Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987)


 
Biblioteca verde

Papai me compra a Biblioteca Internacional
De Obras Célebres
São só 24 volumes encadernados
Em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança- 
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
Só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.

Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
Bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com arranhão recuso, já sabe: 
Quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga 
Vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiro toda verde.
Sou o mais rico menino destas redondezas. 
(Orgulho não: inveja de mim mesmo.) 
Ninguém mais aqui possui a colecção 
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo. 
Antes de ler, que bom passar a mão 
no som da percalina, esse cristal
de fluída transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.

Agora quero ver figuras. Todas. 
Templo de Tebas, Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vénus nua... Nossa
Senhora, tem disso tudo nos livros? 
Depressa as letras. Careço ler tudo. 
A mãe se queixa. Não dorme este menino. 
O irmão reclama: apaga a luz, cretino! 
Espermacete cai na cama, queima 
A perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo 
na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca   
a paciência  e te dê uma sova. Dorme, 
filhinho meu, tão fraquinho.

Mas leio. Em filosofias 
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias me perco, medievo;
com contos, poemas 
me vejo viver. Como te devoro, 
verde pastagem. Ou antes carruagem 
de fugir de mim e me trazer de volta 
à casa a qualquer hora num fechar 
de páginas?

Tudo o que sei é ela que me ensina. 
O que saberei, o que não saberei nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio 
de flauta-percalina eternamente.


Relembrando o escritor cento e dez anos após o seu nascimento. 


Requisite na BE a Antologia Poética.  


terça-feira, 30 de outubro de 2012

ENCONTRO DE BIBLIOTECAS ESCOLARES


10.º Encontro de Professores e Educadores do Concelho de Sintra sobre Bibliotecas Escolares

9 e 10 de novembro 

Palácio Galveias, Sintra

Toda a informação sobre o evento aqui.

PREPARAR OS TESTES/EXAMES



 

Livros oferecidos à BE pela Texto Editores. Disponíveis na estante das Novidades.

UM CHÁ COM ALICE

Ilustração de Luís Zerbini para edição de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll
Imagem daqui.
 
 
Estará patente no Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, de 1 de novembro de 2012 a 10 de fevereiro de 2013, uma exposição que reúne ilustrações de algumas das versões contemporâneas da famosa obra de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas.
 
A entrada é livre.
 
Todas as informações poderão ser consultadas aqui.
 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

DA CONCISÃO VI

Imagem daqui.
 
 
 
Tu és a própria tarefa. Aqui não se avista nenhum aluno.
 
Franz Kafka, Aforismos (Escritos na Localidade Histórica de Zürau), Lisboa, Assírio & Alvim, 2008, p.46

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

RESISTÊNCIA PASSIVA

José Miguel Silva
Imagem daqui.

RESISTÊNCIA PASSIVA
Passa uma pluma de dente-de-leão,
hesita num joelho, cai, demora-se
num gume de jacinto, parece e não
parece ter vontade própria. Uma vespa
vem do nada, perfeita e acesa, enfia-se
num buraco de adobe, ninguém a viu;
desliza uma caneta sobre papel amarelo.
Do outro lado do rio ribomba o comboio,
num grito de gente moída, tão arcaico
e de lata como a felicidade; as abelhas
sabem que não foi um trovão, e isso
lhes basta, na tarde de jasmim em festa
e sol a pique. Entra um azul de libelinha,
as rãs preparam o ataque, mas a gata dá
dois passos e altera o status quo. Silêncio.
Então o vento muda e traz um coro
de patos, cão agrilhoado, galo triunfante.
E tudo se aquieta de novo, como os peixes
à boca do estio, que ignoram predadores
e amolecem como budas em seu lodo
protegido. A luz começa a perder peso,
já não é o que era, seria altura de se ver
um milhafre – ali está ele. E este ruído
que sobe agora da infância chama-se cuco.
Uma borboleta cor de barro decide arriscar
e tremula entre os espinhos da buganvília,
sai por cima. Nada acontece, nada de mais,
e a vida, a luta, continua. Tempo passa.
José Miguel Silva, Serém, 24 de Março, Lisboa, Averno, 2011, pp. 32-33.
 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

22 DE OUTUBRO - DIA DA BIBLIOTECA ESCOLAR III



Na sala anexa à Biblioteca, os alunos do décimo ano da turma E, acompanhados pela professora Isabel Farias, lembraram a data com a leitura de poemas de Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Florbela Espanca, Antero de Quental, entre outros autores.

