude do seu génio,
das suas qualidades naturais. O instincto político de descentralização e
federalismo patenteia-se na multiplicidade de reinos e condados soberanos, em
que se divide a Península, como um protesto e uma vitória dos interesses e
energias locais, contra a unidade uniforme, esmagadora e artificial. Dentro de
cada uma dessas divisões, as comunas, os forais, localizam ainda mais os
direitos, e manifestam e firmam com um sem número de instituições, o espírito
independente e autonómico das populações. E esse espírito não é só
independente: é, quanto a época o comportava, singularmente democrático. Entre
todos os povos da Europa central e ocidental, somente os da Península escaparam
ao jugo de ferro do feudalismo. O espectro torvo do castelo feudal não
assombrava os nossos vales, não se inclinava, como uma ameaça, sobre a margem
dos nossos rios, não entristecia os nossos horizontes com o seu perfil duro e sinistro.
(…)
A tais homens
não convinha mais o despotismo religioso do que o despotismo político: a
opressão espiritual repugnava-lhes tanto como a sujeição civil. Os povos
peninsulares são naturalmente religiosos: são-no até de uma maneira ardente,
exaltada e exclusiva, e é esse um dos seus caracteres mais pronunciados. Mas
são ao mesmo tempo inventivos e independentes: adoram com paixão; mas só adoram
aquilo que eles mesmos criam, não aquilo que se lhes impõe. Fazem a religião,
não a aceitam feita. Ainda hoje duas terças partes da população espanhola
ignora completamente os dogmas, a teologia e os mistérios cristãos: mas adora
fielmente os santos padroeiros das suas cidades: porquê? Porque os conhece, por
que os fez. O nosso génio é criador e individualista: precisa rever-se nas suas
criações. Isto (…) explica suficientemente a independência das igrejas
peninsulares, e a atitude altiva das coroas da Península diante da Cúria
romana. Os Papas eram já muito: mas os bispos e as cortes eram ainda bastante.
Para as pretensões italianas havia um não muito franco e muito firme. E essa
resistência não saía apenas da vontade e do interesse de alguns: saía do
impulso incontrastável do génio popular. Esse génio criador via-se no
aparecimento de rituais indígenas, numa singular liberdade de pensamento e
interpretação, e em mil originalidades de disciplina. Era o sentimento cristão,
na sua expressão viva e humana, não formal e ininteligente: a caridade e a
tolerância tinham um lugar mais alto do que a teologia dogmática. Essa
tolerância pelos mouros e judeus, raças infelizes e tão meritórias, será sempre
uma das glórias do sentimento cristão da Península na Idade Média. A caridade
triunfava das repugnâncias e preconceitos de raça e de crença. Por isso o seio
do povo era fecundo; saíam dele santos, individualidades à uma ingénuas e
sublimes, símbolos vivos da alma popular, e cujas singelas histórias ainda hoje
não podemos ler sem enternecimento.”
Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, discurso pronunciado
na noite de 27 de maio [1871], na Sala do Casino Lisbonense, Lisboa, Guimarães
Editores, 2001, pp.17-21.
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