Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

DA SAUDADE XVI


Imagem daqui.



"Não se pode deixar de assinalar a importância desse complexo a que se chama «saudade», embora o portuguesismo desta palavra seja um lugar-comum que tem vários séculos. É improvável que se trate de um sentimento exclusivamente português; mas é certo que tem na nossa língua e na nossa literatura uma presença saliente e quase obsessiva.

O sentimento chamado saudade caracteriza-se pela sua duplicidade contraditória: é uma dor da ausência e um comprazimento da presença, pela memória. É um estar em dois tempos e em dois sítios ao mesmo tempo, que também pode ser interpretado como uma recusa a escolher: é um não querer assumir plenamente o presente e o não querer reconhecer o passado como pretérito. Do ponto de vista da atividade, é um acelerador combinado com um travão simultâneo, se é possível usar imagens mecânicas em matéria de tanta subtileza qualitativa. De qualquer forma, é um sentimento complexo, mesclado, doce-amargo, pouco propício à ação, e não deve ter contribuído pouco para que a personalidade portuguesa apareça a observadores estrangeiros como desnorteante e paradoxal.

A saudade está ligada ao apego que se criou aos sítios, aos tempos e às pessoas que ficaram distantes. E é muito característica do amor à portuguesa, que parece comprazer-se na distanciação. O amor é um tema extraordinariamente obsessivo na literatura portuguesa, desde os primeiros cancioneiros, prosseguindo quase sem descontinuidade até aos nossos dias, passando por Bernardim Ribeiro, Camões, Tomás António Gonzaga, Bocage, Garrett, Camilo, cujo Amor de Perdição, segundo Unamuno, é a «novela de paixão amorosa mais intensa e mais profunda que se escreveu na Península». É um dos principais temas da poesia popular. «Poucos países haverá que tenham tanta abundância de poesias amorosas como Portugal» (J. Leite de Vasconcelos, 1881)."

António José Saraiva, A Cultura em Portugal: Teoria e História, vol. I, Lisboa, Gradiva, 1994, pp. 83-84.



Sem comentários:

Enviar um comentário