VIRIATO REY

Viriato Rey fotografado por Ricardo Velez
Imagem daqui.
 

“1ª PARTE
(As montanhas, rios e vastos campos da Lusitânia serão o principal quadro envolvente dos passos das personagens.)
(...)
 
IV CENA
(Tenda de comando de Viriato. Viriato, Astolpas, Táutalo, soldados, guardas.
Táutalo conduz Astolpas e dois dos homens da sua escolta à presença de Viriato.
Astolpas é um homem de meia-idade. Porte altivo, dominador.
Saúdam-se com relativa frieza, considerando que são sogro e genro.)

TÁUTALO
(Bem-disposto, acompanhado de Astolpas.)
O teu sogro cavalgou três dias para te encontrar. Deve ter notícias frescas e por certo apetitosas!
(Táutalo sai. A um sinal de Viriato saem dois guardas. Viriato e Astolpas ficam frente a frente.)
ASTOLPAS
Necessito de falar contigo, antes de visitar a minha filha.
As nossas relações não têm sido serenas, como as desejo.
VIRIATO
Dispomos da mais sábia das convivências! Viriato manda na sua vida. Astolpas na sua.
ASTOLPAS
Mas chegou a altura de falarmos, se, como o meu, também é teu o desejo de melhor nos entendermos. (Pausa.) Os exércitos romanos, comandados pelo cônsul Máximo Cipião, destruíram Cartago. Na sua fúria de vingança não deixaram pedra sobre pedra!
VIRIATO
(Sereno.)
É uma triste notícia, que também a mim já chegou.
ASTOLPAS
O Senado romano estará agora em melhor posição para fazer deslocar para a Hispânia forças poderosas.
VIRIATO
Os perigos, que se aproximam, não nos consentem a fuga.
ASTOLPAS
Também eu não estou a virar as costas ao perigo!
VIRIATO
Tu és rico, Astolpas. E já foram ricos o teu pai, o teu avô. Tu és rico antes de ser lusitano!
ASTOLPAS
(Duro. Altivo.)
Não deixes a tua ira maltratar-me! Casaste com a minha filha única. Não é só por seres o meu genro que te respeito. Nas horas de grandes convulsões, ser rico nem é recomendável! As fortunas costumam ser o prato preferido pelos grandes abutres que sobrevoam as guerras. Os chefes romanos facilmente encontram motivos para acusar os ricos de graves traições.
(Pequena pausa, difícil, entre os dois homens.)
VIRIATO
Não cavalgaste três dias e três noites para me vires falar do teu ódio por Roma…
ASTOLPAS
Fazer comércio com Roma não é estar com Roma!
VIRIATO
Os Romanos estão na Espanha para a dominar, e não como mercadores para comerciar. Quer queiras, quer não queiras, terás agora de tomar um partido. Os Romanos não deixarão de se lembrar que eu sou o marido da tua filha. E com o devido respeito, recordas-me aquele homem que tinha duas mulheres, uma nova e uma velha. A velha tirava-lhe os cabelos pretos. A nova, os brancos. E com as duas a tirarem-lhe o cabelo, o homem depressa ficou completamente calvo. Deves ficar-te pela velha, ou pela nova. Este conselho é mais um bom serviço que te presto.
(Pequena pausa incómoda.)
Já deves saber Astolpas… As nossas hostes vão marchar ao encontro de Serviliano.”
João Osório de Castro, Viriato Rey, com ilustração de José Manuel Castanheira, 3ª edição destinada ao Ministério da Educação de Portugal e Ministerio de Educación y Ciencia de Espanha, 2006, pp 25 e 43-47.

Excerto da Apresentação:
“Esta obra de João Osório de Castro, baseada na história mítica de Viriato, herói da Lusitânia, foi estreada no dia 10 de Agosto de 2006 no Teatro Romano de Mérida (integrada na programação do Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida), com dramaturgia de João Mota, apoio dramatúrgico de Miguel  Murillo e cenografia de José Manuel Castanheira, produção do Festival, com a colaboração de Al Suroeste produciones/ Javier Leone.”
 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

22 DE OUTUBRO - DIA DA BIBLIOTECA ESCOLAR II

video

Os alunos do 10.º F, acompanhados pela professora Ema da Silva, festejaram este dia com a leitura de textos em inglês. Promoveram ainda um debate sobre livros e Internet, no qual participaram também os utilizadores da BE. Após uma interessante partilha de ideias, concluíram: " apesar da importância da Internet nas nossas vidas, preferimos os livros".


BIBLIOTECA DE FERNANDO PESSOA

Imagem daqui.
 
A biblioteca particular de Fernando Pessoa está digitalizada e poderá ser consultada em linha no endereço
 
 


22 DE OUTUBRO - DIA DA BIBLIOTECA ESCOLAR I


Imagem: Biblioteca da ESJS

"(...) um dos mal entendidos que dominam a noção de biblioteca é o facto de se pensar que se vai à biblioteca pedir um livro  cujo título se conhece. Na verdade acontece muitas vezes ir-se à biblioteca porque se quer um livro cujo título se conhece, mas a principal função da biblioteca, pelo menos a função da biblioteca da minha casa ou da de qualquer amigo que possamos ir visitar, é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam de extrema importância para nós.
(...) a função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados."

ECO, Umberto - A Biblioteca, Algés: Difel, 2002, 5.ª ed. 46 p. ISBN 972-29-0608-9

 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

SUGESTÃO DE LEITURA (25)


Diz uma velha canção que no fundo de uma garrafa se encontra a vida de um homem, e por certo que assim acontece desde que se inventou a fermentação do malte. Mas no meu caso basta-me um só copo girando no fundo da mão, duas boas pedras de gelo e a noite a cair sobre o lobby vulgar de um hotel, para começar a lembrar-me daquele dia em que uns certos amigos do meu pai entraram em nossa casa brandindo uma garrafeira completa, criaram um alvoroço em nome de alguma coisa que tinha a ver com a vingança, e só depois dessa enorme desordem partiram entoando a canção do esquecimento como se estivessem perdidos de bêbados. E no entanto, não precisavam de ter vindo gerar aquele entretenimento forçado para compreendermos a situação em que nos encontrávamos. Por que precisaríamos?
(da contracapa da obra)
 
Título disponível na BE.

Livro oferecido por Pedro Casais, delegado escolar TEXTO-LEYA

LIVROS NOVOS NA BE




Lista das mais recentes aquisições organizada de acordo com a tabela de Classificação Decimal Universal (CDU).

Classe 0 - Generalidades 
004 Ciência e Tecnologia Informáticas. Computação


ABREU, Luís - HTML5 – Lisboa: FCA, 2012, 2.ª ed. 312p. ISBN978-972-722-739-6
CARDOSO, Jorge - Programação de Sistemas Distribuídos em Java. Lisboa: FCA, 2008, 351 p. ISBN 978-972-722-601-6
COELHO, Pedro Alexandre - Javascript- Animação e Programação em Páginas Web. Lisboa: FCA, 2009, 502 p. ISBN 978-972- 722-254-4
FONSECA, Nuno - Introdução à Engenharia de Som. Lisboa: FCA, 2012, 6.ª ed. 628 p. ISBN 978-972-722-728-0
RIBEIRO, Nuno Magalhães - Multimédia e Tecnologias Interativas. Lisboa: FCA, 2012, 5.ª ed. 628 p. ISBN 978-972-722-744-0
ROCHA, António Adrego - Estrutura de Dados e Algoritmos. Lisboa: FCA, 2011, 566 p. ISBN 978 -972-722-704-4
SANTOS, Joel - Fotografia: luz, exposição, composição, equipamento dicas para fotografar em Portugal. Vila Nova de Famalicão: Centro Atlântico, 247 p. ISBN 978-989-615-099-0
URBANO, Magno, Fotografia Digital - Técnicas com Photoshop. Lisboa:FCA, 2011, 276 p. ISBN 978-972-722-751-0


 Classe 8 - Língua. Linguística. Literatura

JORGE, Lídia – Praça de Londres: cinco contos situados. Lisboa: Dom Quixote, 2008, 98 p. ISBN 978-972-20-3625-2

LOSA, Ilse - O mundo em que vivi. Lisboa: Edições Afrontamento, 2011, 32.ª ed. 196 p. ISBN 978-972-36-0535-8

MODIGNANI, Sveva Casati – A Viela da Duquesa. Porto: Porto Editora, 2012, 2.ª ed. 536 p. ISBN 978-972-0-04403-7


Classe 9 - Geografia. Biografia. História 

AMARAL, Luís Carlos; BARROCA, Mário Jorge – A condessa- rainha: Teresa. Maia: Círculo de Leitores, 2012, 424 p. ISBN 978-972-42-4702-1


HAYAT, Sofia – Desonrada. Lisboa: Edições Asa, 2011, 217 p. ISBN 978-989-23-1085-5

RODRIGUES, Ana Maria S. A. – As tristes rainhas: Leonor de Aragão – Isabel de Coimbra. Maia: Círculo de Leitores, 2012, 455 p. ISBN 978-972-42-4708-3

JORGE AMADO E O NEORREALISMO PORTUGUÊS

 
Poderá consultar aqui o texto de apresentação desta exposição.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

UTOPIA


Primeira edição de Utopia, Lovaina, 1516
Imagem daqui.
 
“Entrámos num grande aposento com as paredes de madeira. Pendia do teto uma lâmpada de luz amarelada. A mesa, por qualquer razão, intrigou-me. Na mesa havia uma clepsidra, a primeira que vi, além de uma gravura de aço. O homem indicou-me uma das cadeiras.
Ensaiei diversos idiomas e não nos entendemos. Quando ele falou fê-lo em latim. Reuni as minhas já longínquas memórias de bacharel e preparei-me para o diálogo.
- Pelo traje – disse-me -, vejo que chegas de outro século. A diversidade de línguas favorecia a diversidade dos povos e até das guerras; a Terra regressou ao latim. Há quem receie que torne a degenerar em francês, em limusino ou em papiamento, mas o risco não é imediato. De mais a mais, nem o que foi nem o que será me interessam. (…)
Atravessámos um corredor com portas laterais que dava para uma pequena cozinha onde tudo era de metal. Voltámos com o jantar numa bandeja: malgas com espigas de milho, um cacho de uvas, uma fruta desconhecida cujo sabor me recordou o do figo e um grande jarro de água. Creio que não havia pão. As feições do meu hóspede eram agudas e tinha algo de singular nos olhos. Não esquecerei esse rosto severo e pálido que não tornarei a ver. Não gesticulava ao falar.
Tolhia-me a obrigação do latim, mas finalmente disse-lhe:
- Não te assombra a minha súbita aparição?
- Não – replicou-me -, tais visitas ocorrem-nos de século em século. Não duram muito; o mais tardar estarás amanhã em tua casa.
A certeza da sua voz bastou-me. Julguei prudente apresentar-me:
- Sou Eudoro Acevedo. Nasci em mil oitocentos e noventa e sete, na cidade de Buenos Aires. Completei já setenta anos. Sou professor de letras inglesas e americanas e escritor de contos fantásticos. (…)
Numa das paredes vi uma estante. Abri um volume ao acaso; as letras eram claras e indecifráveis e traçadas à mão. As suas linhas angulosas recordaram-me o alfabeto rúnico, que, no entanto, só se empregou para a escrita epigráfica. Pensei que os homens do porvir não só eram mais altos, como mais destros. Instintivamente olhei para os longos e finos dedos do homem.
Este disse-me:
- Agora vais ver algo que nunca viste.
Passou-me com cuidado um exemplar de A Utopia de More, impresso em Basileia no ano de 1518 e em que faltavam folhas e gravuras.
Não sem fatuidade repliquei:
- É um livro impresso. Lá em casa haverá mais de dois mil, embora não tão antigos nem tão preciosos.
Li em voz alta o título.
O outro riu-se.
- Ninguém pode ler dois mil livros. Nos quatro séculos que levo de vida não terei passado de uma meia dúzia. Aliás não é ler que importa, mas reler.”
Jorge Luís Borges, O Livro de Areia, Lisboa, Quetzal Editores, 2011, pp. 90-92.

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

QUANDO O CINEMA FILMA LIVROS

Imagem do sítio da Fundação Calouste Gulbenkian
 
Como extensão da exposição "TAREFAS INFINITAS. Quando a arte e o livro se ilimitam", é proposto um Ciclo de Cinema na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, de 17 a 18 de outubro.

Todas as informações poderão ser consultadas aqui.
 
 

SEM PALAVRAS IV

Habanera de Zlabya - Olivier Daviaud

EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA (13)

Livros Infantis


Fotografias do Professor Martinho Rangel

Livros infantis pop up da biblioteca pessoal do Professor Henrique Correia.

Para ver na Biblioteca da ESJS até 31 de Outubro de 2012.

LIGA-TE AOS OUTROS: NOVA EDIÇÃO DO CONCURSO


Saber mais sobre o concurso aqui

O GATO DO RABINO

 
Argélia, 1920: a história de um gato sem nome que tem o dom da palavra...
 
Filme de animação francês de Joann Sfar e Antoine Delesvaux, vencedor do prémio Cristal de Melhor Longa-Metragem, em 2011, no Festival de Annecy, e do César de Melhor Filme de Animação em 2012.
 
O filme é baseado na banda desenhada com o mesmo nome, assinada por Joann Sfar e já traduzida em Português.
 
Imagem do sítio Le Chat du Rabbin, em http://www.chat-du-rabbin.com/
 
 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

DA CONCISÃO V

Imagem daqui.
 
 
"Toda a água aspira a tornar-se vapor, e todo o vapor a voltar a ser água."
 
Marguerite Yourcenar

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

RELEMBRANDO ILSE LOSA (1913 - 2006)


Informações sobre a escritora e a sua obra aqui

Em 2013, comemora-se o centésimo aniversário de Ilse Losa. Para assinalar a efeméride, aqui fica um texto do seu livro de crónicas À Flor do Tempo.


O QUE LÁ VAI LÁ VAI

«O que lá vai lá vai», ouve-se frequentemente dizer. E, não raras vezes, acrescenta-se: «Eu não olho para trás, mas sempre para a frente», o que pretende soar a heroísmo mas, bem analisado, não tem consistência. Não há dia e nem sequer hora em que não olhemos para trás. Basta termos memória. Por tudo e por nada associamos palavras, sítios, objectos, comidas, leituras, caras, acontecimentos, com alguma coisa ouvida, vista, comida, lida, vivida. E mesmo os heróis de designíos relevantes e que afirmam olhar sempre para a frente por, desse modo, desejarem corrigir os males do nosso mundo, evocam, de certeza, tal como toda a gente, os eventos bons e maus que lhes ficaram para trás.
Na realidade, esse «O que lá vai, lá vai» ou o «Águas passadas não movem moinhos» são ditos cujo desígnio é arredar recordações de acontecimentos calamitosos na nossa vida e deixar ficar apenas as horas soalheiras. Seria bom se isto fosse possível. Ou talvez nem fosse, porque podia fazer de nós qualquer coisa como patetas alegres...
Pois quando eu, outro dia, estava sentada no sossego de uma tarde primaveril numa esplanada da Foz do Douro, contemplando o mar brando, pacífico, os meus olhos caíram sobre o molhe que se estendia solidamente pelo mar dentro, na intenção de abrigar das ondas e dos vendavais as embarcações.
Não havia nada de especial para ver naquele cais, sequer algum pacato passeante. E, no entanto, eu vi um jovem a atravessá-lo. Vi o mar agitar-se, vi o jovem a parar no final do molhe, a fitar as águas tempestuosas, deixar-se salpicar pelo chuvisco trazido das ondas. Talvez achasse tudo isso belo ou divertido ou assustador. Tanto não pude ver. Mas vi uma das ondas a empinar-se e, qual animal raivoso, a galgar para cima do molhe, envolver o jovem e levá-lo consigo.
Este jovem apareceu na cidade uns poucos dias antes de rebentar a Segunda Guerra Mundial. Falara com excitação da sua sorte de ter conseguido, à última hora, salvar-se das garras dos carrascos e de estar na posse de um visto para a América do Norte, que amigos de lá lhe tinham arranjado. Faltava-lhe apenas o bilhete de uma passagem de barco. Estivera contente e confiante... Estremeci. O dia estava magnífico, o mar um remanso, o molhe sólido, vazio. E eu a cismar num acontecimento que já lá vai...

LOSA, Ilse - O que lá vai, lá vai. In À Flor do Tempo: crónicas. Porto: Edições Afrontamento. 1997. ISBN 972-36-0434-5, p. 23-24.

Livro disponível na BE. 


DA SAUDADE III

Foto daqui.
 

“Em mil oitocentos e oitenta e oito, parte António Nobre para Coimbra, a fim de frequentar o primeiro ano do Curso de Direito. Nesse espaço geográfico, que profundamente o marcará, veremos o poeta descobrir um contexto universitário caracterizado, ainda, pelo escolasticismo medieval, se bem que segregador de uma admirável camaradagem de afectos e de letras. E, entre as aulas, nos Gerais, a que assiste, algo distraído da lição dos lentes e dos compêndios, e uma certa boémia, que o há-de arrastar por melancolias e patuscadas, começará ele a erguer o corpo de um imaginário que irá resumir-se, a breve trecho, num tecido de linhas escritas a tinta negra.
(…)
Em mil oitocentos e noventa, a fim de tentar obter a licenciatura em Direito, na Sorbonne, parte António Nobre para Paris, a bordo do Britannia. Se leva infinitas saudades da Pátria, cedo se enfeitiçará pela metrópole que o acolhe, e na qual o seu provincianismo respira a sensação do grande ar cosmopolita. Acotovelar-se com os ídolos da literatura do momento, julgando-se da sua côterie, ou intentando ingressar nela, haverá de lhe adormecer, durante a fase inicial, a consciência da solidão dilacerante. E isto, sem falar do encontro inesquecível que, no intuito de regularizar a sua situação de emigrado, irá ter o poeta, predisposto a uma funda impressão, com Eça de Queirós, cônsul na capital de França.”
Mário Cláudio, António Nobre, 1867-1900, Fotobiografia, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001, pp. 43 e 61.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

DA SAUDADE II

Imagem daqui.
 

“Hipóteses para a SAUDADE,
Um estudo de mitologia
A não esquecer: eu não conheço nenhum segredo de Portugal. O secreto é íntimo e eu não entrei na intimidade de Portugal, nem sequer na escassa medida em que um estrangeiro pode fazê-lo. Tenho dele, pois, só uma «visão» exterior, uma perspectiva fisionómica.
As circunstâncias do mundo trouxeram-me aqui e as razões pelas quais aqui estou aconselham-me uma vida retirada. Mas ainda que assim não fosse, motivos pessoais impedir-me-iam de entrar na intimidade de Portugal. Esta só pode ser vista desde dentro de ela própria, tal como a fisiognomonia é visão desde o exterior. E «entrar» num povo é não só pura e simplesmente estar nas suas ruas, mas viver nele, ser nele. (…)
A Saudade não é um tema português, mas o tema português por excelência. Se outro qualquer pode situar-se na sua periferia é, porventura, a «Descoberta». Ambos polarizam a realidade histórica que é Portugal. E resulta que são uma contraposição: a «Descoberta» é a ânsia de partir, a «Saudade» a ânsia de voltar. A ex-patriação (uma vez) e a re-patriação permanente: antes e depois da Descoberta. Portugal é o «filho pródigo» de si mesmo. O que é nele mais autêntico? O partir ou o voltar? Aquilo fê-lo uma vez: isto fê-lo e está sempre a fazê-lo. A cada dia, cada hora o português volta a si. (…)

 
Ao longe, a costa abrupta do Cabo Espichel estira-se sobre o mar elasticamente, com oculta intenção. Mas, à distância, toda a terra, montanha, costa, se transforma, porque ali, na lonjura do nosso horizonte, a sós com o céu, perde os caracteres do elemento sólido, dureza, gravidade e ensaia a conversão em algo fluido, em tornar-se nuvem, nebuloso. Como tantos seres, ao longe sonha que é céu e pronto adquire um matiz azulado para se vestir à moda celestial.”
José Ortega y Gasset, Saudade, notas de trabalho, Lisboa, Produções Editoriais Sete Caminhos, 2005, pp. 17-30.
 


"Nota Introdutória - Ortega datou de Outubro de 1943 várias pastas de «Notas de Trabalho» que contêm projectos de livros, como o do Epílogo ou mesmo este da Saudade. O invulgar do dado confere-lhe uma importância especial, principalmente se tivermos em conta que, para ele, «a nossa vida está datada» e os números convertidos em datas são os limites dessa vida. Efectivamente, é em 1943 que põe casa em Lisboa depois de um exílio ocasional. Ortega cumpre os sessenta anos e se é certo que, por um lado, se sente velho para algumas coisas, por outro, é isso mesmo que o impele a entregar-se a projectos mais ambiciosos - nada menos que uma revisão do pensamento ocidental, pois «...a filosofia é a forma que toma a juventude, florindo e amadurecendo no homem velho". Este é o conteúdo do curso de 1943 em Lisboa, «Sobre a razão histórica»." - José Luís Molinuevo


terça-feira, 9 de outubro de 2012

PERSÉPOLIS, de Marjane Satrapi

Persépolis - o livro e o filme.
Imagem daqui.
 
 
“No segundo milénio a.C., enquanto o Elão desenvolvia uma civilização ao lado da Babilónia, os invasores indo-europeus deram o seu nome ao imenso planalto iraniano onde se fixaram. A palavra «Irão» derivava de «Ayryana Vaejo», que significa «a origem dos Arianos». Os Arianos eram um povo seminómada cujos descendentes foram os Medos e os Persas. Os Medos fundaram a primeira nação iraniana no século VII a.C., mais tarde destruída por Ciro, o Grande, que fundou aquele que foi um dos maiores impérios da Antiguidade, o império persa, no século VI a.C. O Irão foi conhecido como Pérsia – o seu nome grego – até 1935, quando Reza Shah, o pai do último xá do Irão, pediu a toda a gente que passasse a chamar Irão ao país.
O Irão era rico. As suas riquezas e a sua localização geográfica convidavam aos ataques: de Alexandre Magno, dos seus vizinhos árabes a ocidente, dos conquistadores turcos e mongóis. O Irão foi muitas vezes dominado por estrangeiros. Contudo, a língua e a cultura persas sobreviveram a essas invasões. Os invasores assimilavam a sua marcante cultura e, de certa forma, tornavam-se também iranianos.
No século XX, o Irão entrou numa nova fase. Reza Shah decidiu modernizar e ocidentalizar o país, mas, entretanto, foi descoberta uma nova fonte de riqueza: o petróleo. E, como petróleo, veio uma nova invasão. (…) Durante a Segunda Guerra Mundial, os Britânicos, os Soviéticos e os Americanos pediram a Reza Shah que se aliasse com eles contra os Alemães. Porém, Reza Shah, que simpatizava com os Alemães, declarou o Irão território neutro. Então, os Aliados invadiram e ocuparam o Irão. Reza Shah foi mandado para o exílio e sucedeu-lhe o filho, Mohammad Reza Pahlavi, que era conhecido simplesmente por xá.
Em 1951, Mohammed Mossadegh, então primeiro-ministro do Irão, nacionalizou a indústria petrolífera. Em retaliação, a Grã-Bretanha organizou um embargo a todas as exportações de petróleo do Irão. (…) Mossadegh foi deposto e o xá, que tinha saído pouco antes do país, regressou ao poder. Permaneceu no trono até 1979, quando fugiu do Irão para escapar à Revolução Islâmica.
Desde então, esta antiga e grandiosa civilização tem sido quase sempre associada ao fundamentalismo, ao fanatismo e ao terrorismo. Como iraniana que viveu mais de metade da sua vida no Irão, sei que esta imagem está muito longe da verdade. É por isso que escrever Persépolis foi tão importante para mim. Acredito que uma nação inteira não deve ser julgada pelos crimes de uns quantos extremistas. Também não quero que aqueles iranianos que perderam a vida nas prisões defendendo a liberdade, que morreram na guerra contra o Iraque, que sofreram às mãos de vários regimes repressivos ou que foram forçados a abandonar as suas famílias e a fugir da sua pátria sejam esquecidos.
Podemos perdoar, mas não devemos nunca esquecer.”
Marjane Satrapi
Paris, setembro de 2002 (palavras da Introdução)

Marjane Satrapi, Persépolis, Lisboa, Contraponto, 2012